Por Fábio Carleto
Quase sempre antes de começar a escrever uma matéria, ela já está 90% pronta na minha cabeça. Nem sei o porquê, mas desta vez não. Talvez, como disse um companheiro nessa romaria, porque é difícil encontrar palavras para descrever uma experiência tão profunda, intensa e extensa. E quando digo sobre extensão, não me refiro aos quase 170 quilômetros percorridos a pé entre Pouso Alegre e Aparecida, mas da vastíssima gama de aprendizados que se pode colher de tal empreitada.
Da primeira vez que me juntei ao grupo Senhor Bom Jesus, em 2013, assim que cheguei já queria me sentar frente ao computador para relatar aquele mar de sensações. Era tudo muito novo e de uma dimensão tal que escrever foi quase terapêutico. Precisava dividir aquilo que não cabia em mim. Agora fica mais “à mão” a compreensão de uma das máximas dos veteranos: nenhuma romaria é igual às outras. Mesmo estando apenas na segunda, já dá para saber que é a mais pura verdade.
Duas semanas depois de estar de volta, as fichas ainda caem e detalhes aparentemente sem importância vistos lá vão ganhando contornos para dar total sentido e amarração a questões vitais de meu cotidiano. Os caminhos percorridos em peregrinação curiosamente se fundem em significado à estrada da vida.
Este texto pode ser menos interessante do que o primeiro sobre essa vivência, talvez um tanto clichê, até. Mas me emocionou profundamente escrever e é de todo coração que compartilho por aqui. Ficarei feliz se significar algo para você que me prestigia com seu tempo e atenção, pelo que agradeço desde agora.
Aos trabalhos
Tudo começa no sábado à noite. Os romeiros vão chegando aos poucos na praça. É fácil ver quem é veterano ou novato. Uns com nítida euforia, outros com indisfarçável apreensão. Ao contrário do que se pode pensar, chegar ao ponto de partida está longe de ser pouca coisa, porque quem aprontou malas e espírito para uma jornada dessas, perdoe a imodéstia, não pode ser pessoa tão comum. É formidável encontrar os amigos feitos ali e reviver parte da emoção de outrora. O coração se aquece e os músculos parecem responder a isso.
Este ano três de nossos irmãos de estrada receberam justa homenagem das crianças de uma instituição à qual ajudam. Antes de nossa saída, os pequenos apresentaram músicas e coreografias no coreto, o que obviamente emocionou a todos.
Lágrimas aparadas, bastões em punho, pé na estrada. A cada pouco, um encontro com o carro de apoio para receber água e incentivo. Trechos mais longos são marcados por parada do ônibus de apoio, quando fazemos um lanche, descansamos um pouco, alongamos, e quando necessário fazemos algum ajuste para seguir. Esse grupo, que faz o trajeto há 62 anos, tem todos os pontos de controle devidamente planejados: lugares para dormir, comer, haver missas e fazer paradas estratégicas, coisas que ajudam muitíssimo.
O primeiro dia de caminhada (ou você pode chamar de noite, se preferir) se inicia por volta das 20h30 e se estende até meio-dia, aproximadamente. É uma jornada extenuante que soma aproximadamente 53 quilômetros, o maior trecho. Por isso, se diz que quem chegou a Paraisópolis, nossa primeira parada, já está em Aparecida.
O mercado municipal é nossa parada, onde comemos pastel feito na hora (inclusive a massa), entre outros quitutes, e bebemos caldo de cana ou cerveja, dependendo do “eleitorado”. Depois, descansar, que ninguém é de ferro.
A Pousada da Praça parece um pedaço do céu, pois ali somos acolhidos com total carinho e atenção. Cama e chuveiro quentinhos e ser recebidos com um sorriso é bálsamo para nós, andarilhos.
A segunda madrugada se inicia por volta das 3h, quando saímos de “Paraíso” rumo a Santo Antônio do Pinhal. O trecho é um pouco mais curto, algo como 45 quilômetros, mas bastante acidentado.
Nesse dia passamos pelo Carrefulvio, um supermercado local cujo nome e logotipo falam por si sós sobre a genialidade do proprietário. Também é nesse dia que parte do grupo se reúne para o Terço da Misericórdia, quando cada um apresenta sua intenção ou motivação para estar ali e todos rezam por todos. É um dos pontos altos da caminhada, um momento de profunda união entre os romeiros. Alguns encerram esse dia apenas por volta das 17 horas, dados os desafios da topografia a serem vencidos.
O terceiro dia começa por volta das 4h, reserva algo em torno de 40 quilômetros e uma opção inusitada: fazer parte do trajeto de descida pela linha do trem. Aliás, ir de Santo Antônio do Pinhal a Pindamonhangaba desafia o senso comum que diz que “na descida, todo santo ajuda”. Na verdade, esse trecho faz muita gente orar pela próxima subida, porque mesmo sendo mais cansativa, preserva os joelhos, que tanto sofrem nas descidas. Por volta das 16h, todos já venceram a distância.
A chegada a Pinda é um dos momentos mais aguardados: o encontro no bar do Bigode, onde a turma se confraterniza por algumas horas antes de ir para o hotel descansar e se preparar para a última “perna”, de Pindamonhangaba a Aparecida.
O último dia é de andar “apenas” em torno de 27 a 30 quilômetros, quase só planos. Saímos por volta das 6h para chegar umas 15h. O grupo então se junta para entrar unido na Basílica em visita à imagem de Nossa Senhora Aparecida, momento extremamente emocionante para todos.
Refletir, rezar, andar
Ainda que se queira ficar vidrado no celular, a ausência de sinal da maioria do trajeto contribui para o distanciamento das coisas do dia a dia. Então, sobra muito tempo para conversar com os companheiros e refletir sobre a vida.
Nas saídas de todos os dias e em momentos programados, os terços são rezados. Nesse momento, o grupo permanece reunido e andando lentamente enquanto a oração acontece. Após o terço, cada grupo vai no seu ritmo. É sempre bom caminhar em pelotões, ainda que pequenos, para que o moral continue elevado e o esforço renda, pois se tem referência e isso ajuda muito.
Beleza na simplicidade
É interessante como as paisagens são, ao mesmo tempo, da maior simplicidade e de tão rara beleza. Difícil não constatar a presença de Deus e o privilégio de fazer parte de uma criação tão perfeita. Céu estrelado, estrelas cadentes, nascer e pôr do Sol, a cerração das manhãs… coração e a alma plenos de uma paz difícil de explicar. E um tipo de gratidão à Criação que nem sempre nos damos a chance de sentir.
As dores e a regeneração
Mesmo quando você já passou pela experiência, como foi meu caso, ao final do primeiro dia, quando chegamos à pousada, tomamos um banho e o corpo esfria, as dores fazem pensar que a viagem pode ter acabado ali, pois é difícil acreditar ser possível seguir.
Essa é uma das grandes lições de uma romaria: milagres acontecem o tempo todo, não só em volta de nós, mas no nosso próprio corpo. Pense na mágica que é um corte cicatrizar. Parece corriqueiro, mas não é. Diz meu amigo Julio Ganiko que nosso organismo tem inflamações permanentes, que ele mesmo dá conta da cura e que esse processo fortalece nossa imunidade. Como podem músculos tão exigidos, principalmente no caso de pessoas sedentárias, após algumas horas de repouso, se regenerarem tão rápida e surpreendentemente? Simplesmente acontece. Essa capacidade de restauração, como podemos observar, não é só física. É do espírito, da motivação, da vontade.
Com firme decisão, você acorda no outro dia, começa a caminhar apesar das dores que restam e, quando vê, está em plena marcha. Não sem dores, mas com a certeza de que aguenta mais do que imaginava. E que a dor faz parte.
Ouvi a Celiane e o Pedro, casal tradicional do grupo, dois dos muito anjos sempre a postos para acolher e socorrer, conversando com uma novata. Ela perguntou à moça “… E aí, como está você? Muitas dores?”, ao que ouviu a resposta “Nada, estou ótima! Praticamente sem nenhuma dor…”. Sempre espirituosa, Celiane brincou: “Você não está nada bem… o normal seria doer tudo! (risos)”.
Foi só uma brincadeira, mas para mim teve especial sentido. Porque sinto que, no geral, reagimos às dores como algo fora do normal, quando na verdade doer é inerente a quase tudo. Viver, ser e crescer envolvem dores. Nascer e dar à luz dói. Cair dói e levantar pode doer mais. E a dor pode ser útil, organizadora, como num trabalho de parto.
No caminho, quando dói a coxa, muda-se a pisada, negocia-se com o incômodo, alivia-se ali e, talvez, passe a doer o joelho, o pé. Mas você descobre que aguenta e pode seguir. E isso, por paradoxal que pareça, é confortante.
O tempo
Já no terceiro dia, Eder, um dos espirituosos novatos, compartilha um rico aprendizado. “Aqui eu aprendi o valor do minuto. Quando a gente pausa para um ajuste no tênis, pegar uma água ou por qualquer distração, o grupo se desgarra. As pessoas passam e você fica. Para alcançar o pelotão novamente, pode-se levar uma hora ou mais. A partir daqui, minha vida muda e eu darei ao tempo ainda mais atenção e reverência, porque cada minuto vale muito”, ensinou meu novo amigo. Ainda assim, quando eu precisei parar, ele ficou comigo. E isso não dá pra esquecer.
Conversas de valor
A romaria é uma oportunidade ímpar de conhecer gente incrível. Mas também de aprofundar laços com companheiros de vida que você já tem. De Guarulhos, saíram comigo o Minoru e a Isa, pelos quais eu tenho o maior amor e gratidão. Eles se importam comigo e eu com eles “porque sim”. Ter esse tempo com eles é sempre um presente. Ele foi nosso anfitrião em nossa primeira vez, em 2013. Ela é minha parceria de sempre e tantas, que já se perderam as contas. Conversas assim, “contaminadas” por um ambiente tão positivo, são certeza de aprendizado, inspiração e crescimento.
Uma missa a menos
Desta vez não tivemos a missa na manhã do domingo, quando já temos completos quase dois terços do trajeto do dia. E fez falta. Tanta quanto só pude perceber no terceiro dia, quando após a brilhante ministração de padre Mario Adorno segui “voando baixo”, com o espírito renovado pela Palavra e a Eucaristia. Lembrei-me de como havia me tocado a missa de domingo à noite e como isso tinha sido importante para a renovação de minhas forças para o segundo dia. Mesmo eu, que só recentemente passei a frequentar as celebrações com regularidade.
Apetrechos
A fé remove montanhas, mas como diz o Testamento, “vigiai e orai”. Além da oração, vital, bons tênis, micropore (aquele esparadrapo bem fininho), bastões de caminhada (um deles pode reduzir o esforço em 15%; dois, 30%), joelheiras, remédios e sprays para dor, pomada antiassaduras, filtro solar e chapéus ou bonés com boa cobertura para a cabeça, rosto e pescoço são fundamentais. Pelo segundo ano consecutivo essa combinação funcionou muito bem para mim. Zero bolha, nenhuma contusão e uma rapidíssima recuperação do cansaço e dores musculares.
De quem é esse micropore?
O espírito de ajuda mútua é o ponto alto de uma romaria. Pomadas, roupas, tênis… Tudo parece ser de todo mundo. Suas bolhas, a dor do outro… É tudo nosso. Impossível descrever, mas é um sentimento de união e amor fraterno arrebatador. Um orgulho imenso de fazer parte dessa nova família que se cria, aumenta e se renova a cada ano.
Mortificar o corpo para resplandecer o espírito
Sempre acreditei que Deus não espera de mim qualquer sacrifício. Senão, porque teria permitido seu Filho amado se entregar por todos nós? Essa convicção me fazia pensar que, em qualquer eventualidade, poderia subir no ônibus e seguir sem problemas. Fazia.
Durante a missa do terceiro dia, o muitíssimo bem vocacionado padre Mario Adorno disse durante sua homilia algo que entendi assim: “Ofereça sua dores em oração, não porque Deus ou Nossa Senhora precise ou se agrade de seu sacrifício. Para eles isso não importa. Seu sacrifício é importante para você! Pois quando se mortifica o corpo há mais espaço para o resplandecer do espírito”. Para mim, fez todo sentido. Os incômodos de uma trajetória como a que fizemos vão, aos poucos, perdendo importância. As coisas do pensar e do sentir vão se aprofundando e se estendendo e as lições da simplicidade vão encontrando terreno fértil para germinar. Ao final dessa maravilhosa jornada, posso afirmar que é pouco sacrifício para tão enorme aprendizado.
O que faço eu aqui?
Maristela Bispo, marcante matriarca de uma família espetacular, ouviu meu lamento ao fim do primeiro dia, quando eu disse a ela que provavelmente seria meu último ano. Sofri muito com uma dor na coxa que eu nunca senti antes. Era como ter uma faca atravessada ali. Sábia, me deixou saber: “Até o terceiro ano, todos os dias eu me perguntava por que eu estava aqui, e pensava que nunca mais voltaria. Depois, não me perguntei mais”. Do segundo dia até o último, suas palavras me invadiram diversas vezes. Graças a ela, entendi essa lição já em minha segunda romaria. Maristela vive a benção de caminhar ao lado do marido, dos filhos e seus cônjuges. Como outras famílias que peregrinam unidas no grupo, os Bispo são uma inspiração.

