Zezé de Guarulhos, cidadão do mundo

Por Amauri Eugênio Jr

Talvez você ainda não tenha ouvido falar sobre João Mesquita Cury, 28. Mas, certamente, você já assistiu a muita coisa em que ele está envolvido. Basta dizer que João, ou Zezé para os mais próximos, é diretor do talk show “The Noite com Danilo Gentili”, do SBT. Como se pode supor, sua rotina é das mais corridas e frenéticas, mas de tão apaixonado pela sua profissão, o cara é do tipo de pessoa que se diverte enquanto trabalha.

Por causa das agendas apertadas de Zezé e da reportagem da RG, a entrevista foi feita em duas fases, após diversos contatos feitos por ambas as partes. A primeira etapa foi feita por e-mail e a seguinte, já bem mais descontraída, foi durante a sessão de fotos realizada nas instalações da Forneria Capannone.
Durante o bate-papo, foi possível perceber que ele nasceu para trabalhar no universo televisivo. Coincidência ou não, o seu interesse por esse mundo surgiu ainda cedo, bem antes da famosa época da escolha por uma carreira. “No meu último ano de colégio, comecei a ler sobre televisão e entender mais sobre esse universo, e criei um novo hobby: caçar erros técnicos em programas de TV. Assistia a vários tipos só para achá-los. Chegava a ser chato. Minha mãe não me deixava assistir com ela porque sabia que eu só estava ali para criticar”, comenta.

Primeiro bloco

Zezé é formado em rádio e televisão pela FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) e, motivado a mergulhar de cabeça em sua formação, fez um curso de produção e direção de cinema na New York Film Academy, nos EUA; e outro de direção de atores, no Senac.
O pontapé inicial em sua carreira foi no rádio. Tudo porque um professor da Faap lhe ofereceu um estágio na Rádio Cultura, na qual trabalhou como assistente de direção do programa “A voz popular”, o que lhe proporcionou capacidade de priorizar informações importantes, como editar entrevistas de 40 minutos para um programa de cinco minutos, por exemplo. Mas, após ter aprendido o bastante no rádio e ter ido estudar nos EUA, um amigo lhe avisou que o “CQC” estava em busca de estagiários. Esse foi o ponto de virada em sua carreira. “Identifiquei-me demais com o programa, por causa do formato, ideias e linguagem. Tinha certeza de que seria sucesso. Assim que voltei dos EUA, fiz a entrevista e fui trabalhar como estagiário do ‘Proteste já’, quadro apresentado pelo Rafinha Bastos. Foram cinco meses no quadro até ser promovido, quando fui contratado como produtor de conteúdo do CQC”.
Já no novo cargo, Zezé passou a ser responsável por escrever e orientar o repórter com o qual faria matérias para o quadro. Para completar, ele estava em fase de entrega do TCC da faculdade, o que é por si só é um período

louco. Mas, aqui vale a velha história de que sacrifícios são acompanhados por recompensas. “Por várias vezes gravava matérias até as 4h e às 7h já estava na faculdade pra fazer os trabalhos. Foi um ano bem puxado, mas muito recompensador. O ‘CQC’ firmou-se em 2009 e virou referência na TV. Isso valorizou muito o nosso trabalho”, destaca, ao falar sobre uma reformulação pela qual o programa passou no quarto ano de experiência e sobre como foi incentivado a participar de um teste para escolha de novos repórteres. “Fui lá e fiz. Tanto o elenco, como os roteiristas me aprovaram para a vaga, mas o diretor do programa decidiu segurar a contratação, alegando que não poderia me perder no cargo que eu exercia, já que era o produtor com mais tempo de casa. Ele iria contratar novos produtores e eu tinha de ajudar a ensiná-los. Além disso, ele achava que pela minha idade na época [23-24 anos], eu poderia esperar uma nova oportunidade.”

Do Brasil ao planeta

Zezé continuou como produtor do CQC. No entanto, o planeta dá voltas. “No meio dessa história, uma das produtoras do programa, a Juliana Dantas, foi trabalhar na Globo Internacional. Lá, ela ficou encarregada em reformatar um programa do canal chamado Planeta Brasil”, conta, ao falar do programa, que seria repaginado, ficando mais jovem e divertido. Em resumo, mais com a cara do CQC. “Foi quando ela se lembrou do meu teste e mostrou para os diretores da Globo Internacional. Eles gostaram e me chamaram para um entrevista. Em dez dias minha vida mudou. Ofereceram um contrato de um ano, renovável por mais um, caso aprovassem o primeiro. Tive 20 dias para arrumar minhas coisas e me mudar para os EUA.”
Já nos EUA, Zezé viajava pelo país, além de Canadá e México, para contar histórias de imigrantes brasileiros. O trabalho era satisfatório e o feedback, positivo. Tanto que seu contrato foi estendido por mais um ano. “O segundo ano à frente do ‘Planeta Brasil’ foi incrível. Com mais experiência, comecei a aprovar [mais] o meu trabalho do que no primeiro ano, que não me satisfazia. Eu tinha vergonha de assistir os primeiros episódios, pois era clara a evolução”.
Em paralelo, ele aprendeu muito sobre como era a produção de TV estadunidense e ficou, digamos, fissurado pelos programas late nights – talk shows noturnos, em que os apresentadores entrevistam convidados. Além disso, ele manteve contato com os amigos dos tempos de CQC. Esses dois fatores foram decisivos para a fase seguinte.

Vida à noite

zezé de guarulhos

O popular e polêmico apresentador Danilo Gentili saiu do “CQC” na mesma época em que Zezé e, nessa fase, ele foi apresentar o late night “Agora é tarde”, na Band. Gentili sabia da admiração dele por esse formato de programa, ainda mais por ele dar algumas dicas aqui e ali para Danilo. Quando voltou ao Brasil, em 2014, coincidindo com a ida de Gentili ao SBT, ele topou participar do então novo projeto na emissora de Silvio Santos. Para completar, Rafinha Bastos iria substituir o apresentador e convidou para assumir um cargo no programa. “Apesar da generosa oferta do Rafinha, eu já tinha dado minha palavra ao Danilo. Além disso, a liberdade ele me deu e o novo canal de contatos que eu iria abrir com o SBT acabaram me fazendo escolher a emissora do grande Silvio Santos”, conta.
Apesar de a insegurança ter vindo à tona quando se tornou diretor-geral do programa – “não sabia se aos 27 anos eu já estava preparado para isso” –, Zezé conseguiu contornar bem esse receio e já se sente bem à vontade no novo cargo. E, mesmo sendo alguém que se diverte a trabalho, a preocupação com a audiência é das maiores. Afinal, ele é o diretor do programa. “Por ser muito envolvido com o projeto, já passei várias noites em claro. O programa, dependendo do dia, acaba após as 2h. Imagine tentar dormir às 2h30 sabendo que sua audiência foi péssima naquela noite. A pior coisa é ter o aplicativo de Ibope no celular. Não consigo não ver como está indo o programa antes de dormir.” E ainda há a vida social em meio a isso tudo: “toda vez que resolvo dar uma maneirada com as festas, aparece um amigo que acabou de terminar o namoro e está desorientado para sair. Aí, lá vou eu de novo, mas confesso que a idade está começando a pesar e estou tentando pisar no freio.”
Por fim, João e Zezé são a mesma pessoa: o cara é do tipo família e faz questão de estar próximo aos amigos. “Posso te dizer que apesar de vocês terem me procurado para a entrevista por causa da minha carreira, esse não é o grande orgulho da minha vida, mas sim a família e os amigos que fiz. Quem é o João Mesquita Cury? É o Zezé de Guarulhos”, finaliza.

Artigo retirado originalmente da Revista Guarulhos – Edição 105