Por Talita Ramos
Os hábitos alimentares de uma pessoa são construídos desde a infância. Por conta disso, muita gente costuma ingerir alguns alimentos com tal naturalidade, que nem para para saber ao certo quais os benefícios e malefícios que esses proporcionam à saúde. Mas, após a divulgação do relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre alimentos cancerígenos, indicando que carne vermelha, bacon e embutidos podem contribuir para o desenvolvimento de câncer de cólon, vale rever a questão do que se consome a cada dia. Segundo Edilaine Kawachi, nutricionista de Guarulhos, com especialização em nutrição nas doenças crônicas não transmissíveis pelo Instituto de Pesquisa e Ensino do Hospital Albert Einstein, os alimentos mais consumidos pelos brasileiros em seu cotidiano são: arroz, café, feijão, pão francês, carne bovina (vermelha), sucos, refrescos e refrigerantes, além de frutas e hortaliças em menor proporção.
Benefícios
Com base em dados fornecidos pelo Inquérito Nacional de Alimentação do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que investiga os hábitos alimentares da população, a nutricionista indica os benefícios de cada um desses alimentos. Confira:
- Arroz: Fonte de energia, é o carboidrato da refeição;
- Café: Um hábito para muitos, é usado como estimulante, melhora a eficiência metabólica e não tem valor nutricional;
- Feijão: Alimento rico em fibras e ferro;
- Pão de sal (como é classificado pelo IBGE o pão francês): Consumido no café da manhã ou nos lanches, funciona como fonte de energia;
- Carne bovina: Rica em nutrientes valiosos, como proteína, zinco, ferro e vitamina B12;
- Sucos naturais: Oferecem as vitaminas das frutas, porém dependendo da forma de preparo, muitas das fibras podem ser perdidas, sendo que algumas frutas como a laranja, fonte de vitamina C, oxidam rapidamente; por isso, é necessário consumir o suco assim que preparado.
Malefícios
Se consumidos de maneira errada, muitos dos alimentos já citados podem apresentar malefícios. “O grande diferencial são as quantidades em que esses alimentos são consumidos. O excesso dos carboidratos pode levar a obesidade e o arroz é tido como o número um no quesito consumo no Brasil; o pão francês também está nessa lista, mas carboidratos são além do arroz e pão: bolos, massas e biscoitos, entre outros”, explica a nutricionista.
- Carne bovina: O consumo excessivo é considerado um possível agente prejudicial;
- Sucos e refrescos prontos: Não há benefícios neste alimento. Além de elevados níveis de aditivos, em sua composição encontra-se alto teor de açúcar e sódio;
- Café: Pessoas com problemas estomacais como gastrite e refluxo podem ter os sintomas agravados pela bebida. O excesso de café (cafeína) também pode interferir na absorção de alguns nutrientes.
Para a nutricionista, o maior erro cometido pelos brasileiros na hora de montar suas refeições é fazer uma composição que não favorece o organismo, com todos os nutrientes necessários. “Os pratos geralmente têm arroz, feijão e carne ou outra combinação que inclui vários carboidratos na mesma refeição, como: arroz com batata frita, arroz com macarrão, arroz com mandioca e carnes com muita gordura”, afirma.
Lista da OMS
O relatório divulgado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) condenando o bacon, a carne vermelha e os embutidos causou comoção nas redes sociais, uma vez que muita gente é adepta desse tipo de alimentação. “A Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (IARC na sigla em inglês) convocou 22 especialistas de dez países que analisaram evidências de 800 estudos científicos. O resultado desses estudos foi utilizado como base para orientações, recomendações e iniciativas políticas, como foi o comunicado emitido pela OMS em outubro, que trouxe a conhecimento público as evidências relacionando o consumo excessivo desses alimentos com o aumento das chances de câncer de cólon. Este é o papel da OMS: comunicar e usar essas informações provenientes de estudos científicos em benefício da saúde da população. Mas o que gerou espanto e surpresa foi o fato de que a organização classificou o risco do consumo excessivo como classe 1, o mesmo utilizado para o tabaco, o que não foi interpretado corretamente. A classificação da OMS é no sentido de que o grau de evidências dos estudos é bom e não que o risco de gerar câncer é parecido. Segundo os estudos, em casos de câncer do pulmão, 86% desses têm relação com o cigarro, enquanto que em casos de câncer de intestino, 21% associam-se ao consumo de carnes processadas”, explica a nutricionista.
Do jeito certo
Segundo a nutricionista, para montar uma refeição equilibrada é preciso levar diversos fatores em consideração. “A refeição tem que respeitar a individualidade, o organismo, metabolismo e o fato da pessoa ser ou não portadora de alguma patologia como diabetes, pressão alta, entre outras. No entanto, de forma geral, uma refeição equilibrada deve conter uma porção de carboidrato, proteína, uma leguminosa, verdura e legumes, como, por exemplo, arroz com carne moída, feijão, salada de alface e cenoura refogada ou batata assada no forno com frango, lentilha, salada de beterraba crua ralada, abobrinha refogada e, de sobremesa, uma fruta”.
Evitar alimentos conservados, congelados e processados também faz a diferença na hora de escolher os alimentos. “Procure descascar mais, lavar mais, comer mais ‘in natura’. Olhe os rótulos e consuma alimentos com menor teor de gordura e sódio. Quanto maior é o ‘shelf life’ (vida de prateleira), mais conservantes e aditivos tem o produto a ser consumido. Para quem tem uma vida muito agitada, a dica é separar um dia no mês ou até a cada dois meses para fazer os próprios congelados com temperos frescos e produtos naturais. Faço você os seus hambúrgueres, suas almôndegas, sua lasanha, sua carne e congele. Quando precisar, recorra a esses congelados”, alerta.
Reeducação alimentar
A partir do momento em que se desenvolve uma consciência saudável, fazer uma reeducação alimentar e deixar para trás tudo o que faz mal passa a ser mais fácil, mas para muitos o assunto ainda é um tabu. “Toda mudança gera uma série de sentimentos. Quando alguém se depara com alguma patologia onde a reeducação alimentar é parte do tratamento, essa mudança vem com um pouco de peso e um sentimento de punição”, afirma Edilaine. A jornalista Tamiris Monteiro passou por isso. “No final de 2012, quando descobri ter um refluxo gástrico severo, soube que muitos alimentos contribuíam para agravar o quadro, como, por exemplo, café, chocolate, embutidos e temperos industrializados. No início, fazer a reeducação alimentar foi bem difícil, porque tudo que a maioria das pessoas considera gostoso é cortado da alimentação. Outro ponto difícil foi substituir os alimentos industrializados pelos naturais, pois é muito mais fácil levar um pacote de biscoitos na bolsa do que uma banana ou maçã. Contudo, com o tempo entendi que esse tipo de pensamento estava mais relacionado com a preguiça que eu tinha em preparar e separar os alimentos do que qualquer outra razão. Para quem precisa passar pela reeducação, minha dica é aceitar essa nova rotina e organizar-se”, conta Tamiris.
Desde cedo
Mas, para evitar todos os transtornos de dietas, restrições e reeducação alimentar, além do vício em alimentos que podem apresentar riscos, o mais correto é educar as crianças desde cedo a se alimentar de forma correta. “A criança deve ser estimulada a consumir frutas, legumes e verduras. Há casos em que os pais não consomem verduras e frutas e então não oferecem aos filhos. Isso limita a criança. Os pais são exemplo em casa. O filho irá reproduzir as atitudes dos pais. A principal dica é: ofereça! Não comeu hoje? Insista, faça outras vezes não consecutivas e oferte novamente. Consuma alimentos saudáveis perto dos filhos e diga o quanto está bom, saboroso. Peça ajuda na cozinha para eles; de forma segura, peça para pegar os alimentos na geladeira, ou para lerem uma receita”, indica Edilaine. “A comida conta a história de um povo, permite sensações, sabores, reúne pessoas queridas, comemora datas importantes, transmite receitas e conhecimentos de avós para netas, passa emoções. Uma sopa quente da mãe não só esquenta nos dias frios, como cura um ‘resfriado’. O alimento não só sustenta e dele não se absorve apenas nutrientes, porém, como tudo nessa vida, a comida precisa ser respeitada e, como será consumida, observada. Amar também é cuidar da alimentação” finaliza a nutricionista.

