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Will Carbônica

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À frente da banda Carbônica e do Projeto Clam, Will comemora dez anos de feitos pela cultura independente da cidade

Will Carbônica da Silva talvez nem saiba muito sobre isso, mas seu nome carrega um pouco de tudo. No apelido, Will tem origem germânica (assim me disse uma rápida busca no Google). É derivado de Willahelm e significa desejo ou vontade. Já no nome do meio, sua pulsante paixão pelo rock’n’roll tem nome próprio, autoral e pra lá de inflamável: Carbônica. E no fim, apesar das referências estrangeiras, Silva é praticamente da terra onde canta o sabiá, embora o sobrenome tenha vindo de Portugal, exatamente de onde Gonçalves Dias escreveu o poema Canção do Exílio, com saudades do Brasil. O perfil de Will está descrito aí, na junção desses nomes que chama de seu e reflete um artista cheio de vontade e que tem a música como seu núcleo sob fortes raízes brasileiras.

Não poderia ser diferente. Filho de dona Cida, ex-empregada doméstica nascida em Guarulhos, mas criada em Minas Gerais, e de seu Dedé, ex-metalúrgico nascido em São Bento do Una (PE), o primeiro contato com a música veio de casa, ouvindo Alceu Valença, Raul Seixas, Roberto Carlos e Adoniran Barbosa com a família. “A coisa ficou séria quando um tio me levou a um show do Ira!, quando eu tinha 11 anos. Daí resolvi que iria aprender a tocar guitarra e não teve mais volta”, lembra o vocal e guitarrista da banda Carbônica, antes chamada de Núcleo Base, com Marcelo Gota na batera.

Em 2007, com a reformulação da banda, surge de fato a Carbônica, de rock puro e sem gelo que tem o caos da cidade como inspiração e DiMe (Diego Merlotti) assumindo as baquetas. No mesmo ano, nasce o Projeto Clam (Círculo Livre de Amigos Músicos), formado pelas bandas Carbônica, Sob Controle, Instinto Coletivo, Causation e HIV. “Sabíamos que para trabalhar música autoral na cidade de maneira profissional, precisaríamos de mais parceiros, e que também havia outras bandas no mesmo momento que nós, que poderiam se ajudar”, explica Will, que hoje conta com o carbônico Vini (baixista) para tocar o Clam. Pela movimentação cultural na cena de Guarulhos, o Clam faz lembrar o Lira Paulistana, que além de ter sido um teatro que foi berço de manifestações culturais, também foi um selo que lançou diversos discos da Vanguarda Paulista, como Beleléu, Leléu, Eu, de Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia. “É uma honra ser comparado ao Lira, que foi um marco importante na cena cultural de São Paulo e do Brasil. No início do Projeto Clam não havia essa pretensão. Na época, não sabíamos nem o que era um coletivo cultural. Com o passar dos anos, nos reconhecemos como coletivo, produtora e selo musical e, principalmente, temos nos reconhecido em trabalhos e ações de outros artistas da cidade. É gratificante ver o trabalho desses artistas e coletivos nascerem ou conseguirem chegar mais longe com o nosso apoio”, conta Will, orgulhoso. Mas as comemorações não param por aí. Entre os próximos planos, está o de lançar um site no segundo semestre. O objetivo é divulgar mais os artistas da cidade. “Sinto que falta um espaço para divulgar as ações culturais e queremos fazer isso com o site do Clam.

Acho que temos bastante potencial e material para sermos uma espécie de Catraca Livre de Guarulhos, lançando todos os eventos, além de um espaço para vender produtos dos artistas. Também sinto que falta um canal para que as pessoas possam escrever livremente, sem que haja um direcionamento baseado em amarras políticas, por exemplo. Um espaço livre! No site também poderemos seguir com o CLAMzine e a revista Clam”, adianta o entusiasta.

O Clam também pretende circular por várias regiões da cidade, levando música e apresentando artistas para o público nas praças de maneira gratuita. “Desde 2015 temos um projeto aprovado e liberado no Funcultura, mas a Secretaria de Cultura até hoje não pagou. A nova administração prometeu pagar em abril, mas até o momento nada”, afirma Will, que conhece de perto as dificuldades de contar com o apoio do poder público para fazer arte, o que de certo modo colaborou para a pulverização da arte independente. “Agora imagina toda essa produção com o financiamento da máquina, apoio do poder público. A potência da movimentação cultural da cidade seria ainda maior”.

O saldo de dez anos do Clam:

  • 7 edições do festival de música “Rock no Posto”;
  • 2 edições do festival multi-artístico “Tamojunto”;
  • Criação do fanzine chamado “CLAMzine” para divulgar ações do coletivo e artistas da cidade;
  • Lançamento da “Revista Clam”, que contou a história de artistas da cidade que fizeram rock dos anos 50 a 2010;
  • Selo musical “Clam Discos”, que até o momento lançou oito discos;
  • Intervenção cultural urbana “CLAMdestino”, na qual artistas se apropriam de espaços públicos, ocupando-os de maneira coletiva;
  • Organização de inúmeros shows apresentando novos artistas de Norte a Sul do país para o público da cidade, além, é claro, de divulgar os artistas locais. Com a festa “Noite Inflamável” já foram cerca de 60 shows e 10 exposições;
  • Administração do espaço cultural CasaClam, por cinco anos, até 2015, onde foi montado o estúdio Clam, além da realização de ações com muitos artistas da cidade, de diversas linguagens artísticas, como teatro, cinema, dança, performance, fotografia e artes plásticas. Hoje a Casa segue com programação tocada por Dani Souza e os Carbônicos têm realizado seus eventos no Deco Rock Bar.

Carbônica e outras produções

Recentemente, o grande parceiro dos inflamáveis, Leandro Sousa, que havia substituído o DiMe há alguns anos, foi morar em outra cidade, passando as baquetas para Alex Machado, que “trouxe swing aos grooves, além de uma bateria zeppeliana na hora do peso. Ele chegou com muita energia. É um cara com muita sensibilidade”, afirma Will, que segue compondo novas canções com o power trio, sob o dilema de lançar singles ou um álbum completo.

Mas tão diversificado quanto seu nome, o líder da Carbônica é também um alambicano, guitarrista na banda João Perreca e os Alambiques, de sonoridade brasileira contemporânea; é DJ nos Seletores Tropicais; contribui com a produtora Peixe Barrigudo; tem o trabalho de arte visual com o estúdio Mingau de Cachorro; e está produzindo o primeiro disco d´As Despejadas, além de ter produzido a arte do disco Tocando Amores, lançado recentemente pela banda Luneta Vinil, com distribuição pelo Selo Clam.

Como ele administra tudo isso? “Não sei, acho que o universo acaba conspirando para fazer as coisas acontecerem. Muitos convites vêm do reconhecimento do meu trabalho com a Carbônica ou com o Clam. Tenho muito prazer em poder trabalhar com projetos e artistas que admiro muito. Sempre coloco muita paixão nas coisas que faço. Como diria Lenine ‘Uma vida é pouco para tanto’”, finaliza.

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