Por Jônatas Ferreira

“Entenda-me”, diriam os defensores do português tradicional, enquanto é bem provável que para os menos criteriosos em relação à gramática o título desta matéria passasse despercebido, mesmo estando incorreto o uso do pronome oblíquo átono no início da frase.

Português de brasileiro?

Uma coisa é certa: a língua é viva e, portanto, ela passa por constantes mudanças ao longo do tempo. Palavras novas surgem, outras caem no esquecimento, enquanto novos significados são somados aos anteriores. Há, ainda, os termos derivados de expressões estrangeiras, muito utilizados quando se fala das novas tecnologias. Por exemplo, “printar”, “escanear”, “lincar”.
Desde suas origens, o português no Brasil sofre diversas influencias de culturas e povos estrangeiros, diferente do que ocorre em Portugal, onde pouco mudou. Com isso, é normal que com o passar do tempo deixemos de lado muitas regras que nos aproximam do português de Portugal, adaptando-nos ao que os falantes do Brasil mais usam.

Fala versus Escrita

Quando se escreve, as palavras não têm alguns recursos essenciais para o entendimento, como: a fisionomia, os gestos ou a tonalidade da voz, por exemplo. Se não fossem as regras estabelecidas pela gramática, dificilmente conseguiríamos nos comunicar através da escrita. Logo, é necessário que se tenha disciplina em seu uso.
Por sua vez, a fala é espontânea. Fatores regionais, culturais e profissionais – as variantes línguisticas – muitas vezes definem as diferenças na hora da comunicação. “Escrever e falar, em qualquer idioma do planeta, é diferente. A fala pressupõe diálogo. É normal buscarmos a melhor forma de nos comunicar buscando palavras e expressões, para que o ouvinte consiga entender o que está sendo falado. Na escrita, não tem diálogo; seu entendimento é de acordo com o que você lê. Por isso, existem regras que padronizam a comunicação. Logo, você entende, de acordo com a pontuação e ortografia, o que a pessoa quis dizer”, explica o professor Rodrigo Maia, mestre e doutor em língua portuguesa pela PUC-SP.

Para deixar claro

O “português de brasileiro” é um registro idiomático de como se costuma falar no Brasil, mesmo sendo nossa língua a portuguesa.

“Qui bom qui a minha língua é u purtuguêis. Quem soubé falá sabi iscrevê”, brinca o humorista Jô Soares em comentário para a revista Veja sobre as diferenças da fala e da escrita da língua portuguesa.

Vós sois brasileiros?

Então provavelmente não falam assim.
Alguns detalhes potencializam a diferença do uso do registro português de Portugal da língua. O grande exemplo está na própria colocação pronominal. O que a gramática tradicional manda fazer a grande maioria não faz. Já ouviu alguém dizer: “Dar-te-ei um coração puro” ou “entrega-me” este objeto? Não. Na escrita, a regra manda que seja assim.
As mudanças não são feitas para que tudo fique mais fácil, como quem defende o famoso “jeitinho brasileiro” na linguagem. Vós falais ou escreveis desta forma? Não! ‘Te amo’ e você, todos usam, seja na fala, seja na escrita. A mudança ocorre com o uso efetivo da regra. “A alteração é feita com base no uso que cada falante faz. Por exemplo: ‘10 real’. Essa expressão não faz parte do registro idiomático e sim de uma variante, talvez, não escolarizada. Mas me empresta uma caneta, me dá um pano, são expressões que não fazem parte de uma variante não escolarizada, de região ou de sexo. Pelo contrário, todos usam assim”, explica o professor Maia.

O português é o quarto idioma mais falado do mundo e isso se deve por 204 milhões dos seus 290 milhões de usuários estarem no Brasil. Podemos ter mais autonomia, ou não?

Erro comum

Ninguém fala: “a” carro ou “o” casa. Porque são os artigos que definem o gênero do substantivo. Mas há quem diga “foi vocês”, que claramente se constitui um erro, porque o verbo deve seguir o pronome em número.

E a Educação?

Já pensou se os alunos do ensino fundamental ou médio aprendessem: eu, você e ele? Como seria muito mais fácil a compreensão e consequentemente o uso correto no dia a dia. Afinal, essa forma faz parte do ‘normal’ deles. “É normal dizer: “Vós fostes ao mercado?” ou “Vocês foram ao mercado?”, exemplifica Maia.
Isso não é anarquismo linguístico, tampouco exclusão total da gramática. Pelo contrário, é a gramática que embasa qualquer língua e sem ela, não existiria a língua portuguesa no Brasil. Precisamos apenas entender que as regras devem ser ensinadas. Mas, antes de tudo, compreendidas e mais ainda: vividas. Afinal, a língua está em constante movimento!

Prof. Dr. Rodrigo Maia
Graduado em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo e Radialismo e Mestre e Doutor em Língua Portuguesa pela PUC-SP. Atua na área de jornalismo, em emissoras de televisão, como TV Record e TV Bandeirantes, há 16 anos. É colunista do Portal R7, com o blog “Português de Brasileiro”.

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