Usuários ouvidos pelo Click aprovam trem da linha 13-Jade

Saiba também como serão as fases de implantação do novo serviço

Voltei na tarde deste domingo a andar no trem de Guarulhos, a linha 13-Jade da CPTM, para ouvir a opinião dos usuários e buscar aferir até que ponto as pessoas entendem que a inovação terá efetiva utilidade em suas vidas.

Na estação T testemunhei a euforia de várias crianças com a chegada da composição. Neste fim de semana, o trem foi, sem dúvida, atração turística, com as pessoas procurando fotografar e filmar, principalmente fazendo selfies, para registrar que estavam vivendo um momento histórico. Afinal, depois de 53 anos Guarulhos volta a contar com uma linha férrea, que, aliás, nunca deveria ter sido retirada. Foi uma infelicidade para o Brasil privilegiar o transporte rodoviário, para atender a interesses inconfessáveis.

Ouvi cerca de 20 pessoas, de vários estratos sociais, tanto moradores de Guarulhos quanto de São Paulo. Algumas me conheciam e falaram mais abertamente; outras foram mais reservadas, mas houve quem se manifestasse de forma animada sobre o trem e sua utilidade. Não indaguei seus nomes e as citarei genericamente. Evidentemente, a enquete que fiz não tem rigor científico e, portanto, não pode ser considerada uma pesquisa.

Uma família do Parque Cecap considera que o trem será útil para muita gente, desde que seja ampliado o número de linhas de ônibus que fazem ponto no terminal ao lado da rodoviária. O marido comentou que passa sempre de carro pelas rodovias Hélio Smidt e Ayrton Senna, mas que pela primeira vez observou algumas paisagens do entorno. “Impressionante como muda o ângulo de visão, estando no trem”, afirmou.

Rapazes que faziam pela segunda vez o trajeto entre o Aeroporto e a estação Engenheiro Goulart disseram que, para eles, o ponto mais positivo é que o trem servirá para irem do Parque Mikail, região do Taboão, até o Parque Ecológico. “É um ótimo lugar para passear, mas era muito fora de mão para quem é de Guarulhos e não tem carro. Agora, podemos ir de micro-ônibus até o terminal do Taboão, ali do lado pegar o trem, descer em Engenheiro Goulart e chegar ao Parque Ecológico pela passarela da própria estação”, explicou um deles.

Procurei entender como farão os estudantes da USP Leste (EACH – Escola de Artes, Ciências e Humanidades) que quiserem utilizar o trem como meio de locomoção. Descerão em Engenheiro Goulart e, pelas escadas rolantes, passarão para a outra plataforma, pegando o trem para Calmon Viana, da linha 12-Safira, e descendo na estação USP Leste, primeira parada. Embora a linha 13-Jade passe ao lado da Universidade, não há estação nesse ponto.

Uma senhora criticou o fato de a estação Aeroporto ficar longe dos terminais 2 e 3. “Até em Recife, o trem deixa a gente no Aeroporto. Aqui vai ter de pegar ônibus. Acho isso errado”, afirmou.

Em Engenheiro Goulart, conversei com uma família que mora no local e viria até a Estação Aeroporto apenas para conhecer o trem. Elogiaram a organização e disseram-se otimistas quanto à utilidade da nova linha. “Sem dúvida, será útil para muita gente. As pessoas precisam se locomover pelos mais variados motivos. Só de pensar que não enfrentarão congestionamentos, já é uma vantagem”, disseram. A mulher, professora de rede municipal, disse que é um ponto positivo para o governo do Estado, mas que essa obra deveria ter sido feita décadas atrás: “Onde já se viu um Aeroporto sem acesso por trilhos? Demorou demais”, sentenciou.

Perguntei a um casal de que forma o trem lhes será útil. A moça respondeu laconicamente: “De forma alguma. Não terá utilidade nenhuma”. Tentei esticar a conversa, sem êxito. Indaguei por que estavam embarcando para Guarulhos. Sem resposta.

No trem que fazia a última viagem do domingo, às 15h, uma família com poucas bagagens informou que iria embarcar no Aeroporto. Perguntei se sabiam que a estação fica distante dos terminais 2 e 3. “Tem ônibus. Saímos com antecedência, para evitar atropelos. Mesmo que demorasse, não teria problema. Mas já nos disseram que é tranquilo para o deslocamento da estação até o terminal”. “E se estivessem com malas? Aí seria mais complicado”, argumentei. A senhora disse que não: “Estamos acostumados a viajar e sempre há algum lugar em que temos de manejar as malas; como têm rodinhas, não chega a ser problema”.

Duas senhoras e um rapaz, moradores no bairro do Taboão, estavam contentes com a novidade. “Não tem comparação. Trem é muito mais prático e confortável. Para irmos ao Brás ou à rua José Paulino fazer compras, será uma mão na roda”, disse uma delas. Questionei se a necessidade de fazer baldeações não seria um empecilho. Responderam que não, que é algo corriqueiro também nas linhas do metrô. Eu disse que, provavelmente, o trem estará relativamente vazio de Guarulhos até Engenheiro Goulart, mas lá as pessoas encontrarão trens chegando já lotados no sentido do Brás. Ambas discordaram: acham que assim que começar a operar durante os dias úteis, uma multidão de guarulhenses optará por usar o trem para se deslocar a São Paulo. “Com as baldeações, o trajeto será demorado”, argumentei. Elas opinaram que ainda assim será uma boa opção, pois não ficarão paradas nos semáforos e nos constantes congestionamentos na via Dutra.

Um morador do Ipiranga, Zona Sul da Capital, me disse que estava retornando de levar a filha para embarcar no Aeroporto. Questionei sobre o desconforto de ter de levar malas no ônibus, desde a estação até o terminal 3, onde a jovem foi tomar o avião. Ele disse que vê isso de forma normal. “No mundo inteiro é assim. Em Boston, por exemplo”, respondeu. Retruquei com o exemplo que uma senhora havia dado no início de minha viagem, citando Recife”. Ele disse não ser verdadeira a informação sobre Recife. “Fora do estado de São Paulo, é tudo ruim. O metrô do Rio é ruim; o de Brasília, péssimo”. Como não conheço o Aeroporto de Recife (Guararapes), pesquisei no Google Maps e concluí que os dois estão certos e errados. Explico: a estação da Aeroporto do metrô fica relativamente próxima do local de embarque, mas o passageiro tem de atravessar ruas para ir de um ponto ao outro. Por último, ele disse que nas próximas viagens, em vez de optar por Congonhas, que é mais perto do bairro onde mora, escolherá Guarulhos, pela possibilidade de se deslocar de trem, mesmo tendo de fazer baldeações.

Por fim, duas senhoras residentes no condomínio Paraná, Parque Cecap, mostraram-se satisfeitas com a implantação do trem. “Dá gosto ver tudo novinho, funcionando bem. Vamos ver como será quando estiver operando em todos os horários. Estamos ansiosas para ver isso. É um progresso e tanto para o nosso bairro”, disse uma delas. Perguntei se entendem que o trem irá valorizar os apartamentos do conjunto residencial. “Não temos dúvida que sim”, concluíram.

FASES DA IMPLANTAÇÃO

No mês de abril, o trem funcionará com a Operação Assistida (fase de testes), apenas aos sábados e domingos, das 10h às 15h. Em maio, começa a funcionar todos os dias da semana, porém ainda das 10h às 15h. Durante os meses de abril e maio o intervalo entre as partidas será de meia hora e não haverá cobrança de passagem. Porém, quem for seguir viagem pela linha 12-Safira terá de comprar o bilhete na estação Engenheiro Goulart.

A partir do junho, a operação passará a ser das 4h à meia-noite, no Serviço Regular. Também começará a funcionar um novo serviço, o Connect, com trens que sairão da Estação Brás até a Estação Aeroporto-Guarulhos somente nos horários de pico (das 5h às 9h e das 16h às 20h), sem a necessidade de baldeação na Estação Engenheiro Goulart. O percurso terá duração de cerca de 35 minutos, com o trem parando em todas estações para embarque e desembarque e o preço da tarifa será o mesmo do trem metropolitano, que hoje custa R$ 4, com direito a integração com o metrô.

Depois do quarto mês, a previsão é que entre em operação o serviço CPTM Airport-Express, que levará os usuários direto, sem parada para embarque e desembarque, da Estação Aeroporto-Guarulhos até a estação da Luz, onde há transferência para as linhas 7-Rubi e 11-Coral da CPTM e para as linhas 1-Azul e 4-Amarela do Metrô, além de outras facilidades de transportes como ônibus e táxi. O percurso será realizado em cerca de 35 minutos e os trens partirão em 4 horários programados nos dois sentidos. O preço da tarifa ainda será definido.

Valdir Carleto