Por Rodrigo Morais Leite [1]
Produzido pela Turma VII de teatro da Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos, In-cômodos é um espetáculo que transita pela seara do absurdo, polêmico conceito criado pelo teórico húngaro Martin Esslin (1918-2002) para designar certo sentimento sobre o homem e o mundo bem típico dos anos posteriores à segunda guerra mundial, expresso por dramaturgos como Samuel Beckett e Arthur Adamov. Caracterizado, entre outras coisas, pelo seu niilismo, fruto de uma descrença em relação a qualquer sistema de valores, fossem de ordem metafísica ou baseados no direito natural, tal sentimento, antes de ser estetizado em linguagem teatral, já adquirira contornos filosóficos, podendo ser encontrado na obra de autores franceses como Albert Camus e Jean-Paul Sartre, os chamados pensadores “existencialistas”.
Exprimindo a angústia própria de um homem imerso num universo sem transcendência, onde nenhuma ação parece fazer sentido, a noção de absurdidade tende, em termos formais, ao abandono dos pressupostos do drama tradicional em favor de um teatro que se poderia denominar de lírico ou poético. Com efeito, ao invés de contar uma história com começo, meio e fim, compondo uma narrativa, o “teatro do absurdo” procuraria transmitir com suas peças uma intuição íntima e pessoal das coisas, uma sensação individual e particular de um ser às voltas com as questões mais primordiais da existência. Questões que, por lidarem com a realidade última da condição humana, a consciência do nada como ponto de partida e de chegada, seriam uma tentativa de atingir a dimensão do inefável.
Embora In-cômodos, desde o nascedouro, apresentasse elementos que se inserem nessas proposições, no intuito de fazer com que a obra não se encaminhasse para o terreno da especulação metafísica, algo (supostamente) alienante, tomou-se como referência A Cantora Careca (1950), de Eugène Ionesco, aquele que seria, dentre os autores “do absurdo”, o de viés político mais acentuado. Conforme explica o próprio dramaturgo, citado por Esslin em seu hoje clássico estudo O Teatro do Absurdo (1961), a peça é um retrato tragicômico da vida numa época em que “não podemos mais deixar de indagar o que estamos fazendo nesta Terra e de que maneira, já que não temos nenhum sentido profundo de nosso destino, podemos suportar o peso esmagador do mundo material… Quando não houver mais estímulo para a maldade, e todos forem bons, o que faremos com nossa bondade, com nossa não-maldade, nossa não-avareza, nossa neutralidade última? As pessoas de A Cantora Careca não tem fome, nem desejos conscientes; estão mortalmente caceteadas”.
Não se trata, contudo, de pessoas quaisquer, o que deixaria a descoberto uma concepção deveras abstrata do ser humano. De modo algum. A Cantora Careca, novamente nas palavras de Ionesco, é um ataque “à pequena burguesia universal”. Da peça, os artistas-aprendizes da Escola Viva “pegaram”, além da figura da empregada (Mary), o casal burguês representado pelo Sr. e pela Sra. Martin, protagonistas da cena que serve como ponto de apoio ao espetáculo, na qual os cônjuges conversam como se não se conhecessem e, após uma série de deduções lógicas (e óbvias), se descobrem marido e mulher.
Estabelecida a referência que deveria nortear o processo criativo, as contribuições pessoais dos aprendizes foram, aos poucos, se agregando, com vistas a reforçar ou até mesmo ampliar a crítica contida na obra do dramaturgo romeno. Assim, outros temas, que extrapolam o âmbito das classes sociais, como a incomunicabilidade, a marionetização do ser humano e o racismo ganharam corpo, em cenas concebidas para acontecerem cada uma num cômodo do Casarão da Rua Sete de Setembro, donde se compreende o trocadilho contido no título.
Espetáculo criado coletivamente dentro de uma proposta poética, não se percebe nele a manifestação de um eu-lírico, ou seja, a expressão de um estado emocional único e coerente se elevando, mas de vários, de modo a compor uma verdadeira polifonia de vozes, cujo trabalho de harmonização deveu-se aos mestres responsáveis pela direção cênica. Nesse sentido, mais correto seria, fazendo uso de um neologismo, falar de um “nós-lírico”.
A respeito da transposição de In-cômodos do Casarão para o Teatro Padre Bento, não se pode dizer que ela não tenha trazido problemas, o principal deles relacionado à ambientação da obra, que se coaduna muito mais à decadência na qual se encontra o primeiro do que à suntuosidade do segundo. E, mesmo assim, apesar desse e de outros contratempos, como um roubo que desfalcou o equipamento do grupo pouco antes da estreia e a saída, mais recente, de alguns aprendizes do elenco, o espetáculo se mantém muito dignamente de pé, readaptado às dependências do antigo sanatório. Prova de que, além do talento, uma das marcas dessa turma de formandos da Escola Viva é sua incrível resiliência, fazendo de In-cômodos, mais do que um trabalho artístico, um ato de resistência.
[1] Crítico e pesquisador teatral.

