Por Tamiris Monteiro
Os tempos mudaram e as relações também. Ao contrário de antigamente, hoje já não é mais tão comum ver casais subirem ao altar com menos de 25 anos e nem casamentos durarem “até que a morte os separe”. Talvez, o mais paradoxal nisso tudo é que mesmo com tantas transformações, as cobranças relacionadas à formação familiar se mantêm. Afinal, que atire a primeira pedra quem durante um namoro duradouro nunca ouviu a famosa pergunta: “Mas e aí, quando sai o casamento?”. Ou então, depois do casamento, “Quando vem o bebê?”.
Ainda que a construção da família seja um processo natural dentro da sociedade, existem muitos aspectos que se alteraram dentro desse sistema e, segundo a psicóloga Cinthia Karolis, existe um conjunto de fatores que explicam essas mudanças comportamentais. As transformações econômicas, por exemplo, tiveram importante impacto na dinâmica familiar e dessa forma as prioridades mudaram, principalmente em relação ao papel das mulheres. “Alguns casais buscam inicialmente galgar outras conquistas: uma boa posição no mercado de trabalho, a casa própria, um carro do ano, conhecer o mundo; deixando assim o casamento em segundo plano”, elucida a psicóloga.
Por outro lado, embora boa parte da sociedade moderna já tenha entendido que os tempos mudaram, o que faz as cobranças permanecerem vivas é um conjunto de normas, direitos e deveres que condicionam o comportamento humano em determinados grupos. “Talvez, no caso da constituição familiar, exista uma investigação ainda maior quanto às expectativas, influências e percepções dos jovens, uma vez que a definição de família vem passando por diversas transições. A sociedade ainda aprecia o modelo da família tradicional. Mas essas cobranças (internas e externas) surgem bem antes do que imaginamos. Já nascemos muitas vezes com expectativas criadas: religião, time de futebol, às vezes, até profissão. Somos cobrados a manter um padrão de beleza, seguir a moda, estudar, passar no vestibular, escolher uma profissão, adquirir um carro ou imóvel, até chegar à constituição de um núcleo familiar, como namorar, casar e ter filhos”, explica Cinthia.
Um grande problema que pode ser desencadeado pelas cobranças é a tomada de decisões por impulso, principalmente, quando o assunto é relacionamento amoroso. “A interferência dessas cobranças e a falta de autoconhecimento prejudicam o amadurecimento psíquico, gerando conflitos, sofrimentos e consequências negativas, como, por exemplo, os casos de jovens que desistem de concluir a faculdade ou casais que se divorciam. A pressão social quando internalizada, acaba escravizando a pessoa em atender expectativas que, muitas vezes, não correspondem a seus desejos, gerando frustrações”, aponta a profissional.
Podia ser pior
No Brasil, a cobrança social para se constituir uma família existe e incomoda muito gente, mas por aqui ainda temos a liberdade de escolha; porém, existem culturas diferentes que não priorizam o amor, somente a união. Por isso ainda é comum ouvirmos falar de casamentos arranjados em que a iniciativa de selar o matrimônio não parte dos noivos, mas, sim, de seus familiares.
Relações moderninhas
Com as mudanças comportamentais de homens e mulheres, também surgiram novos moldes de relação. Na tentativa de construir vínculos mais duradouros e com menos exigências, as pessoas começaram a optar por relacionamentos abertos. “Vem aumentando o número de relacionamentos abertos; porém, muitos acontecem escondidos do grupo de amigos ou familiares, justamente para evitar as tais cobranças. Mas é importante mencionar que, embora seja algo novo, as relações abertas também contam com regras. Novos padrões serão criados e sempre haverá expectativas sobre o aspecto comportamental”, analisa Cinthia.
Diga-me com quem tu andas, que te direi quem tu és
Nem só de cobranças vive uma sociedade. Julgar também faz parte do processo e aí a coisa vai além da constituição familiar. Desde muito cedo, as crianças enfrentam a preocupação dos pais com relação aos amigos. Tanto que é comum escutar de um pai ou de uma mãe que fulano não é boa companhia para o filho. Mas, afinal, será que existem mesmo boas e más companhias? E será que somos realmente influenciáveis?
De acordo com a psicóloga, a resposta para essas perguntas é sim. Por isso, vale a pena que os pais fiquem alertas, mas tentem evitar os pré-julgamentos. “Nem sempre se conhece as pessoas pela aparência, mas pelos seus atos. Por isso, saber ouvir os filhos é fundamental. E é importante explicar para os filhos quais são suas preocupações e buscar conhecer melhor suas amizades. Somos influenciáveis durante toda a vida, mas principalmente antes de atingirmos a fase adulta. O adolescente, por exemplo, está sujeito às influências familiares, dos amigos e da mídia, e tende a imitar comportamentos que certamente impactarão no desenvolvimento da personalidade”, diz.

