Por Amauri Eugênio Jr.

A maioria das escolas, para não dizer todas, tinha entre os alunos aquele que se dedicava ao extremo para tirar as melhores notas da turma. Por ele se destacar pelo desempenho escolar e ser protegido pelos professores na maioria dos casos, os demais alunos pareciam criar antipatia instantânea por ele. Daí, já viu: o bullying contra ele era certo só porque ele era o melhor da turma e, por isso, o alvo preferencial de brincadeiras de muito mau gosto.

Os adjetivos e julgamentos eram os mais variados e maldosos possíveis, entre eles dizer que era uma pessoa sem vida social e amigos, com pouca ou nenhuma desenvoltura na vida amorosa, sem habilidade alguma em nenhum esporte, um cara bobo e ingênuo, só para citar os menos agressivos. E se tivesse alguma característica que remetesse aos nerds de filmes sobre colegiais e universitários norte-americanos dos anos 70 e 80, como usar óculos “fundo de garrafa” e aparelhos ortodônticos, aí a coisa ficaria feia de vez. Uma criança ou adolescente ser considerada como tal era equivalente a ser rebaixada a uma categoria inferior à de ser humano, pelo simples fato de gostar de estudar.

Mas, por que o nerd era considerado uma pessoa inferior, digna de pena na melhor das hipóteses, e sinônimo de ofensa? É difícil atribuir esse fato apenas a um aspecto, mas a influência cultural pode explicar parte importante desse panorama. “Se olhar na mídia como são as brincadeiras sobre a escola, o mais inteligente e que faz as perguntas é meio ridicularizado, enquanto o engraçado é o que não lê e não estuda. Isso é muito presente na sociedade, mas claro que não é algo universal. Temos melhorado bastante no Brasil quanto à valorização da busca pelo conhecimento, mas alguns alunos tidos como muito inteligentes ainda são considerados como os que não vão à balada, por exemplo”, explica a prof.ª Dra. Roseli Fernandes Lins Caldas, professora de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e especialista em psicologia escolar.

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Ao melhor estilo ação e reação, um adolescente destacar-se na turma por ter as melhores notas causava certa sensação de rivalidade por parte dos outros alunos e, como consequência, em antipatia e exclusão do convívio social. Qual era a origem desse tipo de comportamento? A criação tinha – e ainda tem – importância nesse caso. Era comum ver pais que diziam não ter dinheiro para comprar livros, mas compravam roupas “de marca”. Desse modo, eles ensinavam, indiretamente, que o consumo tinha mais valor do que o conhecimento. [Parêntese: isso não ocorria em todos os grupos sociais, vale dizer].
Um dos efeitos colaterais disso era fortalecer o conceito de que alunos estudiosos mereciam ser ridicularizados e, inclusive, procurados pelos outros apenas em época de provas. “Isso é uma forma de bullying, pois se usa uma pessoa e depois a descarta. A gente precisa trabalhar muito com crianças e jovens [para isso não acontecer]”, pontua Roseli.

Mudando o método

Sim, é importante dizer que a escola tem papel significativo no bullying contra o nerd. Vamos aos fatos: elogiar um adolescente por causa das notas altas cria um clima de rivalidade com os outros, que decidem excluí-lo da vida social ali. É fundamental mudar esse panorama. Por que não ajudar esse aluno com boas notas, mas com dificuldade de interação com os demais? Isso pode mudar o quadro, ao transformar o nerd no cara “gente boa” da turma.

Por que ser prepotente, rapaz?

Apesar da baixa autoestima e da autoconfiança abalada por ser o alvo principal da zoeira sem limites – de bom senso, inclusive –, a pessoa com esse perfil pode ter traços de prepotência. Sabe aquela história de querer provar para si mesma e aos outros que ela pode ser boa em alguma coisa? A arrogância pode surgir desse traço de inferioridade. Mas essa tática é superinfeliz, não dá para negar.

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É impossível não escrever este trecho em primeira pessoa. Eu era o aluno nerd da turma em que eu estava. Apesar de eu me dar bem com o pessoal da minha sala, houve alguns momentos em que o convívio com eles não era dos melhores por causa das notas que eu tirava – e olha que eu tinha bom desempenho na parte esportiva. Para não ser totalmente excluído, houve um tempo em que comecei a forçar situações para a minha média escolar cair e, assim, ser aceito pelos “amigos”.

Esse relato causou um quê de espanto, aposto, e não me orgulho disso. Mas tirar notas baixas de propósito, só para poder interagir com os outros, é mais comum do que se pensa. Ser considerado o nerd da turma abala a autoestima, pelo fato de os demais te verem como um cara estranho. Com isso, surge a necessidade – imatura, é verdade – de conquistar (?) a amizade dos demais. Mesmo que você tenha de cair ao nível deles. E, sejamos francos, deixar de ser você mesmo para agradar a outrem não é legal nem contigo, nem com essas mesmas pessoas.

Anatomia nerd

De modo geral, o típico nerd não tinha um perfil padrão, até porque cada pessoa tem estilo e comportamento próprios, mesmo que pertença a alguma “tribo” ou grupo, ou até mesmo tenha características estereotipadas. Isso vale também para o tipo de conhecimento que a atrai. Ela pode ser de humanas ou exatas, interessada em jogos eletrônicos, filmes de ação ou mais “cabeções”, e assim por diante. A mesma coisa diz respeito a interessar-se por um ou dois assuntos bem específicos, ou por diversos temas de origens para lá de diferentes. Tudo isso pode depender do meio em que ela cresceu, das referências culturais de sua família ou do grupo em que ela está, com afinidades que ela possa ter, entre outras variáveis.
Mesmo assim, elas tendem a ter baixa autoestima e autoconfiança abalada, ser inseguras, tímidas, preferir o isolamento ou, partir para o outro extremo e ter traços de arrogância.

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