Era um dia qualquer de 1941 para as pessoas consideradas comuns. Entretanto, para Roberto da Silva (nome fictício) não. Ele era mais um dos segregados submetidos à política de profilaxia da “lepra”, implementada a partir do Decreto nº 16.300, de 31 de dezembro de 1923 e que ganhou grande força no ano de 1941, sob o governo de Getúlio Vargas.
Quando chegou à porta do Asilo Colônia dos Cocais, em Casa Branca, região de Campinas, aos 13 anos, Silva pensava que o lugar poderia ser a esperança para as marcas que trazia no corpo. A criança não entendia as manchas que se formavam em sua pele e a dormência que começou a sentir ainda com sete e oito anos. As respostas vieram pouco tempo depois da internação – era a hanseníase em seu estágio inicial. “A gente sabia que eram momentos que jamais iriam sair da nossa mente”, relata Silva com tristeza à Reportagem, enquanto traz à memória, aos 89 anos, o tempo de reclusão nas colônias para hansenianos.
Roberto foi levado para a colônia pelas mãos da tia, que tinha ouvido falar sobre o problema e queria que o sobrinho recebesse a cura, que ainda não existia. Felizmente, a criança não precisou passar pela violência animalesca à qual muitos enfermos foram submetidos nos tempos de segregação. “Os internos recebiam um remédio paliativo. Uma forma do governo dizer que dava algo para a gente. Era uma agulha de cerca de 10 centímetros que aplicavam na nádega três vezes por semana, mas que não servia para nada”, conta.
As imagens que não saem de sua cabeça eram de pessoas em deterioração. Estágios mais avançados da hanseníase, que na época era conhecida como lepra. Roberto conta que em Cocais a separação era apenas a da sociedade. Nas colônias, todos viviam juntos. “Jamais uma criança poderia entrar em um local onde se viam coisas de outro mundo”.
A única grande alegria do menino interno era ir visitar a família, uma vez por ano, durante cinco dias, direito adquirido durante o tempo de internação em Cocais, onde permaneceu por nove anos, quando conseguiu ser curado. Depois de resolver vir a São Paulo, em busca de melhores condições de trabalho, foi acometido novamente da enfermidade. Foi então que, aos 27 anos, entrou para o sanatório Padre Bento, conhecido como a joia da coroa do Departamento de Profilaxia da Lepra, setor que cuidava da internação compulsória dos acometidos pela hanseníase.
O Padre Bento tem sua história iniciada em 1918, quando foi construído o primeiro prédio que veio a abrigar o Sanatório São Paulo, espaço de reclusão de pessoas com doenças mentais, na região do Gopoúva e Tranquilidade. Em 1931, o Governo do Estado adquiriu o prédio e inaugurou o sanatório Padre Bento para tratamento dos hansenianos. Por sua proximidade com a capital e estrutura, nele eram abrigadas pessoas com maior poder aquisitivo. O escritor Marcos Rey, por exemplo, foi um dos internos do complexo. “Existiam cinco sanatórios em todo o Estado. O Padre Bento era o modelo. A maioria dos internos não tinha aparência repulsiva; estavam no estágio inicial da doença”, explica o historiador guarulhense Ivan Canoletto, 31 anos, que fez sua dissertação de mestrado baseada no leprosário. “O Padre Bento era o único que tinha pavilhão de menores, que contava com escola regular e técnica, tendo todo o complexo aproximadamente 340 mil metros quadrados”.

Com escola, cinema, teatro, residências, campo de futebol em tamanho oficial e um cassino, o Padre Bento possuía uma estrutura preparada para receber os hansenianos e tratá-los com o máximo de conforto possível, a fim de tentar suprir a privação de sua liberdade; contudo, vale ressaltar que grande parte dessas dependências foram construídas pelos próprios internos, justamente por conta do medo do contato. Roberto conta que foi no sanatório de Guarulhos que aprendeu a profissão de marceneiro, a qual o sustentou por muito tempo depois de sair de lá, já com 33 anos.
Roberto exalta a ex-deputada Conceição da Costa Neves, que fundou a Associação Paulista de Assistência ao Doente da Lepra, e, com grande luta, conseguiu a pensão para aqueles que tiveram suas vidas encarceradas nos sanatórios, uma das maiores conquistas dos hansenianos. Foi, inclusive, sob a batuta da parlamentar, considerada “mãe dos leprosos”, que tiveram início muitos focos de rebeliões, embora não efetivadas.
A reportagem questionou Silva sobre os momentos de estigma que sofreu. O mais marcante foi quando aos 15 anos observou o dono de um bar, próximo da estação de trem da Colônia de Cocais, jogar no cesto de palha que usava como lixo o copo no qual Roberto havia tomado um ‘pingado’. “Era o mesmo que dizer: da próxima vez que sair de licença, não volte aqui”, lamenta. A ocasião tinha sido a primeira vez que Silva saiu da colônia.
Após deixar o Sanatório, já beneficiado pela sulfona, cura trazida dos Estados Unidos pelo médico Lauro de Souza Lima, diretor do sanatório Padre Bento, Silva “ajuntou suas trouxas” com uma enfermeira que ali trabalhava. Está com ela há mais de 50 anos.

Mesmo com tristeza ao fazer o relato, Silva conta que tudo pelo que passou serviu para ajudar outros hansenianos. Ao unir-se com alguns internos, contribuiu com a Associação Fraternal Doutor Lauro de Souza Lima, que, criada em 1970, visava reinserir na sociedade os pacientes que eram curados da hanseníase. Silva abriu um largo sorriso diante da Reportagem ao elencar alguns casos em que sua experiência beneficiou outros hansenianos, vítimas das sequelas e do preconceito.
Vale lembrar que os bairros Gopoúva e Tranquilidade tiveram um grande impulso de desenvolvimento dado pelos internos e que, por causa do estigma que tanto sofreram, deixaram de voltar para suas famílias, como é o caso de Silva. Beneficiados pela pensão do Estado, eles investiam em compra de terrenos, que segundo ele, eram terras que ninguém queria adquirir, devido à proximidade com o sanatório.
Vai muito além da história
A pedido da fonte, a Reportagem preservou seu nome. Silva ainda sofre do mesmo estigma que o excluiu aos 13 anos, fator que copiosamente citou durante a entrevista sob a frase: “curados, mas sequelados”, referindo-se às marcas fincadas, seja pela doença, seja pelo preconceito. Afinal, o “Padre Bento não foi fruto de uma política nacional, mas sim do chamado ‘modelo paulista’, que podia ser considerado uma exceção”, conforme relata Ivan Canoletto na sua dissertação de mestrado – que posteriormente tornou-se o livro “Chagas da Exclusão”.

A segregação dos hansenianos, que teve um princípio claro de higienização, não deve ter sua história negada. Os internos foram cerceados de sua liberdade sem ter cometido delitos. Nas páginas tristes dos sanatórios espalhados pelo Brasil, há ainda o fato dos casais hansenianos internados terem seus filhos levados para outras instituições.
“Eu conversei com um ex-funcionário do DPL dos anos 60, já no período de extinção da internação compulsória, que disse que no começo prendia a respiração quando entrava na sala e depois corria para poder respirar”, relata o historiador.
Apesar de tudo, o sanatório Padre Bento foi referência no tratamento da hanseníase. Não à toa, sua encantadora arquitetura art déco foi tombada como patrimônio histórico de Guarulhos.
Chagas da Exclusão
O livro Chagas da Exclusão nasceu a partir do TCC de Ivan Canoletto no sua graduação em história. Depois, veio a se tornar trabalho de dissertação de mestrado e, por fim, livro. Todo o trabalho durou cerca de dez anos para ser concluído. A escolha do tema deu-se por conta de Canoletto entender ser um erro historiadores não tratarem de sua região em suas pesquisas. “Falar de cidades já contadas no livro quase sempre não trará nenhum fato novo, apenas releituras. Os nossos munícipios têm muita história, que infelizmente mal são relatadas em sala de aula”, explica.
Canoletto revelou à Reportagem que prepara uma tese de doutorado defendendo o ensino da história local nas escolas.

O Teatro
Inaugurado em 1937 e feito pelas mãos dos internos, o Teatro Padre Bento completou neste mês de junho 80 anos. Um dos poucos patrimônios históricos de Guarulhos, passou por restauração em 2007, em comemoração aos 447 anos da cidade. A obra, orçada em R$ 3,1 milhões, só foi possível graças a uma parceria com a Petrobras. Um dos marcos mais importantes na trajetória cultural do teatro foi o retrato do padre Bento, cuja parte da vida foi dedicada à causa dos hansenianos, pincelado pela artista modernista Tarsila do Amaral, que teve um de seus familiares internado no sanatório.

