Sacerdote do Culto de Yezan difunde práticas religiosas sem sacrifício animal

SaMyer PhuruLL, Ala Wowwo (Rei da Nação Arará), sacerdote do Culto de Yezan - Foto: Alexandre de Paulo/Click Guarulhos

O escritor cubano Dagoberto Isaac Cordero, doutor em ciências teológicas, etnólogo, paleontólogo, jornalista, pedagogo, antropólogo, especialista em cultura africana e línguas mortas, cujo nome religioso é SaMyer PhuruLL – Ala Wowwo (Rei da Nação Arará), sumo-sacerdote do Culto de Yezan, original do Benin, na África – veio ao Brasil para difundir seus conhecimentos ancestrais das religiões de origem africana, as quais afirma não ser necessário o sacrifício de animais e consequente derramamento de sangue. Dia 1° de julho, às 19h, haverá uma palestra sobre o tema na Câmara Municipal de Guarulhos.

A partir do estudo “Projeto de Resgate, Preservação e Revitalização da Regla de Ozain em Cuba”, que recebeu o reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o pesquisador pretende, além de sistematizar o culto desenvolvido na África há mais de 4.500 anos, incluir a vivência que teve ao morar por muitos anos no Benin, na África Ocidental, onde resgatou e documentou práticas perdidas na noite dos tempos.

Tanto a pesquisa quanto o registro etnográfico estão condensados em 14 livros, escritos pelo próprio SaMyer PhuruLL sobre o Culto de Yezan (ainda não publicados) e também da vida e obra dos Orixás segundo esta tradição. A estada em Guarulhos se propõe ao intercâmbio cultural e traz novos paradigmas às tradições religiosas de matriz africana no Brasil, uma vez que o Culto de Yezan é africano, porém anterior ao Culto de Orixás (Candomblé), e não tem sacrifício de animais em seus rituais.

Segundo SaMyer, o culto original mudou várias vezes de nome ao longo dos anos, tendo suas raízes no Vodoo, depois na Regla de Ozain, até se converter num sacerdócio advindo dos estudos antropológicos feitos por ele.

Em 2017 SaMyer PhuruLL iniciou a primeira sacerdotisa do Culto de Yezan, Dobbana Boressa Messecam Meyé Akofére Lesso, cujo nome civil é Solange Buonocore, Zeladora de Orixás há 50 anos. A cerimônia de iniciação foi feita sem corte, além de ter sido operada a limpeza de sangue de sua casa, executando a transição para o Culto de Yesan.

O Ala Wowwo palestrou no Sesc São Paulo e tem uma série de encontros em Guarulhos, São Paulo e algumas cidades do Brasil. O primeiro será na Câmara Municipal de Guarulhos, no dia 1° de julho, às 19h.

O Rei da Nação Arará conversou com o Click Guarulhos

Fale-nos de sua pesquisa e da proposta do não sacrifício de animais no Culto de Yezan

“Primeiramente eu quero dizer que não vim ao Brasil para criar uma campanha contra a umbanda, o candomblé e os demais cultos africanos praticados aqui. Eu vim trazer uma proposta de trabalho, porque o Culto de Yezan só existe para proteger, ajudar e orientar as outras religiões africanas, tanto no Brasil quanto em Cuba ou na própria África”.

“Porque o culto de Yezan é a religião mais antiga do continente africano. Desse culto nasceram as outras religiões. Sua antiguidade é de 4.500 anos (2.500 a.C), aproximadamente na mesma época da construção da pirâmide de Quéops. Ele deu origem ao culto dos Orixás, que é o mais jovem da África”.

Quais são as origens deste culto e quais são as suas premissas?

“As variantes que originaram o Panteão de yorubá e o Culto de Ifá, nasceram na Nigéria, na África. Esse culto é um culto mais ecológico e muito esotérico. Foi feito para proteger e tem a possibilidade de curar doenças leves e até terminais; pode ajudar as pessoas enfermas. Esse culto tem muitos oráculos de adivinhação. Graças a isso ele pode ajudar os demais sacerdotes a viabilizar os seus oráculos, tanto para a família, para seus filhos, quanto para as pessoas comuns”.

Qual a sua trajetória religiosa; onde o senhor recebeu a sua iniciação nessa vertente?

“Fui iniciado na região de Enoque, no norte de Angola, no Zaire (antigo Congo), em fevereiro de 1977, desde então venho estudando e pesquisando as origens da religião africana. Eu gostei da vida dos nativos e comecei a estudar; compreendi que para poder penetrar na tradição milenar dos anciões deveria aprender a língua nativa, principalmente as línguas mortas. Só em Angola há 37 dialetos. Foram anos procurando, copiando e ouvindo os anciões para fazer este resgate.”

“Fui conhecer os sítios históricos para resgatar esse conhecimento. Escrevi 14 livros com todo esse conhecimento adquirido nas minhas pesquisas. Há muita história. Como a do livro de Xangô, a qual descreve sua vida desde os cinco ou seis anos de idade até a sua morte. É a história deste personagem e toda a sua ancestralidade”.

Em que consistem essas histórias, esses mitos do culto de Ifá?

“Falam das árvores, das formigas, das montanhas, da natureza, tudo tem um por que que explica como tudo surgiu. É possível explicar porque há tantas guerras tribais, conflitos, tudo é explicado (no livro). Os motivos (das guerras) não são políticos, eles são religiosos. Estamos muito empolgados, porque sabemos que esses livros podem mover as massas. Não só de religiosos, mas de pessoas comuns. É um trabalho de 44 anos dedicados a decifrar os enigmas da humanidade.”

Qual o paralelo que pode ser traçado entre o Culto de Yezan e o dos Orixás?

“O Culto de Yezan não trabalha com os Orixás, os espíritos, ele atua com as divindades. Uma coisa é um orixá, outra é uma divindade, que está acima dos orixás. São deuses, como escreveram os gregos: numa hierarquia de deuses, semideuses e homens. Por exemplo, os orixás são homens e mulheres que se destacaram nas guerras que aconteceram na Nigéria por mais de 300 anos. O Culto de Yezan resgata essa tradição, a ligação do homem com as divindades. Há um território dividido, com 16 reis, 16 regiões, de onde advêm 256 sinais (culto de Ifá); já o Culto de Yezan, que é mais antigo, é muito mais amplo, tem dois mil sinais de ensinamentos no jogo (oráculo). Há vários tabuleiros, de diferentes formas e tamanhos para consultar esses oráculos”.

Todos que praticam os cultos africanos denominados tradicionais devem mudar?

“Eliminar o sacrifício de animais não é uma imposição, é uma opção. Eu gostaria que os religiosos no mundo inteiro analisassem que o sacerdote que está propondo isso não é um evangélico, um cristão, um adventista… É um sumo-sacerdote de origem africana. Na vida adulta, eu já vivi mais tempo na África do que em Cuba, onde nasci”.

A que o senhor atribui a preservação do Culto de Yezan na Nigéria?

“A Nigéria é o pais que mais sorte teve, graças aos ingleses, que não subjugaram a sua religião, as suas tradições. Eles tiveram grande desenvolvimento na agricultura, na manufatura têxtil. Eles tiveram a sorte de poder manter suas raízes e não foram proibidos de cultuar a sua religião”.

Qual a mensagem que o senhor deixa para os praticantes da Umbanda e do Candomblé?

“Quero esclarecer, por fim, que não sou contra a Umbanda ou o Candomblé, pois tenho praticado Oxalá há 35 anos e minha mulher, Dobbana FHurá (Marta de Armas), tem feito Oxum há 42 anos. Devemos estar atentos às mudanças no mundo. Muitos países já não aceitam as religiões que sacrificam animais, isso também é um sinal de evolução, de adaptação aos novos tempos”.

Dobbana Boressa, 1ª sacerdotisa do Culto de Yezan no Brasil, foi iniciada por Ala Wowwo há dois anos

Interessada em compreender os porquês e consequentemente acabar com o sacrifício de animais em sua casa espiritual, porém com tradição e fundamento, mãe Solange (Dobbana Boressa) foi a Cuba procurar o difusor dessa nova (velha) doutrina e por intermédio de caminhos misteriosos conheceu e trouxe o Ala Wowwo, Rei e chefe da Nação Arará, para propagar a tradição redescoberta na África aqui no Brasil.

Explique melhor os oráculos: as predições são feitas por meio de jogo de búzios?

“O jogo de búzios é um oráculo, com 16 sinais, chamado Dilogum. O Oluwo joga o Ifá, que tem 256 signos, ou Odus. Oluwo é o sacerdote de Ifá, que tem mais conhecimento e possui 256 sinais. Por exemplo, Eu, que sou Zeladora, tenho que procurar você, que é um Oluwo, um grau acima, e que tem condições de orientar com 256 sinais, que são signos de interpretação. Já o Ala Wowwo, do Culto de Yezan, tem dois mil sinais e por meio deles tem a oportunidades de identificar e de interpretar o oráculo com mais precisão.
Os Orixás, quando estavam aqui, cultuavam as divindades. O Culto de Yezan já agrega o Culto dos Orixás, porém sem a necessidade do sacrifício de animais. A proposta é voltar a fazer o mesmo que era feito no passado (retomar o contato direto com as divindades), mas sem a necessidade de todo o aparato religioso, sem o sacrifício de animais, sem o derramamento de sangue”.

E o resultado, é o mesmo?

“Para fazer uma ligação do orixá com a cabeça (iniciação) do filho (religioso) era necessário fazê-lo pelo sacrifício de sangue, por conta da energia vital contida no sangue do animal. A proposta é resgatar essa tradição, porém elevando o culto, mas sem o sacrifício do animal”.

*Reportagem e fotos: Alexandre de Paulo