Por Tamiris Monteiro
Dentro de uma relação, o casal compartilha sonhos, planos, dinheiro, o mesmo teto, contas para pagar… e, por que não, o comando de uma empresa? Para alguns, a ideia de trabalhar com o marido ou esposa na construção de um estabelecimento é uma possibilidade muito bem-vinda, tanto no plano pessoal quanto profissional. Mas, apesar de ser um projeto tentador, virar sócio do cônjuge pode ser uma estratégia arriscada, porque na mesma proporção que o empreendimento pode vingar e ser um case de sucesso, existe possibilidade de as dificuldades arruinarem relacionamento e negócio de uma só vez.
Há 23 anos, o casal Alexandre e Adriana Provazi, proprietários da academia Via Hidro, decidiu investir em uma sociedade, mas no caso deles, felizmente, a empreitada rendeu bons frutos. Em 1992, quando faziam faculdade de educação física, juntos, na mesma sala, Alexandre construiu uma piscina na casa dos pais, abriu uma academia e começou a dar aulas. Com apenas três meses de namoro, convidou Adriana para trabalhar com ele.
“Quando comecei, percebi que não conseguiria trabalhar sozinho e precisaria de alguém. A Dri já trabalhava em outra academia, mas mesmo assim fiz o convite. Ainda deixei bem claro que era trocar o certo pelo duvidoso, mas ela acreditou em mim e topou. No início foi bem puxado, pois dávamos aula de manhã; à tarde, íamos para a faculdade e depois voltávamos para dar mais aulas”, relembra.
Namorados e sócios
Juliana Lessa e Kleverson Miquilim são namorados há oito anos e há seis dividem a sociedade da Pink Party, empresa especializada em festas personalizadas e serviços de beleza para meninas. Apesar de subirem ao altar em janeiro do próximo ano, para Juliana, formada em publicidade, abrir um negócio com o namorado nunca esteve em seus planos, mas a oportunidade surgiu e ela abraçou.
“Tive algumas experiências como CLT na área de vendas. Vendi parafuso, revisão em concessionária de carros e, por último, trabalhei em uma agência de publicidade, onde conheci o ramo de festas e eventos. Nesse lugar, tive alguns problemas com o recebimento de comissões e fiquei insatisfeita. Daí pensei que fazer eventos por conta poderia ser uma saída. Conversei com o Kleverson, que já administrava o negócio da família, ele fez algumas contas e chegou à conclusão de que precisaríamos de pouco para o investimento inicial. Senti-me segura com o aval dele e foi o começo de tudo”, conta.
O primeiro evento feito pelo casal foi no Bosque Maia, em um Dia das Crianças.
“Cobramos apenas um valor simbólico para fazer penteado e maquiagem. Improvisamos uma tenda, fizemos alguns folders para divulgação e foi assim, com a cara e a coragem. Essa primeira experiência serviu para confirmarmos que poderia dar certo, pois houve uma boa aceitação, tanto das crianças quanto dos pais”, declara Kleverson.
Mesmo com um investimento inicial baixo, o negócio deslanchou e quando ia de vento em popa, o casal se viu dentro de uma relação desarmoniosa.
Talvez, a coisa mais difícil para parceiros que criam e administram uma empresa seja o fato de que há muito pouco tempo para viver momentos e conversas que não estejam relacionados ao trabalho.
“No início, não esperávamos que desse tão certo, ficamos sobrecarregados e a empresa passou a tomar tanto do nosso tempo, que a relação desestabilizou. Quando colocamos a ideia em prática, foi bem difícil, porque tínhamos um ritmo de vida bastante animado, com jantares, passeios e viagens. E foi um choque perceber que todos nossos fins de semana estavam sendo ocupados pelos eventos. Chegou um momento que não sabíamos se éramos mais sócios do que namorados ou mais namorados do que sócios. Quase terminamos. No entanto, com o tempo, a relação ficou ainda mais fortalecida, porque percebemos que um dependia invariavelmente do outro dentro da empresa, como, geralmente, acontece também dentro de uma relação. E essa troca foi fundamental para nosso desenvolvimento pessoal e profissional”, destaca Juliana.
Mesmo com a contratação dos funcionários, por enquanto, o casal alega estar em um patamar em que não conseguem delegar tudo, por razões operacionais e até de ajustes no formato do negócio, que vem crescendo. Mas, apesar dos apuros naturais de uma sociedade, hoje, mais maduros, o trabalho flui melhor e é notória a admiração que um sente pelo outro.
“É bem difícil fechar a porta da empresa e deixar tudo que diz respeito ao negócio lá. Quando acontece uma discussão mais ríspida no trabalho ou até mesmo no relacionamento, isso acaba influenciando. Mas decidimos priorizar a relação, e independente do que aconteça na empresa, optamos por não deixar que prejudique nosso namoro. Quando olhamos para trás e analisamos nossa história como namorados e sócios, enxergamos coisas boas, temos um sentimento de gratidão sobre tudo que fizemos um pelo outro e o que estamos construindo para os dois”, finaliza Kleverson.
O que fazer para dar certo?
De acordo com a coach e palestrante Allessandra Ferreira, a principal dificuldade vivida por casais-sócios é a de não levar trabalho para casa, além de misturar a relação profissional com a relação familiar. Para evitar conflitos, algumas medidas podem ajudar.
Cada um deve ficar responsável pelo que é pertinente aos seus conhecimentos, habilidades e atitudes. “É importante que a descrição das funções esteja clara e a avaliação do perfil de cada um seja analisada para alinhar a colocação do cônjuge em seu cargo e seu nível desde o início”.
Para não levar os eventuais problemas da empresa para casa, os cônjuges precisam estabelecer um pacto de convivência.
“É necessário deixar pré-estabelecido que ao perceber que está havendo uma interferência dos problemas da empresa na relação, um irá sinalizar ao outro, que acatará a sinalização e imediatamente irá cessar tal interferência, deixando para resolver isso no ambiente profissional, no horário comercial”.
É fundamental estipular diretrizes, como planejamento estratégico que contemple objetivos claros, indicadores específicos e mensuráveis, metas sustentáveis e plano de ação detalhado.
“Além disso, os propósitos pessoais dos sócios devem estar alinhados com as diretrizes empresariais. Uma atenção que deve ser contemplada ao casal que escolher trabalhar junto é o fato de colocar todos os ovos na mesma cesta, ou seja, os ganhos familiares ficarem restritos a uma única fonte de entrada”.


