A maconha faz mal. Muito mal

 

Por Sérgio Scatolin

Permito-me iniciar este artigo com uma transcrição do início do capítulo 5 (MACONHA FAZ MAL), do livro EDUCAÇÃO FAMILIAR – PRESENTE E FUTURO, do renomado psiquiatra Dr. Içami Tiba, falecido em 2015:

’Maconha não prejudica a saúde porque é natural!’. ‘Maconha faz menos mal que o cigarro!’. ‘Eu fumo, mas não bebo!’. ‘Eu fumo maconha porque é bom!’. Muitas pessoas fazem afirmações como essas, principalmente entre os jovens, para justificar o uso da substância. Mas nenhuma delas tem fundamentos científicos. E estes não se sustentam diante de uma reflexão mais equilibrada sobre o que podemos ou não consumir e que traga benefício para o nosso corpo, para o nosso bem-estar. (…) Diante do argumento de que para ser melhor que o pior basta ser ruim, só se pode discordar. Longe de ser sustentável, essa ideia é destrutiva, pois a referência de vida aqui é uma comparação com o “pior”, no sentido do pior modo de viver (…). Entretanto, geralmente a falta de conhecimento cientifico é tão grande que dá margem à divulgação de falsas verdades, argumentos tão insistentemente alardeados que acabam sendo tomados como verdadeiros e contribuindo para o consumo abusivo dessas substâncias. É necessário buscar no conhecimento científico informações que possam contribuir para esclarecer as falsas verdades com que sempre nos deparamos ao refletir sobre o assunto”.

É com este espírito e essa inteligência das afirmações do Dr. Tiba, respeitado médico, com formação científica sólida, forjada em anos de pesquisas, estudos e clínicas com adolescentes, jovens e adultos, que apresento este artigo para defender que a maconha, que é o THC (Tetrahidrocanabinol) fumado, não tem qualquer propriedade medicinal; muito ao contrário, pois apresenta somente malefícios (e muitos) à saúde física e mental de quem dela faz uso. Também procuro demonstrar que outra substância da mesma planta Cannabis Sativa, o Canabidiol, tem importantes e já comprovadas propriedades terapêuticas, mas isso não permite que se confunda. Muitos, inclusive parte da imprensa, têm propagado que “remédios à base de maconha” ou “as propriedades medicinais da maconha” foram aprovadas e liberadas pela Anvisa, quando na verdade o que começam a ser admitidos no Brasil, para importação ou comercialização, são medicamentos à base de Canabidiol, outra substância da mesma planta Cannabis Sativa, da qual também é extraído o THC para o fumo (a maconha), planta, aliás, que recentemente foi oficialmente catalogada pela agência reguladora para facilitar os registros de pesquisas e de remédios afins.

A este propósito, no dia 05/07 a TV Globo levou ao ar um episódio do programa “Profissão Repórter”, capitaneado pelo jornalista Caco Barcelos, sobre o tema. Nas chamadas para o programa alardeava o “uso medicinal do THC” e a legalização da maconha, dentre outros tópicos. Dois perigosos argumentos quando soltos ao vento sem aprofundamento das ideias que contêm, como tem sido comum em nosso noticiário e propagado na internet.

O que a ciência pesquisa e já se tem como comprovado para uso medicinal é o Canabidiol (CBD) e não o Tetrahidrocanabinol (THC). Embora tanto um quanto o outro sejam derivados da planta Cannabis Sativa, suas propriedades são diferentes: o THC (elemento ativo da maconha) é uma substância psicoativa, ou seja, uma substância química que age no sistema nervoso central, altera a função cerebral e temporariamente muda a percepção, o comportamento e a consciência de quem a consome. Por si só, não tem nada de “medicinal”. Então, é errado (ou deliberadamente mal intencionado) que se fale genericamente em “uso medicinal do THC” ou, pior, “remédio à base da maconha”.  O THC pode ser utilizado como auxiliar em alguns tratamentos médicos, mas apenas quando associado ao Canabidiol/CBD, como será descrito mais adiante. Mas, sempre com prescrição e sob controle dos médicos.

Para que não se tenha dúvida, é a mesma correlação entre Heroína e Ópio e a Morfina: todas substâncias derivadas da Papoula, uma bonita planta ornamental; porém, Heroína e Ópio são perigosíssimas substâncias psicoativas, tal e qual o THC/Maconha, enquanto a Morfina (como o Canabidiol) possui importantes aplicações médicas. Mesmo com uso medicinal aprovado, porém, a morfina não pode ser ministrada indiscriminadamente. “O único que tem ação medicinal é o Canabidiol, porque ele tem o efeito tranquilizante e não afeta diretamente as funções neuronais. O delta 9 THC acaba antecipando o início da esquizofrenia, uma doença grave em psiquiatria. Tudo isso já está rastreado cientificamente”, declarou o Dr. Itiro Shirakawa, da Associação Brasileira de Psiquiatria, naquele programa “Profissão Repórter”.

A planta Cannabis Sativa tem em sua estrutura celular cerca de 80 tipos de canabinóides, substâncias que têm finalidade de controle da atividade neuronal e imunológica no corpo humano. O corpo humano produz naturalmente seus canabinóides, na quantidade suficiente para o que nosso organismo necessita. Os canabinóides naturais e orgânicos são chamados de endocanabinóides, enquanto aqueles produzidos por plantas, como a Cannabis, são denominados fitocanabinóides.

Como a Cannabis é uma planta rica nesses fitocanabinóides, naturalmente interessa à ciência pesquisá-la com profundidade para compreender e definir todos seus possíveis usos medicinais, através de estudos controlados para atestar a eficácia do uso seguro das substâncias em tratamentos médicos, em formatos adequados e em doses seguras a cada caso, desde que previstos e controlados possíveis efeitos adversos.

As duas principais substâncias da Cannabis são o delta 9 Tetrahidrocanabinol (THC) e o Canabidiol (CBD). O THC é um forte alucinógeno, responsável pela maioria dos “baratos” do uso recreativo da droga que, uma vez inalado, age no cérebro mimetizando (imitando) de forma exacerbada os efeitos dos canabinóides naturais, produzidos pelo organismo humano. O CBD, no entanto, age mais como analgésico, anti-inflamatório ou anticonvulsivante.

O Canabidiol tem muitas propriedades benéficas e efeitos semelhantes aos de medicamentos controlados. Seus efeitos nocivos são poucos, o que abre uma gama enorme de possibilidades para seu uso medicinal. O CBD age na zona cerebral para atenuar atividades químicas e/ou elétricas excessivas do cérebro devido a patologias específicas. Dessa forma, é utilizado para combater dores, enjoos e náuseas causadas pelas quimioterapias em tratamento de cânceres; para aliviar dores em escleroses múltiplas; para reduzir convulsões em doenças como epilepsia, Síndrome de Rett ou CDKL5. Também é utilizado como auxiliar no tratamento de Parkinson, esquizofrenia, transtornos do sono, diabetes tipo 2 e até mesmo no tratamento de transtornos psíquicos, como fobia e crises de ansiedade ou mesmo dependências químicas.

Ao contrário do THC, o CBD não é uma substância psicotrópica e, portanto, não vicia, já que não altera a percepção, a consciência ou o comportamento de quem o consome. É importante registrar, no entanto, que o THC também tem potencial terapêutico em casos muito específicos, mas, quando utilizado medicinalmente, em geral é associado ao Canabidiol, que anula seus efeitos alucinógenos para que sejam aproveitadas suas propriedades químicas de efeitos terapêuticos seguros. Ao ser inalado, porém, como nos cigarros de maconha, haxixe e skunk/skank, o THC age diretamente no cérebro com potencial capacidade de alterar atividades cerebrais importantes, com sérios reflexos e consequências para o organismo em curto e em longo prazos.

A inalação do THC provoca uma intoxicação aguda, sua absorção pelos pulmões é rápida e, através da corrente sanguínea, ele chega ao cérebro em poucos minutos, provocando, inicialmente, euforia, sensação de prazer, diminuição da ansiedade e aumento da sociabilidade, que logo dão lugar ao relaxamento, com redução da noção de tempo e espaço. Em alguns indivíduos, porém, podem ocorrer efeitos contrários, como desprazer, ataques de pânico, sensação de tristeza, crises de ansiedade e isolamento social. Também fica reduzida a coordenação motora e são prejudicadas a memória recente e as funções cognitivas. Muitas vezes, durante a intoxicação, podem ocorrer delírios e alucinações, redução da atenção e da coordenação. O uso crônico de maconha também aumenta os riscos de desenvolvimento de doenças psiquiátricas como esquizofrenia e depressão.

Além disso, o consumo da maconha gera efeitos físicos como taquicardia, hipertensão (embora, ao contrário, em altas doses possa gerar hipotensão), aceleração da respiração, hiperemia conjuntival (vermelhidão dos olhos), secura bucal, letargia, aumento do apetite e redução dos reflexos. Podem ocorrer acidentes vasculares cerebrais (AVC) ou coronarianos (infarto, angina, arritmia, etc.), devido à grande liberação de adrenalina, ao aumento da frequência cardíaca e à vasodilatação, que aumentam o consumo de oxigênio pelo coração.

Os usuários muitas vezes inalam e retêm por algum tempo a fumaça da maconha, o que potencializa seus riscos, pois na maconha há 400% mais alcatrão e 50% mais substâncias cancerígenas do que nos cigarros de tabaco. Por inexistir filtro no cigarro de maconha, é bem maior a concentração de partículas irritativas nas vias aéreas e nos pulmões. Quem fuma além de dois cigarros diários de maconha pode ter problemas respiratórios similares aos fumantes convencionais (tosse, catarro e diminuição da capacidade para exercícios). O uso continuado e intenso de maconha traz grande risco de enfisema pulmonar e bronquite. Doentes de hepatite C usuários de maconha têm maior risco de desenvolvimento de cirrose e câncer de fígado.

Em longo prazo, a maconha pode afetar o sistema imunológico, reduzir a fertilidade e/ou a libido e até causar impotência, além de alterações do ciclo menstrual nas mulheres e intumescimento (crescimento) de mamas em homens, além de poder ocasionar sérios problemas para as gestantes e seus bebês, como má-formação fetal, abortos espontâneos ou problemas respiratórios ou cognitivos que se revelarão mais tarde no desenvolvimento das crianças.

Enfim, o que se precisa ressaltar é que todas as aplicações médicas do Canabidiol, mesmo quando eventualmente associado ao THC, seguem todos os protocolos científicos para pesquisa, estudo e aprovação de medicamentos, ao contrário dos argumentos de importantes setores da sociedade (muitos com interesses capitalistas e/ou fiscais, quando não também ideológicos) para pedir a legalização e a disseminação da maconha (o THC fumado) sem pesquisas científicas e sem dados médicos confiáveis, apesar dos inúmeros malefícios e perigos do THC já comprovados pela ciência.

Por isso, é importante esclarecer que, apesar de algumas substâncias da Cannabis, como o Canabidiol, apresentarem propriedades medicinais, o uso do THC puro e inalado, como na maconha, não serve para cura ou tratamento e não está isento de riscos e malefícios. É enganosa a falácia de que, por ser a Cannabis Sativa natural e ter várias substâncias aprovadas pela ciência para terapêuticas diversas, sua forma inalada, a maconha, seria mais inócua e não faria mal. Faz mal, sim! E muito!

REFERÊNCIAS:

BESSA, Dr. Marco Antônio; MAUER, Dr. Sivan. A MEDICINA E A LEGALIZAÇÃO DA MACONHA. Disponível em http://bit.ly/2uazKcZ.

LISAM-FMU. A MACONHA, O CÉREBRO E A PSICOSE. Disponível em http://bit.ly/2t0wWQu.

TIBA, Dr. Içami. MACONHA FAZ MAL. In Educação familiar : presente e futuro.  São Paulo: Integrare Editora, 2014. Cap. 5. p. 270-302.

VARELLA, Dr. Dráuzio. CANNABIS: ESPERANÇA CONTRA CONVULSÕES. Disponível em: http://bit.ly/2tASPnW.

SITE DOS PSICÓLOGOS (Portugal). FICHA DE CANABINÓIDES. Disponível em: http://bit.ly/2t1jKuo.

GONÇALVES, Drª Márcia. MACONHA: EFEITOS ORGÂNICOS E PSICOLÓGICOS. Disponível em: http://bit.ly/2t1khMY.

PROFISSÃO REPÓRTER. MACONHA. Rede Globo, TV Globo. 05/07/17. Disponível em: http://bit.ly/2t1n6O4.

CONVERSA COM BIAL. USO DE DROGAS PARA FINS MEDICINAIS. Rede Globo,. TV Globo. 30/05/17. Disponível em http://bit.ly/2u5B01y.

 

Sobre o autor:

Sérgio Scatolin é agente de pastoral na Pastoral da Sobriedade na Diocese de Guarulhos, com atuação na prevenção e recuperação de dependências e no apoio a dependentes e co-dependentes. Capacitado para prevenção e tratamento de dependências químicas nos cursos “Fé na Prevenção” (2014/2015) e o curso “Supera – Sistema para detecção do Uso abusivo e dependência de substâncias Psicoativas: Encaminhamento, intervenção breve, Reinserção social e Acompanhamento” (2017) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad). Atua também como Professor de ensino fundamental, médio e universitário.