Por Simone Carleto
Espetáculo produzido pela Cia. Khalina Aymelek reforça caráter autoral de trabalhos artísticos na cidade. Ao contrário do que se possa imaginar, a cidade tem inúmeros artistas extremamente criativos. Projetos como esse tornam possível que mais gente conheça a produção da cidade. Infelizmente, muitos fazedores têm a necessidade de se projetar em São Paulo, decisivamente um importantíssimo polo de produção artística. Porém, há muita gente na cidade que se empenha em realizar processos partilhados absolutamente criteriosos e comprometidos com a importância das linguagens para que se possa olhar para as questões dadas socialmente e explorá-las de modo crítico. É assim com Lua Negra.
Fica bastante evidente para quem assiste ao espetáculo o processo de criação envolvendo pesquisa, trabalho colaborativo e a fundamental ênfase no processo. Ele permanece durante a temporada, e isso é o mais relevante numa obra que se propõe contemporânea e, portanto, aberta às inúmeras possibilidades de estabelecer nexos com o repertório pessoal em relação com a obra. Segundo Khalina, “a pesquisa teve como base o livro Lilith, A Lua Negra, de Roberto Sicuteri e os estudos sobre o tema do antropólogo Roque de Barros Laraia, da universidade de Brasília. Além disso, outros livros serviram como base para pesquisa de enredo: O Golem, de Wiesel e Romances e Canções Sefaditas, de Leonor Scliar”.
A respeito da concepção do espetáculo, a atriz e bailarina explica: “Através de um espetáculo de dança cênica com base técnica na dança orienta árabe e nos conceitos de teatro físico, onde a individualidade do estilo de cada artista é respeitada. Desse modo, a Cia. desenvolve pesquisa técnica, edificando conceitos que compreendem o corpo não como instrumento, mas como um corpo-pensante, o processo de trabalho é colaborativo e a relação com o espectador é aberta”. De fato, é um espetáculo híbrido, repleto de imagens e de caráter performático, em que as adaptações realizadas aos diversos espaços em que permaneceu em temporada fazem toda a diferença, pois o grupo se relaciona com cada local, a partir da ideia de desterritorialização e ocupação cultural do espaço público, no sentido de apropriar os cidadãos e cidadãs da polis, e da convivência humana.
O fato de fazermos parte de uma sociedade em que falar de equidade e respeito às diferenças causa muita polêmica, talvez traga ainda a necessidade de tantos argumentos serem expressos textualmente. Nossas contradições são percebidas e afloradas na trama, que questiona a forma como se dá historicamente a relação de poder homem-mulher. Seriam homens todos os humanos, independente da questão de gênero? Ou o espetáculo, corajoso e contundente bota foco em inúmeras outras questões, difíceis de enxergar até para os mais “progressistas”? Como não poderia deixar de ser, somos filhos e filhas do nosso tempo. E que maravilha a arte que nos aproxima da possibilidade de nos sentirmos parte de um mesmo movimento. Isso é fazer cultura, no sentido de pertencer a algo significativo. E que a arte, como parte da cultura, também seja dela inseparável, como tudo que é único. Assim, temos chance de nos humanizar e harmonizar. O projeto contemplou também partilhas de processo, oficinas com foco no empoderamento feminino e debates após as apresentações.
Últimas apresentações:
27 e 28 de junho, às 19h
Teatro Nelson Rodrigues
Rua dos Coqueiros, 74, Vila Galvão
4 de julho, às 20h
Teatro Adamastor
Avenida Monteiro Lobato, 734, Macedo




