O jornalista Rodrigo Bocardi fez um questionamento na edição de hoje do Bom Dia SP que levantou um assunto que há algum tempo quero sugerir aos políticos de nosso País: o uso do Sistema Único de Saúde, o SUS. Não uma única vez para criar modismo, mas enquanto durarem seus mandatos.

Em entrevista que me concedeu pelo Click Guarulhos, em março do ano passado, o prefeito disse que não adianta viver só de relatório, mas de relatos. Usando o SUS durante sua administração, seria um momento oportuno para ele relatar ponto a ponto a realidade de pacientes e funcionários com maior clareza e tentar entender a situação do município. Seus secretários poderiam dar-lhe suporte nos testes, ideias e também na execução dos planos desenvolvidos, a partir de percepções reais e conclusões empíricas. E claro: respeitando as filas como elas são, segundo a classificação vigente.

Porém, essa é uma proposta que soa surreal, infelizmente. Afinal, nossos políticos têm salários que permitem uma opção de saúde privada, realidade muito diferente da ampla maioria de trabalhadores do nosso Brasil.

São constantes as reclamações da Saúde na cidade: atraso nos salários, carência de recursos para prestar um serviço digno, atendimento precário, superlotação. Tem também a falta de interesse de alguns profissionais em desempenhar como se deve as suas funções, desmoralizando unidade em que trabalha e comprometendo a categoria.

Guarulhos, segundo dados apresentados pela própria Secretaria de Saúde, tem tido resultados melhores, se comparados com anos anteriores. O próprio Hospital Municipal de Urgência (HMU) está visualmente mais ‘acolhedor’, com uma bela placa na porta a anunciar que aquele hospital “pertence ao povo”. Reportagem recente do Valor Econômico trouxe nosso município como destaque, mostrando que as despesas com saúde em Guarulhos cresceram, em 2017, de 28,1% para 32,3%. Mas por que a população não consegue enxergar ou sentir o resultado?

É política dessa nova gestão reorganizar a Saúde da cidade, conforme a classificação de cada paciente, com ações que têm o objetivo de fazer o sistema ter um melhor aproveitamento de sua capacidade – tanto em número, quanto em qualidade. Atitude importante, pois, no papel, o HMU tem a missão de atender urgência e emergência, enquanto às UBS cabem os casos ambulatoriais e às UPAs, pacientes em situações emergenciais de menor complexidade.

No entanto, não adianta simplesmente querer fazer toda uma reorganização sem comunicar adequadamente a população, que necessita de esclarecimento e informação para saber identificar quem e onde procurar. É dar murro em ponta de faca, pois quem quiser atendimento mais rápido continuará buscando um hospital, mesmo quando o seu caso pode ser resolvido em uma UBS.

Uma campanha massiva precisa ser promovida. Mas as outras unidades devem ser preparadas para receber a demanda, com quadro médico adequado, equipamentos funcionando, insumos e medicamentos suficientes. Senão, também não adianta fazer a mudança.

O problema é antigo, mas o povo quer enxergar a mudança do novo. Não adianta viver no discurso de que as gestões anteriores deixaram a cidade quebrada. Até é verdade, mas a mesma tecla sempre é pressionada quando precisa dar desculpas para as falhas, que não são toleradas quando o assunto tratado é a vida de alguém. Uma hora todos ficam saturados, porque a gestão passa a impressão de que não tem como oferecer uma solução para o povo, mesmo que um plano já esteja em andamento e que mudanças estão sendo implantadas, ainda que aos poucos.

Em decorrência da reportagem na Globo, o prefeito Guti esteve hoje no HMU, verificando as condições de funcionamento do local. Boa iniciativa, embora não seja suficiente para sentir na pele as agruras pelas quais o povo passa ali. Espera-se que da visita surjam medidas efetivas de melhora.

Jônatas Ferreira