Por Jônatas Ferreira
Fotos: Rafael Almeida

Quando chegamos à Penitenciária II Desembargador Adriano Marrey, na Várzea do Palácio, às margens da Dutra, na manhã fria de 7 de novembro, por volta das 9h30, um clima de tensão e tristeza recepcionou a equipe da Revista Guarulhos. A fila para visita não era tão grande, mas a angústia dos que nela aguardavam podia ser notada e até sentida de longe.

Os visitantes traziam sacolas e mais sacolas. Em sua grande maioria, com alimentos e produtos de higiene em potes transparentes que passariam por revista. Do lado de fora, presos faziam o serviço de limpeza.

Mesmo com autorização judicial e prévio aviso de pauta à direção da unidade prisional, não foi dada moleza à Reportagem. Passamos por revista, tanto dos equipamentos que carregávamos quanto a corporal. Na primeira vez em que passei pelo detector de metais, ele apitou. Tive de voltar e colocar o cinto na esteira do raio-x. Apesar de estar ciente dos processos para entrada e de ser recebido pelo agente penitenciário que conduziria a equipe, a rigidez contribuiu para aumentar a inquietação.

A penitenciária foi construída em 1998 e suas paredes revelam esse tempo. A unidade prisional tem capacidade para 1.268 presos, no entanto, o número de reclusos é de 1.628, conforme dados divulgados pela própria Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), no dia 9 de novembro, dia em que foi feita a consulta.

Por questões de segurança, não pudemos fotografar algumas áreas da penitenciária, mas, a sensação é literalmente de estar atrás das grades, até para nós, visitantes. Por exemplo, mesmo estando com um agente penitenciário, devemos esperar o segurança que cuida de determinada área abrir o portão para, então, entrar.

Ao ter acesso ao anexo que leva para o corredor do Núcleo de Educação, um som chamou a atenção. De longe, era possível ouvir os murmúrios, que não demoraram a se transformar numa bela canção norte-americana muito conhecida: “Amazing Grace”. Entoada pelos presos no primeiro ensaio de uma nova série de canções que o coral da penitenciária apresentaria, o misto de vozes masculinas trouxe uma sensação diferente daquela sentida na entrada da unidade prisional.

O grupo de cantores faz parte de um projeto de ressocialização promovido pelos próprios funcionários da casa. Além do coral, há grupo de teatro e de dança, sarau, acústico e oficina de crochê – este último desenvolvido pelo conceituado artesão e estilista pernambucano Gustavo Silvestre, que já tem um desfile a ser apresentado na Pinacoteca de São Paulo com os trabalhos feitos pelos presos.

Para conversar com a RG, quatro detentos foram escolhidos pela coordenação dos trabalhos. Ailton Celio Zancheta, de 47 anos, recluso há quase dois anos e que participa das oficinas de acústico, teatro e coral há um ano e cinco meses. Zancheta se sente à vontade com a música. Ele, compositor, conta que tocava e cantava na igreja, e quase teve seu projeto apoiado por cantores famosos da música gospel. “O crime trouxe desvalorização do meu ser, dos meus dons. Foi dissabor. Eu consegui enxergar nas oficinas uma luz no fim do túnel. Eu sei que eu tenho valores, e se eles forem potencializados, vou mostrar que é possível mudar. Quando eu estiver lá fora eu quero poder ajudar as pessoas a deixarem o crime, assim como eu fui ajudado”, conta emocionado. Para Zancheta, estar envolvido com a arte mostrou vida na morte. “A arte trouxe a reflexão se vale mesmo a pena estar aqui”. Sua pena é de seis anos.

Apesar de ficarem ansiosos, os presos que participam dos projetos de ressocialização não têm uma programação exata de quando “descerão” para os trabalhos. Quando estão nas salas da ala do núcleo de educação, ficam cerca de duas horas e ali aproveitam o máximo que podem. Isso pode acontecer duas vezes ao dia ou nenhuma. Tudo vai depender de todo um contexto que envolve as rotinas diárias da penitenciária e outras oficinas que também são desenvolvidas por universidades, ONG’s, instituições de ensino e religiosas. Segundo eles, quando os trabalhos estão próximos de serem apresentados, os ensaios tornam-se mais intensos.

Outro que participa dos trabalhos é Marcos Ricardo da Silva, de 40 anos. Foi condenado a dez anos e está na penitenciária há três. Desde então participa dos grupos de ressocialização. Envolvido com grupo de acústico, tem o violão como seu grande aliado. Com o instrumento, além de tocar na cela, também ajuda nas terapias de presos com problemas psiquiátricos por meio das melodias. Durante o tempo em que permaneci na sala com os reclusos, Marcos dedilhou o violão sem ninguém pedir. Sua música serviu como pano de fundo para a conversa. “É terapia para a alma”, disse, enquanto tocava.

Atila Douglas da Silva, de 36 anos, foi condenado a nove anos. Está na cadeia há um ano e quatro meses e começou a participar dos projetos pouco tempo depois de entrar na penitenciária. Para ele, estar no teatro, no coral e sarau representa uma terapia, uma fuga das conversas e do ambiente pesado no raio – local onde ficam as celas.

O quarto integrante do grupo que conversou com a RG foi Gabriel Martins Mendes, de 26 anos. Há três anos e três meses na prisão, descobriu os projetos de ressocialização há 2 anos e 11 meses. Martins já participou dos grupos de dança, alcoólicos anônimos e o teatro, paixão descoberta pelos responsáveis do projeto. “Eu participo para poder mostrar minha boa conduta, mostrar que estou me reerguendo. Quero sair daqui com alguma coisa que eu possa usar lá fora, que é o teatro. Eu nunca fiz e nunca tive vontade de fazer teatro, mas me descobriram e eu me sinto realizado”, comentou Gabriel, que recentemente também começou no crochê.

Durante a conversa, Gabriel relatou situações em que sofreu bullying por causa de encenações no teatro, ocasiões onde ele interpretou mulheres. O momento foi oportuno para o agente penitenciário de segurança Igor Rocha, de 58 anos, responsável pelos projetos e quem nos acompanhou durante a visita, trocar uma ideia com o preso e mostrar que o fato dele não ter se incomodado com as chacotas e ter continuado atuando, mostra que ele é um verdadeiro artista e está no caminho certo para a mudança. Rocha também trouxe reflexões para os presos em outros momentos da entrevista.

Desde o princípio, a pauta tratou dos projetos que são desenvolvidos para reinserção dos presos à sociedade. Portanto, não perguntei, em nenhum momento, sobre os motivos que os levaram até ali.

A arte traz liberdade

Desenvolver essas oficinas nos corredores de uma unidade prisional não é tarefa tão simples. Conversamos com o agente Igor Rocha. Ele foi o responsável por implementar os trabalhos internos que têm a arte como princípio para a ressocialização. “Ninguém acreditava em nós. Eu tive que ralar muito para conseguir colocar esse projeto em prática. Ainda bem que encontrei pessoas que me apoiaram. Antes de começar uma ação como essa, a população penitenciária precisa aceitar. A sociedade, os funcionários e a direção também precisam aceitar. É bem complicado. Por exemplo, muitos reclusos não participam por estarem perto de funcionários. Os presos criaram uma imagem dos colaboradores como sendo integrantes da polícia”, explica.

O primeiro projeto foi o de teatro. O grupo “Do Lado de Cá” foi criado há sete anos. E, desde então, trabalha com temas que trazem reflexões aos sentenciados, dando a eles uma forma nova de se pensar e uma oportunidade de mudança, além de humanizá-los e prepará-los para uma nova vida do lado de fora. Assim como aconteceu com Rocha. “Eu trabalho há 20 anos como agente penitenciário. Já passei por diversas unidades e até diretor eu fui. Ser agente traz mudança na sua vida, querendo ou não. Você não tem a mesma liberdade que outro cidadão tem de ir num bar tomar a cerveja com os amigos, por exemplo. Não é uma questão muito simples. A gente vê muita coisa ruim. Vi rebeliões, mortes, violência. Somado a outras situações da vida acabei entrando em depressão e estava prestes a largar tudo”.

Foi em 2003, conta Rocha, que ele encontrou-se com o teatro por meio do conceituado teatrólogo Augusto Boal, morto em 2009, que o fez ver que existem vidas piores do que a dele. “Ele disse para mim: ‘pare de se vitimizar. Eu vou provar pra você que existe perrengue pior que o teu’. Foi então que ele me mostrou crianças da África em pele e osso por causa da fome”, conta Rocha. A partir de então, parou de tomar remédios e frequentar psicólogos e passou a dedicar-se a esse hooby, além de também dar aulas de valorização para agentes penitenciários.

Quando Rocha apresentou o projeto, ele se baseou na linha do que propõe o seu mestre teatrólogo. A ideia principal é humanizar os presos. Todas as letras, peças e ideais desenvolvidos não vêm do nada. Existe todo um conceito, uma lição a ser ensinada para os reclusos que participam e que assistem às encenações. Como a canção Amazing Grace, que tem sua relação histórica com escravos.

Vale ressaltar que todos os agentes promovem os trabalhos de forma voluntária. Também sendo uma forma de cumprir a Lei de Execução Penal, que tem por objetivo a reinserção da pessoa que transgrediu a lei e que necessita ser reinserida na sociedade, depois de cumprir a pena determinada pela Justiça. “Na hora da seleção, não levo em conta o crime. Entendo que se ele está ali é porque ele já foi julgado e já está pagando pelo que fez. Nas oficinas, somos todos iguais. A ideia é prepará-los para o mundo lá fora. É claro que, se alguém der qualquer tipo de problema, está fora. O interessante é que hoje os reclusos querem que a coisa aconteça. Eles não deixam ninguém atrapalhar.

Tornou-se parte deles”, relata Igor, que também diz que quando as vagas para as oficinas são anunciadas, há mais de 150 pessoas interessadas.

Questionado se há presos que participam das oficinas apenas por interesse nos benefícios que elas trazem, como redução de pena, Igor diz que sim, mas não ficam por muito tempo. “A diferença é que além de eu ter uma conversa bem franca com eles, no primeiro dia de aula eu digo: hoje vamos dançar balé”, a provocação, segundo Rocha, é para quebrar estigmas. “Eles vão mostrar para os outros que eles quebraram os preconceitos antes”.
O grande sonho de Rocha é transformar todos os projetos em políticas públicas. “A arte liberta. A arte cria críticos. E alguns grupos não gostam de pessoas críticas”, comenta. Igor quer que a Prefeitura de Guarulhos contribua também com o desenvolvimento das oficinas, como por exemplo, cedendo arte-educadores.

Quem também está mergulhado nos trabalhos é o agente e coordenador do projeto Coral & Acústico, Mário Jorge Antunes, de 58 anos, que se dedica ao serviço voluntário há cinco anos, dos oitos que trabalha como agente. Ele começou quando viu, em uma de suas andanças nos corredores da penitenciária, um preso que cantava reggae. “Ele sabia cantar, mas não tinha noção de arranjo, tempo musical. Organizei mais um pessoal que sabia tocar e então comecei. A princípio foi apenas acústico, o coral é mais recente”, conta Antunes.

Segundo Antunes, leva cerca de seis meses entre seleção, ensaio e apresentação, até que as vozes e instrumentos estejam afinados. “É possível ver a mudança da água para o vinho. Você percebe na postura, na fala. Até mesmo o olhar é diferente, mais brando, menos carregado”.

O Marrey também conta com aulas de educação básica, cursos profissionalizantes ministrados por parceiros e outros projetos de iniciativa externa, como o Recomeçar, do Gerando Falcões, que visa fazer a reintegração do egresso no mercado por meio de parcerias com empresas brasileiras, gerando oportunidade de trabalho e renda. Segundo Igor Rocha, são indicados para lá egressos que passaram pelas oficinas. “O reeducando precisa passar por um processo de humanização. Não se transforma pessoas em seis meses”, finaliza.

Repercussão

“Quase sempre há razões profundas que levam uma pessoa a errar. Por isso é sempre importante não julgar”, comentou o tenor italiano Andrea Bocelli, quando visitou a Penitenciária II Desembargador Adriano Marrey, oportunidade em que ouviu e cantou ao lado do coral, formado por cerca de 30 presos. Na ocasião, o coral apresentou a clássica “Con Te Partirò”. A cena foi repercutida pelos grandes veículos do País e pode ser encontrada facilmente na internet.

Sugestão de leitura

O médico Drauzio Varella faz serviços voluntários desde 1989 em penitenciárias do Brasil. Seus trabalhos na extinta Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru, renderam as obras “Estação Carandiru” (1999) e “Carcereiros” (2014), esta última adaptada para uma minissérie homônima pela Rede Globo.

Em 2017, Drauzio encerra sua trilogia literária sobre o sistema carcerário brasileiro com “Prisioneiras”. Todas as obras foram lançadas pela Companhia das Letras.

Matéria originalmente publicada na Revista Guarulhos nº 125