Fotos: Rafael Almeida, Arquivo Histórico e divulgação

Há cerca de 150 anos, o Centro de Guarulhos, que até então era dominado por um infindável matagal, abrigava, em um terreno isolado da vila central, um cemitério. Ali, na calada da noite, corpos marcados por uma chaga terrível que assombrava o Brasil e o mundo à época, eram jogados na esperança de que o mal que lhes havia ceifado a vida não se espalhasse ainda mais durante o dia, período em que se tinha maior número de pessoas nas ruas.

O motivo para tamanha preocupação era a infectocontagiosa varíola, ou doença das bexigas, como era conhecida. Caracterizada pelas marcas que deixava no corpo, dando uma aparência deformada ao portador do vírus, os que sofriam desse mal eram estigmatizados, principalmente porque, além da visível mutação do corpo, não existia cura, tampouco médicos que pudessem apontar as causas da doença. Por isso a necessidade de enterrar os contaminados em cemitérios específicos.

A epidemia dessa doença matou cerca de 500 milhões de pessoas entre os séculos XIX e XX – número muito superior aos vitimados pela tuberculose, hanseníase, gripe espanhola, peste negra e aids. Foi, sem dúvida, uma das moléstias mais letais da humanidade.
A varíola foi erradicada após uma massiva campanha de vacinação no mundo todo, sendo considerada extinta pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1980. Essa foi a primeira doença combatida pelo homem com total eficácia.

Projeto original do prédio que viria a abrigar o Grupo Escolar de Guarulhos, na rua Capitão Gabriel, em 1935

O Brasil não foi diferente de outros países, tendo de lidar com a doença ao longo de 400 anos. Segundo dados históricos, o primeiro caso da varíola em terras tupiniquins data de 1563. Sua origem, no entanto, nos remete até o Egito antigo, nos tempos de Ramsés V (1146 a.C. e 1142 a.C), o qual acreditam ter sido morto em decorrência desse vírus.
Sem tratamento e sem condições de confrontar a doença, a única forma de fazer frente ao problema era a expulsão dos infectados para fora das áreas urbanas, nas quais, geralmente, ficava concentrado o maior número de pessoas.

A transmissão dessa doença poderia acontecer apenas com um espirro, o que aumentava ainda mais a preocupação de toda a população. Dos poucos que se salvavam, as marcas presentes em seus corpos pelo resto de suas vidas – deformações, cegueiras e as grandes cicatrizes – jamais deixariam a doença ser esquecida.

Em Guarulhos, assim como em todo Estado de São Paulo, a varíola também se fez presente com intensidade. Tanto que foi criado o cemitério dos bexiguentos, cujos rastros da história são mínimos, porém intrigantes.

A Reportagem da Revista Guarulhos procurou o historiador Sidney de Paula, 48, que pesquisa com afinco sobre essa informação histórica da cidade, pouco tratada pelos livros que ousam registrar o nosso maltratado passado.

A cidade, em meados dos anos de 1860, época do Império no Brasil, chamava-se Província de Nossa Senhora da Conceição de Guarulhos. Foi nesse período que o terreno, que hoje está localizado na rua Capitão Gabriel, número 393, foi separado para receber os corpos dos bexiguentos, que, em hipótese alguma, poderiam ser enterrados junto aos demais.
Segundo o historiador, acredita-se que a visita do imperador Dom Pedro II, por volta de 1880, fez com que o espaço fosse desativado. Não se sabe, porém, se foi por influência direta do soberano. O espaço permaneceu abandonado, ao longo de 60 anos, até ser cotado para receber o Grupo Escolar de Guarulhos, fundado em 1926, na esquina da rua Luiz Faccini (antiga rua São Paulo) com a rua Siqueira Campos, atual localização do Senac.
O terreno então foi usado para a construção da nova unidade que atenderia os alunos da cidade. O prédio atual, como conhecemos, foi inaugurado em 1935, adquirindo o nome de Capistrano de Abreu apenas em 1947.

Sua estrutura segue o padrão dado a várias construções de antigamente, quando se fazia a edificação sobre uma espécie de porão, o que faz com que a escola fique a um metro de diferença da rua. Diversas entradas de ar foram deixadas ao redor de toda a unidade. O historiador acredita que, como a terra do local foi preservada, pode haver restos mortais ou até mesmo outros objetos que podem ajudar a reconstituir a história do cemitério e, consequentemente, do município. “Para isso estamos buscando meios que nos autorizem a captar recursos junto à iniciativa privada para revitalizar o piso da escola, que é de madeira e já está bem desgastado e até mesmo quebrado. Aproveitaríamos o momento para tentar encontrar algum indício que possa nos ajudar com essa reconstituição do passado de nosso município”, pontua Sidney, que também é fundador do grupo Guarulhos Antiga, no Facebook, que conta com 20 mil membros. Segundo o historiador, já são mais de 50 mil fotos publicadas por diversos participantes, que, assim como ele, temem que as memórias da cidade sejam esquecidas.

Na literatura de Guarulhos, pouco se retrata sobre o fato. A Reportagem encontrou apenas o livro Cidade Símbolo, de Adolfo de Vasconcelos Noronha, obra rara. Nela, o historiador relata casos de 1560 a 1960. O pouco que se fala sobre o cemitério dos bexiguentos diz que o local era de conhecimento da população até no início do século XX, quando ainda existiam ruínas do muro de taipa da necrópole.

É importante ressaltar que, apesar da gravidade da doença, o local já não oferece mais risco nenhum; afinal, passaram-se cerca de 150 anos. De acordo com o infectologista do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) José Cerbino Neto, “o tempo exato de vida do vírus depende da temperatura e da umidade, mas é bem maior do que a média. Em ambiente quente e úmido, é viável por cerca de 6h, em locais frios e secos, pode permanecer por até 12 semanas”.

Segundo o diretor da escola Capistrano de Abreu, Genilson Nardy, ele dá todo o apoio para que a história da cidade, sobretudo a do colégio, seja preservada. Inclusive, sinalizou positivamente à ideia apresentada pelo historiador sobre a parceria com alguma empresa para restauração do piso. “Sem dúvida, é importante para o município essa profunda investigação, mas também será muito benéfica para a nossa escola, pois trará a melhoria do piso, que já apresenta sinais visíveis do tempo”, comentou à Reportagem o diretor, que em sua gestão criou o blog da escola, onde é contada a trajetória da instituição, referência no ensino infantil de Guarulhos há décadas.

A escola foi tombada como patrimônio histórico em dezembro de 2000.

História de Guarulhos deveria ser mais preservada

O historiador Sidney de Paula aproveitou a oportunidade para manifestar sua tristeza quanto ao tratamento dado pelas esferas públicas no que diz respeito ao passado de Guarulhos. “O que pouco existe, está largado, vide a Casa da Candinha, o casarão da Sete de Setembro, o prédio que antes abrigava a Prefeitura, em frente à casa do prefeito José Mauricio; a antiga Câmara de Guarulhos, no centro da praça Getúlio Vargas e demais edifícios que carregam a rica trajetória deste munícipio. O homem que não conhece seu passado não escreve o seu futuro”, pontua o historiador, que defende a criação de um departamento na administração pública que cuide efetivamente da história de Guarulhos. “Como um diretor do Patrimônio Histórico que trabalhe para preservar nossas memórias”, conclui.