Fazer o bem ao próximo e a si mesmo

Por Amauri Eugênio Jr.
Fotos: Arquivo pessoal, banco de imagens e divulgação

Pensemos em Martim e Joaquim [nomes fictícios], duas pessoas com atitudes e predisposições comportamentais para lá de diferentes. Enquanto Martim age de modo gentil com todos ao redor, sem se preocupar com possíveis gratificações e reconhecimento, além de agradecer até pelas pequenas coisas cotidianas, Joaquim espera sempre algo em troca e acha que as pessoas a quem ajuda têm uma dívida com ele. Da mesma forma, sente-se em dívida eterna com cada pessoa que já o ajudou. Enquanto o primeiro cativa as pessoas ao seu redor pelo seu jeitão afável, leve e gentil, o segundo parece estar o tempo todo de mau humor, ao achar que o mundo está perdido e que as pessoas só pensam em si mesmas. Martim está sempre de bem com a vida e consigo próprio, enquanto Joaquim parece estar carregado de mágoa o tempo todo.

A gratidão faz uma pessoa ver a vida de modo mais sublime e agradável, o que leva à solidariedade e à sintonia mais intensa com o seu lado interior e, assim, melhora o bem-estar e os relacionamentos. Como se pode supor, tudo isso pode influenciar na saúde. “As pessoas que recebem ajuda de um estranho, por exemplo, tendem a se tornar mais tolerantes às adversidades e diferenças no mundo. Além disso, elas se sentem estimuladas a multiplicar essa causa e retribuir ao seu ‘doador’ da mesma forma ou com mais requinte”, explica Luiz Gabriel Tiago, também conhecido como Sr. Gentileza, escritor, palestrante e especialista em gentileza corporativa.

Sensação agradável

Sabe aquela pessoa que é tão gente boa, mas tão gente boa, que só a presença dela parece deixar o ambiente mais agradável? Pois bem, esse é o caso de quem faz da gratidão um de seus lemas na vida. Essas pessoas, além de agradáveis, são boas companhias e, claro, deixam um rastro positivo por onde passam. Mas, o que explica elas terem comportamento tão nobre? Os fatores são variados, mas os principais são os exemplos que tiveram no decorrer da vida, em especial com os pais, professores, amigos e (por que não?) líderes e colegas de trabalho. Sim, uma pessoa com esse perfil pode inspirar outras a agirem como ela e, desse modo, tornar o mundo em que vivem um lugar mais gentil e rodeado pela gratidão.

Contudo, aqui vai um alerta: a gratidão e a gentileza não têm classe social, etnia, orientação sexual, grau acadêmico e demais variáveis sociais. Qualquer pessoa pode agir desse modo, não importando o contexto social em que está. Sendo assim, o primeiro passo é transformar a consciência, mesmo aos poucos, para esse sentimento tornar-se algo natural e contínuo na vida.

“Precisamos ressignificar nossas vidas e entender, de uma vez por todas, que os valores humanos são importantes e determinantes para o sucesso pessoal e profissional. Afinal de contas, como ser pleno e feliz sem considerá-los? Deixemos que as pessoas ‘ocas’ ou desprovidas de emoção se autoexcluam e se toquem de que, um dia, precisam ser ‘gente’ novamente”, pondera o Sr. Gentileza, ao endossar o viés gratuito da gentileza e da gratidão. “Engana-se quem pensa em retribuição imediata, pois a gentileza é altruísta e não espera nada em troca.”

Cuidado para não ser mal interpretado

Apesar dos pesares, algumas pessoas se sentem inferiorizadas, em débito e até mesmo humilhadas por serem ajudadas. Estranho, não é mesmo? Por isso, é importante que ambas as pessoas estejam à vontade com a situação – ajudar e ser ajudado – para tudo fluir de modo harmônico. Então, que tal mostrar que é algo gratuito e que nada impede uma pessoa ser ajudada, além de que ela ajudará outra pessoa em qualquer outro momento da vida?

Isso pode ajudar a quebrar a parede e trazer a gratidão à tona. “É necessário olhar para aquilo que o outro realmente precisa e não para o que eu gostaria que ele precisasse, ou para aquilo que eu acho que seria melhor ou mais certo para ele. Assim, eu estaria me ajudando e não ajudando ao outro. O altruísmo é nosso melhor alimento. Perdemos nosso escudo protetor, nos saciamos e nos fortalecemos com um sorriso sincero de agradecimento”, pondera a psicóloga Cristiane Alves Lorga, especialista em intervenção familiar, do ITS (Instituto Terapia Sistêmica).

Ainda vale nesse caso aquela velha história de ajudar de modo sincero, sem querer parecer melhor do que a pessoa a ser ajudada. Uma coisa é ser gentil, outra coisa bem diferente – bem diferente, mesmo – é agir com pena. Aí, meu amigo, a gratidão já terá sido deixada de lado. “Sem amar a si [mesmo], não tem como amar ou servir o outro. É importante ressaltar que se deve oferecer o que a pessoa precisa. Se você vai até o hospital de crianças queimadas para diverti-las, ofereça riso e alegria. Não adianta ir até o local para sentir pena, pois isso não ajuda”, ressalta a psicóloga Márcia Regina Orsi, também especialista em intervenção familiar, do ITS (Instituto Terapia Sistêmica).

De corpo e alma

Saber que você ajudou alguém, sem esperar nada em troca, dá uma paz de espírito indescritível e causa leveza na alma. Parte dessa sensação é assim explicada: quando praticamos algum tipo de gentileza e temos a gratidão em nosso estilo de vida, libera-se no cérebro a serotonina, que é o hormônio do bem-estar. Por exemplo, quando uma pessoa nos trata bem, acabamos, sem perceber, tratando outra pessoa do mesmo modo. É como se aqui valesse o princípio de ação e reação, sem contar que energia positiva gera mais energia (adivinhe?) positiva. “Sempre digo nas minhas palestras que o melhor remédio para a depressão é a caridade, que é um valor tão escasso na nossa sociedade. Ao praticar o bem, literalmente ‘detonamos’ o pessimismo e contribuímos para um mundo melhor”, completa Luiz Gabriel Tiago, o Sr. Gentileza.

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