Laudirley Ferreira Dourado: “Essa crisezinha não me assusta”

Por Valdir Carleto

Laudirley Ferreira Dourado, conhecido como Didi, é diretor responsável da Fesma Indústria e Comércio de Ferramentas e da Fesma Tecnologia em Polímeros. Ele recebeu o título de “Industrial do Ano”, do Ciesp Guarulhos e tem uma história muito interessante, a começar pelo significado do nome da empresa: Fesma quer dizer “ferramentaria sem máquinas”. Leia e entenda por quê.

Como foi o início de sua carreira profissional?

Meus pais haviam se separado, tínhamos dificuldades. Comecei com 11 anos, engarrafando querosene; na época, não havia legislação que impedisse o trabalho com essa idade. Aos 14 anos, trabalhei em tecelagem. Aos 16, tive a grande oportunidade de entrar no Senai e fazer curso de ajustador-mecânico; depois, ferramenteiro e curso técnico de mecânica.

Foi a base para tornar-se um industrial?

Sem dúvida, mas a fase de Exército me propiciou aprendizado que valeu para toda minha vida. Nessa fase, fui servente de pedreiro, pintor, tirei barro. Tarefas simples, mas que me deram embasamento, pois aprendi a extrair coisas positivas de tudo na vida. Aprendi que tenho de me virar, de trabalhar, de acreditar na minha capacidade de realizar, em vez de ficar chorando pelos cantos. Essas dificuldades eu não lamento, mas agradeço pelo tanto que elas me fizeram crescer como ser humano.

E depois?

Após concluir o Senai, fui trabalhar como meio oficial de ajustador-mecânico, depois como oficial, depois como ferramenteiro. Aos 20 anos, eu me casei com minha prima legítima de primeiro grau, com o cuidado de fazer exames médicos que garantiram a compatibilidade do nosso sangue. Tivemos três filhos com curto espaço de tempo entre um e outro; aos 24 anos, eu já era pai de três.

Onde residia?

Morava nos fundos da casa de minha mãe, na vila Maria, em São Paulo. Crianças pequenas, no tempo em que se lavava fralda, não tinha como ela trabalhar. Tive de me virar. Trabalhava na Philco e fazia bicos para sobreviver. Chegou um momento em que eu não estava satisfeito com a situação de trabalho, virei ativista sindical, participei de greves e cheguei a parar a Philco. Foi pacífica, mas de qualquer forma negativa para a empresa. Muitos colegas foram demitidos e eu não. Tempos depois vim saber que não me mandaram embora por orientação do Doi-Codi (órgão da repressão militar), para poderem ficar de olho em mim, pois pensavam que, como eu havia conduzido a greve com inteligência, poderia ser alguém perigoso para o regime (risos).

E como se transformou em patrão?

Senti que eu precisava fazer algo mais, não podia ficar sob ordens, as pessoas me segurando. Tinha um monte de ideias na cabeça. Cheguei à conclusão de que o que sabia fazer bem era ferramenta. Já trabalhava com outro rapaz, fazendo bicos no Parque Novo Mundo, resolvemos abrir uma ferramentaria. Comprei duas furadeiras, sem motor e sem mandril, praticamente sucata; levei para o fundo do quintal em um comodozinho minúsculo. Enrolei uns motores velhos, que eram de bomba de poço, comprei mandris velhos na rua Piratininga, adaptei uma correia e pus a furadeira para funcionar. Na firma onde eu fazia bicos, passei a alugar as máquinas dele em vez de receber pelos serviços. Essa é a origem do nome da empresa: ferramentaria sem máquina – Fesma!! É um nome forte, que sempre me remete às minhas origens e acho isso ótimo. Por mais que eu possa crescer, valorizo aquele período.

Bela história! Conte mais.

Passados dois anos, consegui comprar uma plaininha, me juntei com outra pessoa que tinha um torninho. Juntos compramos uma coordenadorinha. A empresa mesmo surgiu na vila Endres, em Guarulhos, mas a fundação oficial se deu em 25 de novembro de 1986, na rua 12 de outubro. Fabricava ferramentas para produzir circuitos impressos, que era algo que poucos faziam. Fomos caminhando, conseguimos novos clientes, como empresas de eletrônica, fazíamos peças para os Master System, da Tec-Toy; estrelinhas da Mônica, produzimos às milhares… Compramos nosso primeiro galpão próprio, na rua Jati, em Cumbica, onde estamos até hoje. Chegamos a ter 60 funcionários, até que o Collor assumiu e tivemos a primeira grande crise, fomos definhando por uns sete anos, até ter uns três funcionários apenas. Tivemos o renascimento da empresa quando um amigo, Virgílio, uma daquelas pessoas que temos de considerar como um anjo, veio nos pedir para produzir uma esteira porta-cabos, para usar em plataformas de rebocar carros. Fui fazer a esteira para ajudá-lo. Por fim, eu é que fui ajudado, aquilo mudou completamente nossa vida. Ele nos indicou outros clientes, um indicou para outro.

O que é uma esteira porta-cabos?

É uma coisa que todo mundo usa e não percebe. Está presente nas portas dos elevadores, nos guinchos, nas máquinas de pescar bichinhos que tem nas padarias… Até que isso nos levou à automação bancária: nossas esteiras são vitais nos caixas eletrônicos que liberam notas de dinheiro. Nós somos hoje o único fabricante nacional desse equipamento. Nossos concorrentes são empresas alemãs. Boa parte da parte externa e interna dos caixas eletrônicos é fabricada pela Fesma. Fizemos no ano passado milhares de urnas eletrônicas e pretendemos produzir mais 150 mil em 2016.

Por que diz que Collor, sem querer, o ajudou?

Porque ele me fez crescer. Naquela época os televisores passaram a vir importados do Japão. Deixei de fabricar peças para televisão e comecei a fazer dissipadores, porque as TVs queimavam por não suportar o calor daqui. Para produzi-los, tive de usar a criatividade, montar ferramentas específicas. Aprendi tirar leite de pedra, pois ou fazia com uma máquina de CNC, que eu não tinha, ou fazia com molde, que era resultado da junção de dois ou mais moldes. Tive de me adaptar a uma situação diferente. Isso acabou resultando em fazer ferramentas de plástico, que para muitos é algo complicado, mas para nós não. Agora, por exemplo, o mercado está bom para nós. O dólar alto vai acabar promovendo o renascimento da indústria brasileira de máquinas, porque nossos preços passam a ser competitivos outra vez.

Quando bandidos destroem um caixa eletrônico isso o beneficia, então…

Não!!! Essa onde de destruição nos prejudicou muito, porque deveria haver caixas eletrônicos em todo lugar. Com as explosões, o comércio fica temeroso de instalá-los.

_DSC0172A crise atual não o assusta?

Essa crisezinha? Aprendi a me levantar a cada tombo, a ver as coisas sempre pelo lado positivo. É uma questão de neurolinguística: quanto mais você fala em crise, em situação ruim, mais as coisas ficam difíceis; quanto mais você acredita no seu potencial, na sua capacidade de reverter situações, mais a mente se abre para o novo, para criar, para ter mais método e disciplina, obter certificações ISO, transformar crise em oportunidade. Inegável que também tivemos de fazer ajustes, reduzir quadro, ter a empresa na mão, não gastar além do que pode.

Tem outra fábrica em Arujá?

Sim, uma unidade com 5 mil m2. Em Cumbica, entre a Jati e a Juazeiro, pouco mais de mil metros.

E sua atuação nas entidades empresariais?

Quem me trouxe para as entidades foi o advogado Antonio Roberto Marchiori. No Ciesp, fui acolhido pelo Daniele Pestelli. Fui conselheiro, depois diretor de expansão social, passei a representar o Ciesp em Arujá, conseguimos levar um Centro de Treinamento do Senai para Arujá, onde são formados mais de mil jovens por ano. Para mim, que tive o Senai como ponto de partida, é muito bom ver esses moços sendo beneficiados com os cursos, obtendo trabalhos dignos. Sou diretor do Dempi, que é o departamento da micro e pequena empresa da Fiesp. Sou um dos diretores da Asec e vice-presidente da Adrat – Agência de Desenvolvimento do Alto Tietê. Comecei a me envolver também com a ACM, pelas mãos do Aarão Ruben, que é um grande lutador pelas causas coletivas. Lá sou vice-presidente e neste ano presidente da campanha financeira. O Aarão preside a Agende, onde sou conselheiro. Ele está empenhado com o Parque Tecnológico, que será um divisor de águas para Guarulhos. O Daniele presidirá a Fundação que administrará o Parque e o prefeito Almeida tem dado todo apoio ao projeto. O governador Alckmin também. Todos temos de nos unir por essa conquista que, repito, marcará a história da cidade. E agora estou também participando no grupo Líderes de Guarulhos, apartidário, que busca levar os guarulhenses a se engajar em movimentos sociais.

Com tantos afazeres, sobra tempo para tocar a empresa?

Conto com meu irmão Laudimir, que é sócio e cuida da parte de ferramentaria. Mas eu trabalho bastante na empresa, em várias frentes.

Como se sente por ter recebido o título de Industrial do Ano?

Eu não esperava. Foi maravilhoso saber que tenho tantos amigos e um grande incentivo para levar adiante tantas tarefas. Estou profundamente agradecido e motivado. Seguindo em frente, que há sempre muito a realizar.

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