InícioCANAISCOMPORTAMENTOA patrulha da beleza

A patrulha da beleza

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Por Val Oliveira
Fotos: banco de imagens e arquivo pessoal

As pessoas perguntam se você se formou, casou, viajou ou teve filhos, como se a vida fosse uma imensa lista de supermercado, na qual os itens de primeira necessidade são os valores, comportamentos ou aspirações que, muitas vezes, são os seus sonhos ou ideais. Quando o assunto é moda e beleza, os patrulheiros sociais questionam o cabelo curto ou longo, claro ou escuro, roupa justa ou folgada, corpo cheinho, sarado ou esquelético, como se a direção da sua vida fosse guiada pelas curvas de seu corpo. Talvez a inquirição aconteça despretensiosamente, mas o fato é que cobrança demais cansa.

1617460-jennifer-aniston-fez-um-desabafo-onde-n-950x0-2Um bom exemplo disso foi a atriz norte-americana Jennifer Aniston que, irritada, resolveu “dar um basta” nos boatos de que estaria grávida, simplesmente por aparecer em uma foto de biquíni com uma barriguinha saliente. “Eu não estou grávida. O que estou é farta do escrutínio feito quase por esporte e dessa exigência com o corpo dos outros. […] A forma como sou retratada pela mídia é simplesmente um reflexo de como nós vemos e retratamos as mulheres em geral, todas medidas por um padrão de beleza torto. […] Somos nós quem tem que decidir, por nós mesmas, o que é bonito quando o assunto é nosso corpo. […] Fico chateada por quererem fazer eu me sentir ‘menor’ porque meu corpo está mudando ou porque comi um hambúrguer no almoço e fui fotografada por um ângulo estranho, e por isso ser considerada ou ‘grávida’ ou ‘gorda’”, desabafou a artista.

Em outro exemplo, também incomodada com a “ditadura da beleza”, a cantora americana Alicia Keys resolveu abandonar o hábito de usar maquiagem e de sair de casa sempre superproduzida, seja qual for a ocasião.

“Antes de eu começar o meu novo álbum, escrevi uma lista de coisas de que eu estava cansada. E uma delas foi o quanto as mulheres sofrem lavagem cerebral para que sejam magras, sensuais, desejáveis, ou perfeitas. Do constante estereótipo que nos faz sentir que o tamanho normal não é normal, e Deus nos livre se você for plus size. Toda vez que saía de casa, ficava preocupada se eu não tinha me maquiado. ‘E se alguém quiser uma foto? E se postassem essa foto? E isso tudo, de um jeito ou de outro, era baseado em muito do que as outras pessoas pensavam de mim. Não quero me cobrir mais. Nem meu rosto, minha mente, minha alma, nem meus pensamentos, sonhos, esforços, nem meu crescimento emocional. Nada”, disse.

E após posar para a capa de seu novo álbum, sem maquiagem, declarou: “Eu juro que foi o mais forte, empoderada, livre e honestamente bonita que já me senti.”

Os comentários e cobranças sobre a aparência física geralmente não observam a máxima de que “corpo bonito é aquele que tem uma pessoa feliz dentro dele.” O culto ao corpo e a supervalorização da estética tornou-se prática comum e atinge todas as faixas etárias, sexos e classes sociais. Engana-se quem pensa que os homens também não sofrem com esse tipo de cobrança.  No livro “A ditadura da beleza e a revolução das mulheres”, o escritor Augusto Cury trata desse assunto e afirma que a busca por um padrão de beleza difundido pela mídia, que na maioria das vezes é inatingível, pode levar à frustração. A autoestima e o corpo mutilados por tantas tentativas de mudanças têm como objetivo a aceitação e ascensão social, que nem sempre acontece e é o que a maioria das pessoas busca. O resultado desse “fracasso” é uma pessoa mentalmente desestabilizada.

De acordo com a psicóloga e psicopedagoga Mônica de Farias Martins, a vaidade exagerada pode levar a prejuízos psicológicos desencadeadores de doenças como a bulimia, anorexia, ortorexia, obesidade e vigorexia. Todas essas doenças atuam destruindo a autoestima. “Quando a autoestima está baixa, não nos valorizamos, não acreditamos mais em nós mesmos e automaticamente nos tornamos mais inseguros, desconfiados, medrosos, facilmente manipulados pelos outros e, certamente, infelizes e sem forças para mudar essa situação”, explica.
Para a profissional, é importante saber que a forma como nos vestimos e nos apresentamos aos outros faz com que percamos oportunidades valiosas. Porém, a preocupação com a aparência física não pode trazer desconforto e que devemos trabalhar o psicológico, a fim de nos sentirmos bem conosco. No fim das contas, o que importa é como você se sente em relação a si próprio e ao seu corpo.
Mônica diz que para lidar saudavelmente com as cobranças sociais é preciso trabalhar e aumentar a autoestima, descobrir seus valores e capacidades, enfrentar seus medos, preconceitos, buscar autoconhecimento e, dessa forma, “dar uma banana” para as convenções sociais que fortalecem a ditadura da beleza. “É o correto, mas nem sempre é tão simples. Todos querem ser aceitos e amados, e para muitos é bem difícil se livrar das cobranças, não só externas, mas principalmente das internas, daquelas que nós mesmos nos fazemos. É preciso ter coragem para olhar para si próprio e aprender a se amar a cada dia”, pondera.

Narciso-(1594-1596),-por-Caravaggio.Dicas para ajudar a lidar com as cobranças sociais

  • Trabalhe sua autoestima e aprenda a lidar com elogios. Não há problema algum em aceitá-los.
  • Priorize a saúde. Não adianta fazer tudo pela aparência, se a saúde está em risco.
  • Você é única e ninguém é perfeito.
  • Lembre-se, você não é obrigada a nada.

Cuidado!

O conceito de belo tem muitas variantes. Não condicione sua felicidade ou dê importância em demasia ao que os outros dizem ser bonito. A mitologia conta a história de Narciso, um jovem que se deparou com a própria imagem refletida no espelho da água de um lago e por ela se apaixonou. Fascinado por si mesmo, todos os dias ia à lagoa contemplar sua beleza. Certo dia, de tão embasbacado, escorregou, caiu no lago e morreu.

Psicóloga Mônica F Martins“Quando se percebe que por mais que já tenha alcançado o objetivo inicial e para a pessoa ainda é pouco e ela busca sempre mais, quando a ansiedade toma conta e o pensamento torna-se fixo no assunto beleza física, o emocional certamente já está sendo atingido. Muitas vezes, não conseguimos nos livrar disso sozinhos. Então, faz-se necessária a ajuda de um profissional, um psicólogo, para que ele nos acolha, nos encoraje e acompanhe na trajetória de descobertas para buscar a felicidade interior”, observa Mônica.

Mônica de Farias Martins
Psicóloga e psicopedagoga
3436-7061 / 99377-6851

Leia mais sobre a reportagem especial da Revista Guarulhos – 114 (Não é da sua conta)

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