Monja Coen, do despertar à vida monástica

Por Tamiris Monteiros
Fotos: Rafael Almeida e divulgação

Em 29 de outubro, a monja Coen esteve na Livraria da Vila, do Parque Shopping Maia, para o lançamento do seu 7º livro: “O Sofrimento é opcional – Como o Zen Budismo pode ajudar a lidar com a depressão”. Na ocasião, Coen conversou com a repórter que voz escreve e, além de falar sobre a obra lançada, contou passagens da sua vida antes de tornar-se monja e sobre sua jornada espiritual dentro do budismo.

Nascida em São Paulo, em 1947, Cláudia Dias Baptista de Souza, hoje popularmente conhecida como monja Coen, é uma mulher de muitas histórias para contar. Quem a vê sempre tranquila e compartilhando mensagens de reflexão em seus vídeos na internet, nem imagina que ela casou-se aos 14 anos, foi mãe aos 17, trabalhou como jornalista, foi roadie de David Bowie e Alice Cooper, foi presa ao vender ácido no estrangeiro e até tentou suicídio antes de encontrar seu caminho no Zen Budismo e entender que queria entregar-se à vida monástica.

A virada

Coen é jornalista e, aos 19 anos, trabalhava no Jornal da Tarde, vespertino que circulava na Capital. “Eu entrevistava muitas pessoas. Estava em contato direto com pessoas de classes diferentes, necessidades diferentes e isso era muito impactante para mim. Daí começaram a surgir os questionamentos: O que estou fazendo? Para que serve a vida? Será que posso fazer alguma coisa para mudar tantas diferenças? Os questionamentos foram surgindo e uma das matérias que fiz era sobre sociedades alternativas”, conta ela.
Depois de uma temporada em Londres para perfeiçoar o inglês, ela retornou ao Brasil, deixou o jornalismo de lado para dar aulas do idioma e aproximou-se dos primos que eram integrantes da banda Os Mutantes. “Sempre ia assistir as apresentações da banda. Estava divorciada e, num desses shows, encontrei um norte-americano com o qual me casei. Fui morar na Flórida com ele e enrolei muitos cabos nos palcos de rock and roll. Foi uma época muito interessante”, relembra.

Ainda nos Estados Unidos, na Califórnia, Coen dava início aos primeiros passos dentro da filosofia budista. “Na Califórnia tinham grupos que reciclavam e reaproveitavam materiais para fazer plantações sustentáveis. Isso há 50 anos. Foi nesse período que comecei a me interessar pelo Zen e fui procurar um lugar em que eu pudesse evoluir. Quando comecei a fazer práticas meditativas de forma sistemática, no Zen Center of Los Angeles, pensei: bom, é isso aqui. Descobri o que quero da minha vida. Pedi ao meu professor para ser monja e ele respondeu: ‘você vem de uma família católica, não sabe o que é o budismo, como você vai ser monja?’. Rebati: eu aprendo! Durante três anos larguei tudo o que eu fazia, fui morar na comunidade e fui aprendendo. Em 14 de janeiro fui ordenada monja e, em outubro, pedi para ir para o Japão, num mosteiro feminino. Lá fiquei por 12 anos”, conta.

Experiência na Federação das Seitas Budistas do Brasil

Em 1997, tornou-se a primeira mulher e primeira pessoa de origem não japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil, por um ano. “Quando retornei ao Brasil, depois da temporada no mosteiro feminino, fui trabalhar no Centro da Colônia Japonesa, que fica no bairro da Liberdade. O monge que era o responsável por lá estava indo embora e não tinha quem assumisse. A minha ideia era fazer um centro de prática para brasileiros. Mas esse templo me chamou e pediu que eu os ajudasse. Conversei com meu professor no Japão e ele disse que era para eu assumir, ainda que interinamente. No ano seguinte, a Federação se reuniu e decidiu que eu seria a presidenta. Porque meu superior veio ao Brasil e disse que eu era a responsável. Com a chegada de outro monge, deixei o cargo”.

Livro: “O Sofrimento é opcional”

Para Coen, não existe ninguém que, ao longo da vida, não tenha passado por alguma experiência de depressão, em algum nível. “Eu mesma já atravessei vários momentos difíceis. E nem sempre soube que o que sentia e fazia era devido a um estado de depressão. Incomoda, perturba, dói. Mas sofrer é opcional”, ressalta.

A escolha do tema, conta a monja, aconteceu depois de um pedido. “O tema surgiu por causa da Ana Landi, que tinha feito um livro com o Heródoto Barbeiro, chamado “Budismo”. Para ilustrar, fotografaram várias imagens dentro do meu templo. Quando fui ao lançamento do livro deles, Ana me perguntou: monja, a senhora não quer escrever um livro para nós? Eu falei: Pode ser, vamos pensar. Ela me perguntou se eu não queria escrever sobre depressão. Fui pesquisar melhor, li muitos livros sobre depressão, falei com a minha filha que é psicóloga, com um aluno do Rio Grande do Sul que é psiquiatra e aí percebi que era algo muito maior do que aquilo que eu imaginava. Entendi que é uma doença, grave, séria, mas que pode ser tratada. No meio disso, também entendi que o Zen Budista pode ser usado como um dos elementos nesse processo de cura”, explica.

De acordo com Coen, o Zen Budismo ensina a atravessar o oceano do nascimento, da doença, da velhice e da morte “no tranquilo barco da sabedoria perfeita”. Em cinco capítulos, a autora escreve sobre Buda e a depressão, sobre “as quatro nobres verdades”, sobre como superar a depressão, sobre os oito aprendizados de uma grande pessoa e dá sugestões “Zen para viver bem”. A monja conta também como vivenciou a doença. “Quando me pediram para escrever pensei que fosse uma tarefa fácil. Entretanto, pouco conhecia sobre a depressão e tive de me debruçar sobre livros e escrever algo que pudesse ajudar todas as pessoas que procuram um caminho de libertação”, diz.

A internet e a proximidade com as pessoas

Coen tornou-se bastante popular principalmente por causa dos seus vídeos na internet. A monja mostra toda sua desenvoltura como líder espiritual e jornalista em vídeos postados no canal do Youtube chamado Mova. “O canal começou de forma despretensiosa. Minha neta é casada com um dos sócios do Mova e, quando estava grávida, decidiu que teria o bebê por parto humanizado. Ela escolheu o templo para o nascimento da criança, porque o banheiro de lá é um pouco maior, tem banheira e ela queria que o bebê nascesse na água.

Depois, ela e o esposo ficaram um mês morando comigo. E, durante esse mês, ele descia para assistir minhas palestras e perguntou se podia gravar e colocar no Youtube. Eu disse que podia. Os vídeos começaram a ter muitas visualizações e, de repente, o que eu falava e ensinava há 20 anos começou a ter uma grande visibilidade. Os internautas começaram a me parar na rua para agradecer. E eu fico feliz, porque é gostoso saber que os ensinamentos de Buda, que eu transmito com muito amor, têm ajudado as pessoas”.

Templo

Em São Paulo, mais precisamente na rua Desembargador Paulo Passaláqua, no Pacaembu, Coen mantém o templo TenzuiZenji. Mesmo endereço onde passou a infância e a juventude. Por lá, a monja tem a companhia diária dos alunos e de seus vários cachorros. “O templo é uma escola e um lugar de prática. Temos aulas de meditação para iniciantes, aos sábados às 18h e domingos às 11h. Também tem palestras uma vez por mês e cursos de introdução ao Zen Budismo”.