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A Páscoa e as religiões

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Longe da representatividade e exploração comercial que a data oferece, a Páscoa tem uma origem na tradição judaico-cristã. Os judeus celebram o “Pessach” (que significa “passagem” no hebraico), rememorando a passagem dos hebreus pelo mar Vermelho, liderados por Moisés, marco da libertação daquele povo da escravidão do Egito, após 400 anos cativos.

O termo Páscoa tem o mesmo significado para os cristãos, mas sua celebração é voltada para a vitória da vida sobre a morte, com a ressurreição de Jesus Cristo, três dias após sua crucificação. Recebeu este nome porque a Paixão de Cristo ocorreu no período em que se comemorava o “Pessach”. Para os cristãos-católicos, esta é a data mais importante da festividade litúrgica.

A Páscoa marca o encerramento da quaresma, período iniciado na Quarta-Feira de Cinzas (47 dias antes da comemoração). No calendário gregoriano, é uma data móvel – a cada ano ocorre em dias diferentes –, sendo amplamente celebrada mundo afora.

Em 2018, apesar de seguirem calendários diferentes, a primeira noite do Pessach dos judeus coincide com a Sexta-feira da Paixão dos cristãos, no dia 30 de março. O Pessach, entretanto, estende-se por oito dias.

Outras religiões, de alguma forma, também lembram a data. Pensando assim, a revista Weekend traz um panorama do entendimento de algumas das religiões mais praticadas no País em relação à Páscoa, além de mostrar como as diferentes culturas no mundo celebram esta tradicional data.

O Judaísmo

O termo Páscoa deriva do hebraico Pessach. É um memorial instituído pelo próprio Deus, segundo as escrituras, para que seja sempre lembrado de sua escravidão no Egito e como Deus libertou seu povo com mão forte.

A história descrita no livro de Êxodo relata a última das dez pragas de Deus para os egípcios: a passagem do anjo da morte, que ceifaria a vida de todos os primogênitos do Egito. Segundo o que está escrito, somente seria salvo quem tivesse nos umbrais das portas o sangue de um cordeiro morto.

Como ordenado, os hebreus também ficaram dentro de suas casas e comeram um cordeiro assado com ervas amargas e pães ázimos, sem fermento – não tinham tempo para deixar a massa levedar, pois a qualquer momento poderiam partir daquela terra. Esse tipo de pão é feito até hoje no período e chama-se “matzá”.

Durante os oito dias em que se é comemorado o “Pessach”, é proibido ingerir alimentos e bebidas feitos com fermento, que representa o orgulho – sentimento negativo e do qual as pessoas precisam se livrar nos dias que antecedem a festa.

Segundo a Confederação Israelita do Brasil, a celebração é marcada por dois jantares em dias seguidos, nos quais é lida na “Hagadá” (narração) a história da Páscoa Judaica, estimulando a participação das crianças da família. Os judeus têm por mandamento narrar às futuras gerações a libertação do Egito. Alimentos simbólicos são colocados em um prato especial (“keará”) em frente ao lugar do chefe da família. Ao lado deste, coloca-se uma vasilha com água salgada para lembrar as lágrimas derramadas durante o período de escravidão. Nessa água, devem ser molhadas todas as verduras antes de serem levadas à boca. É importante também que as casas estejam limpas e arrumadas e que, se possível, todos os talheres usados sejam exclusivos para essa celebração.

“A Páscoa Judaica recorda a longa luta pela liberdade até a saída dos judeus da escravidão do Egito há mais de 3.300 anos. Esse desafio continua vivo nos dias de hoje. “Pessach” representa a mensagem judaica para o mundo: respeito ao próximo e a convivência em paz com as diferenças. Pessach não se limita a uma festa judaica, é um manifesto pela liberdade do cidadão”, define Luiz Kignel, presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp).

O médico guarulhense Cláudio Galvão Bueno segue fielmente os preceitos judaicos. Para ele, o Pessach enaltece a importância da liberdade para todos os povos e é algo que permanece atual. “A festa é um simbolismo que remete a quando Moisés liderou a rebelião do povo hebreu com a fuga do Egito pelo deserto do Sinai em direção a Canaã, a terra prometida (hoje Israel)”, comenta. Diz que além do pão ázimo (matzá) fazem parte da refeição ovos na água salgada e raízes amargas, para relembrar o que os antepassados sofreram para conquistar a libertação.

A simbologia dos alimentos:

• Matzá: alimento básico do Pessach, é uma espécie de bolacha não fermentada, feita de farinha de trigo e água, sem sal nem açúcar. Sem fermento, a matzá relembra o pão da miséria que foi comido na terra do Egito e desperta a consciência de que ainda há muitas pessoas desprivilegiadas nos dias de hoje;

• Zeroá: pedaço de osso de cordeiro ou galinha grelhada. Simboliza o poder com que Deus tirou os judeus do Egito e recorda o carneiro pascal;

• Maror: escarola ou raiz forte, uma erva amarga que remete ao sofrimento dos judeus escravos no Egito;

• Charosset: mistura de nozes, canela, cravo, passas, maçã e vinho tinto. Representa a argamassa com a qual os judeus trabalhavam nas construções das edificações do faraó;

• Beitzá: ovo cozido. que simboliza uma lembrança do sacrifício que se oferecia em cada festividade;

• Karpass: salsão, verdura molhada em vinagre ou água salgada. Remete ao difícil sabor do Êxodo.

A Igreja Católica

 

Dom Edmilson Amador Caetano, bispo da Diocese de Guarulhos, explica que a Páscoa é a solenidade máxima da Igreja Católica, pois o centro dessa religião cristã está na crença da ressurreição de Jesus Cristo. “É na vitória e da vitória de Cristo que a Igreja recebe a força para continuar a missão do próprio Cristo”, pontua o prelado. Na Bíblia, livro sagrado dos cristãos, é narrado que Cristo foi crucificado, morto e sepultado, mas ressuscitou ao terceiro dia e, assim, venceu a morte e redimiu a humanidade. O apóstolo Paulo escreve que se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria toda pregação e também vã seria a fé, pois “de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos e, assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, tal como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo, graças a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo” (I Cor, 15).

O bispo lembra que “no decorrer do ano, a cada domingo, o dia do Senhor, a Santa Igreja comemora a obra salvífica de Cristo. A cada missa, recorda-se a ressurreição do Senhor; mas, uma vez por ano, celebra-se a Páscoa como a solenidade máxima da Igreja, pois é na vitória e da vitória de Cristo que a Igreja recebe a força para continuar a missão do próprio Cristo”.

A data é solenemente celebrada pelos católicos durante o tríduo pascal da paixão e ressurreição de Jesus, os três dias que encerram a Semana Santa. Nesse período, a Igreja Católica realiza uma série de ritos que recordam os atos de Cristo e os acontecimentos desde a última ceia que precede a sua prisão, passando por sua paixão e morte até culminar em sua ressureição dos mortos. “Não se trata de uma ‘peça teatral’ em três atos, mas três momentos celebrativos da única vitória de Cristo”, enfatiza o bispo. “O tríduo pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor começa com a Missa Vespertina na Ceia do Senhor (lava-pés) e possui o seu centro na Vigília Pascal”, acrescenta.

Na Quinta-feira Santa, na Missa da Ceia do Senhor, popularmente conhecida como a “Missa do Lava-Pés”, a Igreja Católica celebra a instituição da Eucaristia, “o Sacramento deixado por Jesus como memorial da sua paixão, morte e ressurreição. Cristo mesmo, que vive para sempre, dá-se em alimento para a salvação e, através da Igreja, perpetua a força da sua ressurreição no mundo. Unido a esta entrega na Eucaristia, está o rito do lava-pés realizado por Jesus e que se repete nessa celebração por aquele que a preside, para recordar que a salvação de Cristo, que  a Igreja leva ao mundo, é serviço de fraternidade e comunhão. Ao final dessa celebração, com desnudação dos altares, a retirada das flores, a cobertura das imagens e das cruzes, a Igreja entra na reflexão do profundo significado da Paixão e morte do Senhor”, explica dom Edmilson.

A Sexta-feira Santa é o único dia do calendário litúrgico católico em que não há missa, pois nesse dia não há consagração da hóstia, momento em que, na fé católica, o pão e o vinho são transformados, por ação do Espírito Santo, no corpo e sangue vivos de Jesus. O bispo diocesano explica: “A única celebração litúrgica neste dia é a que se faz entre 15 e 19h com a celebração da Paixão e Morte do Senhor, que consta da entrada silenciosa e prostração por quem preside a celebração, seguida de uma Liturgia da Palavra, com três leituras, sendo a mais longa a proclamação do Evangelho da Paixão e Morte de Jesus, segundo o evangelista São João. Esta Liturgia da Palavra encerra-se com uma solene prece universal, que invoca a força da morte redentora do Senhor. A segunda parte desta celebração é a Adoração da Cruz. A cruz é apresentada à adoração dos fiéis, como reconhecimento do amor com que Cristo nos amou e como lembrança de que também devemos aprender a amar na mesma dimensão. Não se trata de momento de tristeza, mas de exultação, pois a cruz de Cristo não é de derrota, mas de vitória. A comunhão eucarística, das hóstias consagradas no dia anterior, é o último momento desta celebração, que termina em profundo silêncio”.

O tríduo pascal encerra-se na Vigília Pascal, no Sábado Santo, quando é anunciada solenemente a ressurreição triunfante de Jesus Cristo, proclamado “alfa e ômega, princípio e fim, aquele que foi, é e virá para instaurar plenamente o Reino de Deus”.
Para os católicos, segundo dom Edmilson, “é dia de silêncio, oração e recolhimento, quando a Igreja recorda que Cristo ‘desceu à mansão dos mortos’, não para ficar lá, mas para libertar, com o poder da sua morte, todos os que a morte tinha por prisioneiros, a começar de Adão. Do início da noite de sábado, até a madrugada do domingo, celebra-se em cada comunidade a solene vigília pascal, a noite santa em que o Senhor Jesus ressuscitou, considerada a mãe de todas as celebrações. Inicia-se com a Liturgia da Luz: a bênção do fogo e acendimento do círio pascal, símbolo do Cristo ressuscitado, luz do mundo, e a solene proclamação da Páscoa. Segue-se uma longa liturgia da Palavra, com sete leituras bíblicas do Antigo Testamento que lembram a história de Salvação realizada por Deus pelos patriarcas e profetas e que se tornou plena em Jesus Cristo, seguidas, ainda, de duas leituras do Novo Testamento que proclamam a força da ressurreição de Jesus. A terceira parte é a liturgia batismal. Mesmo nas comunidades onde não houver batizados, nesta noite todos renovarão o próprio batismo, com as velas acesas a partir do círio pascal. A quarta e última parte é a Liturgia Eucarística”.

No calendário litúrgico católico, o “Tempo Pascal” prossegue por cinquenta dias, desde o domingo de Páscoa até a festa do Pentecostes, quando se celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e a mãe de Jesus, a Virgem Maria.
Segundo o bispo, o círio pascal, a grande vela que representa Cristo como a luz do mundo, é o principal símbolo litúrgico da celebração da Páscoa para os católicos. Quanto às demais representações populares, oriundas de regiões diversas, com vários significados, o prelado diz que “a Igreja não os condena, mas não os utiliza na liturgia”, de modo que, na visão cristã-católica, símbolos populares não têm qualquer relevância, embora nada impeça as pessoas de se alimentarem segundo os costumes sociais. Mesmo porque, na tradição popular há versões que referenciam os ovos de chocolate e o coelhinho como representativos, respectivamente, da vida e da fertilidade (vida em abundância) decorrentes da ressurreição de Jesus.

Os Evangélicos

Para os cristãos da linha protestante, os evangélicos, na Páscoa são rememoradas a morte e ressureição de Jesus Cristo, semelhante aos católicos, porém, sem nenhuma regra de se observar ritos praticados por esses, como a abstinência de carne. “A data é reconhecida como uma festa judaica, ordenada por Deus para os israelitas, mas foi durante esse contexto histórico que Jesus foi morto e ressuscitou, segundo nos mostram os evangelhos”, explica o pastor Eliel Leonardo Ramos, da Assembleia de Deus de Guarulhos.

O pastor também esclarece que os evangélicos protestantes entendem que toda a Bíblia, incluindo a passagem da morte dos primogênitos, aponta para Cristo e seu ato de redenção pela humanidade. “No Êxodo, houve a instrução de matar um cordeiro e passar o sangue nos umbrais das portas para que o anjo da morte não entrasse nas casas. Essa simbologia do cordeiro morto, dentro do cristianismo, é de que a morte não tem mais domínio sobre aqueles que creem e que foram alcançados por esse ato salvador de Cristo. É uma comemoração da vitória da vida sobre a morte”.

Quanto ao cerimonial, o pastor diz que cada denominação segue o seu estatuto e sua forma de comemoração, não existindo regra a ser seguida. “A Páscoa cristã é uma celebração em memória à morte de Cristo e, com mais ênfase, à sua ressureição; afinal, essa celebração é realizada regularmente por nós, geralmente, a cada mês, quando a Igreja reúne-se para o que chamamos de culto de Santa Ceia”.

Os símbolos mais significativos para os protestantes são o pão, o cálice e o cordeiro de Deus e não há qualquer ligação com ovos de chocolate ou coelho, sendo esses dois últimos apenas uma maneira de comercialização da data. “Ressalto que não há problema em comprar, ganhar ou comer os alimentos típicos dessa data”, finaliza o pastor.

O Islamismo

Para o Islamismo, a Páscoa é um evento judaico-cristã e, por isso, não traz nenhum significado espiritual para a religião porque, para eles, Jesus Cristo, considerado um profeta pelos muçulmanos, não foi crucificado, nem morreu.

O sheikh Ahmad Al-Khatib, do Núcleo Islâmico, em Guarulhos, explica que Jesus veio ao mundo enviado por Allah, gerado de forma milagrosa no ventre da virgem Maria, e cumpriu a sua missão. “No dia que o quiseram prender para crucificá-lo, o anjo Gabriel levou-o para o céu. Um de seus apóstolos teria substituído Jesus e morto na cruz em seu lugar.

Acreditamos, portanto, que ele está vivo até hoje como ser humano, com alma e corpo. Cremos que um dia ele voltará para contar a história verdadeira e renovar a fé das pessoas”.

Ainda completa que por ordem divina, os muçulmanos devem respeitar todas as crenças, “pois a conduta islâmica define que o muçulmano tem a alma elevada através do bom tratamento ao próximo”.

Para os muçulmanos, duas datas são de grande importância: o jejum do Ramadan, em que se celebra a primeira revelação feita por Deus a Muhammad (Maomé), e o Dia do Sacrifício, durante o Hajj (peregrinação à Meca), que rememora quando Ibrahim (Abraão) sacrificou o filho Ismael, por ordem de Deus. Há ainda a data do Ashura, que para os muçulmanos sunitas lembra o dia em que Moisés jejuou em gratidão a Deus pela libertação dos judeus do Egito, enquanto os xiitas lembram o martirio de Hussein, neto do profeta Muhammad.

O Candomblé e a Umbanda

Os seguidores do Candomblé e da Umbanda não comemoram a Páscoa. Quando a Igreja Católica entra em quaresma, a Umbanda e o Candomblé entram no Lorogun, período em que os orixás entram em guerra contra o mal. Nessa época, os seguidores dessas religiões param a maioria das suas atividades nos terreiros, simbolizando um descanso coletivo dos adeptos, marcando o fim do seu ano litúrgico.

O Budismo

Os budistas também não comemoram a Páscoa. Têm seu próprio calendário e determinam suas festas. A mais importante delas é a Hanatmatsuri em que, em único dia, celebra-se o nascimento, iluminação e morte de Buda.

O Espiritismo

O Espiritismo não possui datas comemorativas específicas ou rituais. Na visão espírita, Jesus materializou-se aos discípulos com seu corpo espiritual, sem haver uma ressureição corporal. Ao cumprir a sua missão na Terra, retornou ao plano espiritual e, para isso, passou pela morte, que para o espiritismo, é chamado de processo desencarnatório.
A Páscoa é uma data simbólica, apenas caracterizada pela renovação interna e evolução espiritual.

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