Por Cris Marques
Fotos: Marcelo Santos

Mulher, cantora, atriz e empoderada, Céllia Nascimento, 50, já fez muito na vida:
foi modelo, secretária, operária, taxista e até office girl, já teve um salão de cabeleireiro e uma loja de maquiagem, vendeu lanche, churrasquinho, lingerie e até produtos trazidos do Paraguai. Assumidamente artista há pelo menos 20 anos, ela divide seu tempo nos palcos com a presidência da Associação Desportiva e Cultural de Capoeira Rosa Baiana, dando, assim, continuidade ao trabalho do pai, o Mestre Mirão.

Filha dos baianos dona Benedita e Emílio da Conceição Nascimento – Mestre Mirão (em memória), precursor da capoeira em Guarulhos e fundador da associação –, e a cantora, compositora e atriz nasceu e cresceu na cidade, em um uma casa no Jardim Paraventi. “Foi uma infância bastante humilde, porém muito bem aproveitada. Meu pai levava a gente nos melhores lugares que ele tinha condições de levar. Não época, o point era o Bosque Maia, as pessoas iam pra lá fazer piquenique. Também tinha um parquinho na região do Cabuçu, que nem existe mais”. Céllia conta que desde muito nova, já tinha a cultura nas veias. “Ambas as famílias vêm com uma vertente cultural bem grande. Minha avó paterna sempre cantou muito. Já meus tios maternos fazem repente”.

Com 14 anos, ela já trabalhava em uma das academias do Mestre Mirão e sempre participava das apresentações e exibições que eles faziam. “Na época, teve um concurso entre cidades, promovido pelo Silvio Santos, e cada lugar tinha que representar alguns tópicos, como beleza, esporte e educação. A Rosa Baiana já era referência e foi chamada para se apresentar. Fui, de uniforme, representando a associação. Nesse dia, também tinha uma exposição no Tatuapé e meu pai estava lá. Aqui, ficamos eu e um mestre formado por ele, o Luciano. Depois da apresentação, ia ter um concurso de misses com as candidatas de Guarulhos disputando contras as de São Bernardo, mas faltava a representante afro e eu era a única negra por lá. Assim que uma das organizadoras do desfile me viu, veio correndo me chamar para participar. Respondi que não podia, que meus tutores nem estavam lá, mas o Luciano me incentivou e disse que conversaria com meus pais depois. Fui para a casa dela e ela me emperiquitou toda e me emprestou uma roupa. Quando voltei, todos ficaram encantados. E não é que eu gostei daquilo? Dois anos depois, foi lançado o primeiro concurso de Rainha Negra do município; no primeiro ano, peguei a segunda colocação; no segundo, a terceira. Fui Miss Simpatia por uns 5 anos seguidos. Então, decidi fazer um curso de manequim e modelo”, pontua.

rosa-baiana-ms-6De modelo a atriz e cantora

Depois do curso, Céllia Nascimento conheceu pessoas da equipe do cantor Sérgio Reis, que, na época, tinha uma grife country. “Marcos Felipe, hoje um grande amigo, era produtor dele e me convidou para fazer um teste. Quando cheguei, a sócia da marca me olhou e disse que não imaginava uma negra vestindo country. Uma coisa bem preconceituosa mesmo. Fiz o teste e caí nas graças do Sérgio, da esposa e até dela. […] Entrei de cabeça nesse mundo de modelo até uns 20 anos, fazia foto, desfilava e viajava”.

Depois, trabalhou em diversas áreas, mas sempre com algo em comum: a cantoria durante a rotina diária. “Chegou uma época em que fiquei meio perdida, o que faria agora? Expus minha situação para esse meu amigo e ele disse que eu era uma artista. Olhando uma revista, achei um curso baratinho de teatro e me inscrevi”.

Em 2000, surgiu o primeiro concurso de música do Programa do Faustão, na rede Globo, e ela se inscreveu. Com mais de oito mil inscritos, ela chegou aos 20 melhores de São Paulo. “Justamente na semana do novo teste, por causa de um imprevisto, tive que fazer jornada dupla no trabalho, dormindo muito pouco. No dia, estava com tanto sono, que tomei uma água para despertar. Ela estava gelada e engasguei, de perder o fôlego. Entrei sem voz no palco e até tentei cantar, mas não consegui. Voltei para casa aos prantos”.

Depois do imprevisto, Céllia percebeu que era esse o caminho que queria seguir e acabou se juntando a algumas companhias. “Nessa caminhada, música e arte se encontraram e fui chamada para fazer um teste no Teatro Oficina, que precisava de uma atriz e cantora negra. Fiz minha apresentação e, quando terminei, Zé Celso [uma das figuras mais importantes do teatro brasileiro] parou tudo, agradeceu às outras pessoas e me ofereceu o papel. Fiz ‘Terra Libertas’ e viajei o Brasil com a peça”. Como atriz, ainda atuou em outras produções, entre elas “Os Bandidos”, “O Banquete” e “Bacantes”. Na música, com três trabalhos já lançados, “Caminhos”, “Momento Circular Acústico” e “Momento Circular ao Vivo”, a cantora de black music segue deixando sua marca. “Este mês ainda, entro em estúdio para gravar meu trabalho novo: o álbum ‘Que Nega Soul’, com produção de Wagner Fulco, composições próprias, parcerias e letras de outros artistas, como Chico César e Zeca Baleiro”.

rosa-baiana-ms-3Capoeira e cidadania

A Associação Desportiva e Cultural de Capoeira Rosa Baiana foi fundada em 1974 pelo Mestre Mirão, como uma representação da arte cultural negra na cidade, propagando os ensinamentos do esporte e suas raízes, para jovens e crianças em situação de risco. E, desde pequena, Céllia sempre ajudou seu pai. “Em 2002, quando ele faleceu, senti no coração que tinha que tocar o trabalho. Minha irmã assumiu a presidência, ficando por dois mandatos, e inscrevi a Rosa Baiana nos editais do Ministério da Cultura, para ser reconhecida como Ponto de Cultura”. Com a aprovação, foi possível locar um espaço na região do

Paraventi/Jardim Pinhal e ampliar as atividades.

“Aqui a gente trabalha capoeira, dança afro, inclusão digital, cozinha experimental e educação para a terceira idade. Além disso, fazemos eventos, como nossa tradicional festa julina, temos um salão de cabeleireiro que, uma vez na semana, faz atividade voluntária; um brechó, que nos ajuda a manter as contas menores, e uma parceria com o Fundo Social. Quem chega até nós é cadastrado e vemos a melhor forma de auxiliar”, explica ela, que acaba de promover a segunda edição da Roda Viva de Capoeira, projeto aprovado pelo ProAC (Programa de Ação Cultural do governo do Estado de São Paulo) na modalidade ICMS, que permite a captação de patrocínio junto a empresas que podem ter esse valor descontado do imposto.

Conheça a Associação Desportiva e Cultural de Capoeira Rosa Baiana
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