Por Jônatas Ferreira

A presidente Dilma Rousseff foi à igreja Assembleia de Deus do Brás, em São Paulo, no dia 8 de agosto de 2014, período em que desenvolvia a sua campanha política para tentar a reeleição. Com o microfone em mãos, mandou para os fiéis a marcante frase bíblica: “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”. Pronto. Piadas não faltaram para a figura de Dilma viralizar na internet com montagens da presidente caracterizada em diversas religiões: a irmã Dilma (referência ao cristianismo), a mãe Dilma (referência ao candomblé) e por aí vai…
Mas não precisamos ir muito longe: não faz muito tempo que a 24ª operação da Lava Jato foi deflagrada. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi levado coercitivamente para depor. Não demorou para que os jornais publicassem o depoimento do ex-presidente. Com rapidez, a internet foi tomada por brincadeiras com a situação e até uma música satírica Lula recebeu: “Não é nada meu”.

Pouco tempo depois, Lula é empossado no cargo de ministro da Casa Civil e, com pouco menos de uma hora, um juiz suspendeu a posse do ex-presidente. No Facebook, o meme “Faltou só um dedinho para que Lula fosse ministro”, é lembrado até hoje.
Podemos citar a carta enviada a Dilma, na qual o vice-presidente, Michel Temer, lamenta-se por ser um ‘vice decorativo’, e que virou um estouro vexatório nas redes sociais. Tem também a crise de água no Estado de São Paulo, quando Alckmin foi protagonista das brincadeiras: “Alckmin se anima com anúncio de água em Marte e já está a caminho”. Sem contar quando o governador, mesmo com as represas minguando, ganhou o prêmio de gestão hídrica – essa foi verdade, mas rendeu boas piadas, mais do que justificadas.

Graça na desgraça

Exemplos não faltam, sejam eles de assuntos sérios ou não; para citá-los, faltariam páginas. Mas, qual será o papel de todas essas piadas no pensamento do eleitor? O brasileiro deveria levar mais a sério e tentar evitar o exagero em acontecimentos tão importantes para a sociedade?

Em se tratando do humor brasileiro, nada tem repercutido tanto quanto os assuntos que envolvem a nossa emaranhada política. Com o impulso das redes sociais, em especial, Facebook, Twitter, e aplicativos de mensagens como o WhatsApp, cada um pode dar asas a sua imaginação da forma que bem desejar. “O humor desponta nos momentos de crise e de grandes acontecimentos políticos, e quando temos alguma liderança expressiva, com gestos e atitudes incompatíveis com os cargos que ocupam. Some-se a isso a criatividade do brasileiro e a força das redes sociais, e temos um excelente meio ambiente para que o humor floresça”, comenta o cientista político Rubens Figueiredo.

É para rir ou para chorar?

Em meio a tantos casos excêntricos na política do Brasil, resta para o povo fazer o que melhor sabe: rir. No meio dos turbilhões de problemas que o brasileiro enfrenta, sempre sobra espaço para uma boa piada; afinal, quando se trata de humor, “não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta”. Veja alguns casos emblemáticos:

A clássica: “Para mim, essa bola é um símbolo da nossa evolução. Quando nós criamos uma bola dessas, nós nos transformamos em homo sapiens, ou mulheres sapiens”, disse a presidente Dilma Rousseff logo após ‘saudar’ a mandioca. Pois bem, o discurso não demorou para viralizar na rede com as mais variadas montagens e brincadeiras.
O deputado federal Paulo Maluf entende bem do humor brasileiro e diante da retirada de seu nome da lista de procurados da Interpol, não esperou os bem-humorados. Ele mesmo fez a graça: “Estou fora do mensalão, fora do petrolão, fora da Lava Jato, não estou no Panamá Papers e votei a favor do impeachment. Agora, saí da lista vermelha da Interpol. Só falta o Papa Francisco me canonizar”. A internet não o poupou.

Com a iminência da aprovação do impeachment da presidente Dilma na Câmara dos Deputados, o Brasil acompanhava em peso os discursos e votos dos parlamentares. Nas redes sociais, os engraçadinhos já votavam dando um toque de criatividade aos conhecidos discursos: pela família, amigos, direitos, vó, mãe, cachorro, papagaio…
Se falarmos da gravação liberada pelo juiz Sérgio Moro em que Dilma e Lula conversam, vamos perceber de onde surgiu o ‘tchau, querida’, usada, inclusive, pelos deputados federais para se referirem ao impeachment da presidente.

Com a citação de Deus em todas as falas, o site Sensacionalista não perdoou e nem o Divino escapou: “Após ser citado por todos os deputados pró-impeachment, Deus será investigado pelo Ministério Público”. Mas não demorou para chegar a resposta do todo poderoso: “Em nota, Deus esclarece que não se mete em política”.

Toda brincadeira tem o seu fundo de verdade

Soa de bom tom entender que uma boa piada política tem a responsabilidade de, por detrás de todo o cenário de fotomontagens e frases cômicas, criar uma reflexão em seu público. Como as famosas charges, que refletem uma situação séria de forma cômica – como as do polêmico jornal francês Charlie Hebdo.
Na época da Ditadura Militar, o semanário Pasquim fazia oposição à opressão de uma forma cômica e sarcástica. Hoje, o site Sensacionalista faz sátiras, mesmo mantendo certas gotas de verdades em suas matérias. Mas será que esse tipo de humor mexe com a mente do eleitor? “O humor e a sátira reforçam aquilo que um conjunto de pessoas acham, ninguém mudará de opinião sobre um assunto por causa de uma piada, mas muitas sobre um mesmo personagem o ridicularizam. É uma forma sutil de reforçar tendências e despertar questionamentos”, explica Figueiredo.

No mundo

O bom (ou mau) humor político não é exclusividade do Brasil. As sátiras com assuntos muito polêmicos e debatidos do planeta têm outros grandes canais de difusão: Nos Estados Unidos, por exemplo, há o “The Daily Show” e “Last Week Tonight”. Em Portugal, o “Gatos Fedorentos”.

“O humor pode ser uma excelente arma para combater preconceitos e injustiças sociais”, frase de Jon Stewart, ex-apresentador do “The Daily Show”.

Positivo e negativo

A ironia, o sarcasmo, a sátira, enfim, o humor como um todo existe para afugentar, pelo menos por alguns poucos momentos, os medos que não conseguimos encarar. Às vezes feito para dizer o que é sério, sem o peso da verdade. Às vezes, somente para ridicularizar. Não importa: brincar faz parte do ser humano.

Num mundo onde o humor tornou-se saturado, muitas empresas usam das piadas políticas para denegrir a imagem de determinados candidatos. Pessoas adotam determinada brincadeira para respaldar conceitos próprios, discutem, brigam e, por fim, cortam laços.
Notícias falsas soam como verdade se unidas à falta de apuração dos que tomam conhecimento da brincadeira. O resultado é um caos. Por exemplo: “Bancada gay lança projeto de lei para proibir casamento dos evangélicos”. Por algum tempo, essa ‘fake news’ surfou como verdade e foi reproduzida em blogs e portais evangélicos. Pense na confusão.

O humor, seja na política ou em outros campos, pode influenciar na imagem das pessoas. No caso de Lula, é inegável que ele usou o lado cômico em seus discursos para dar a volta por cima em muitos momentos complexos. Dilma tenta fazer o mesmo, mas não dá muito certo. “Uma das máximas do humor político é que não existe humor a favor. O humor sempre desconstrói, pois é uma forma de crítica, muitas vezes subliminar. Ao dizer que a presidenta é uma ‘presidanta’, o brasileiro reage de forma sarcástica a todas as bobagens que ela diz”, conclui Rubens Figueiredo. Mas, afinal, o limite do humor é o humor sem limite?
De tanto o brasileiro acreditar que a política nas terras tupiniquins é uma piada, o povo elegeu Tiririca, o palhaço, para representar a sua insatisfação; afinal, pior que está não fica (pior é que ficou pior!). Essa pode ter sido a máxima da graça do brasileiro na política. Rimos para tentar esquecer um pouco como as coisas andam complicadas, mas não podemos esquecer que os políticos eleitos são reflexos de nossas próprias convicções e atitudes; ou seja, o povo que zomba é o mesmo que os coloca no poder e depois lamenta pelo que os seus representantes fazem ou deixam de fazer.

A brincadeira sempre vai existir. O que não pode acontecer é o povo ser o grande bobo da corte na história.

A política brasileira pode não ser tão ridicularizada quando a população passar a levar a sério a importância de seu voto, para construir uma Nação de verdade. É preciso pensar no bem-comum ao votar.

Criatividade.br

Esse senso de humor é como uma semente em terra fértil: é frutífera. Para criar uma boa piada, o brasileiro não poupa esforços, tampouco ideias. Tudo e todos são a inspiração. A voz, o cabelo, uma fala, um momento… BUM! Virou piada. Não há limites para essa vocação que, em sua grande parte, parece que todos nós temos.