InícioCLICK GUARULHOSAnalisando friamente a quente situação política de Guarulhos

Analisando friamente a quente situação política de Guarulhos

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Depois de décadas de convívio com políticos de todos os partidos e tendências, aprendi a não ter apego a nenhum deles, a desconfiar de todos e a avaliar a política sem paixões.

Assim, para inteirar-me da melhor forma possível dos acontecimentos políticos que agitaram nossa província-metrópole na noite de ontem, busquei na manhã desta sexta-feira estar presente à entrevista coletiva convocada pelo vice-prefeito Alexandre Zeitune (Rede), na Secretaria de Educação, Cultura, Esporte e Lazer e destaquei o jornalista Jônatas Ferreira para acompanhar a coletiva convocada pelo prefeito Guti (PSB) para o mesmo horário.

NA SECEL

Após falar com os servidores da Pasta da qual se despedia, Zeitune subiu ao quinto andar para atender os jornalistas de diversos veículos de comunicação.

Iniciou repetindo o que dissera aos colaboradores, atribuindo a interesses escusos sua queda do cargo. Citou o líder do governo na Câmara, Eduardo Carneiro, que o teria procurado para tratar da transferência de crianças especiais para uma escola municipal, teria concordado com a solução indicada, mas fora dali agira em sentido contrário.

Afirmou que o caixa de mais de R$ 140 milhões que conseguiu formar atiçou o apetite de grupos poderosos. Citou a redução no número de crianças em fila de espera para creches, disse que pendências que a Prefeitura tinha com professores será zerada no pagamento deste final de mês e, usando o termo “quadrilha que mantinha contratos milionários aqui”, mencionou especificamente que foi pressionado por “setores que querem saquear o dinheiro de nossas crianças”, sem, no entanto, identificar quais seriam essas pessoas. Conclamou a Imprensa a ficar alerta, pois crê que estaria montada uma estratégia para difamá-lo. Garantiu: “Não sou ladrão e não permitirei que ninguém queira me atribuir qualquer atitude ilícita, pois tenho lado e meu lado é o da verdade”.

Indaguei se ele entende que ao exonerá-lo Guti está dando guarida às quadrilhas cujos interesses Zeitune afirma ter contrariado, respondeu que não culpa Guti, mas que o prefeito se guia por fofocas e que espera que ainda se recupere. Acrescentou que sofreu ameaças e que ele e a esposa estão tendo de andar em carros blindados.

Concluiu dizendo que cobrará a cada momento a realização do plano de governo da coligação da qual fez parte e que resultou na vitória na eleição de 2016: “Aquele programa é do Guti, mas é também do Alexandre Zeitune e não descansarei enquanto não ver funcionando o que almejamos. Vou torcer muito para ver todos entregando políticas públicas, mas não só torcer: vou fiscalizar muito, cada parafuso desta e de outras secretarias”.

Informou, por fim, que como último ato, assinou ofícios ao Ministério Público Estadual e ao Federal, solicitando uma auditoria nas contas da Secretaria, porque quer que todas as contas sejam periciadas. Perguntei se com referência à sua gestão ou à anterior e ele respondeu que a ambas.

Ao final da coletiva, ele e outros membros da Rede retiraram-se rapidamente.

 

NO BOM CLIMA

Como a entrevista do prefeito atrasou, me foi possível chegar em tempo de participar quase integralmente do evento no salão de eventos do gabinete. Quando cheguei, notei que o vice-prefeito acabara de chegar e pedir a palavra. Guti não pôde esconder a surpresa com a presença do ex-secretário.

Guti pediu que Zeitune aguardasse as perguntas dos jornalistas, mas ele pediu para falar por apenas 3 minutos; manifestou-se, reafirmou seu apreço pessoal por Guti, mas repetiu parte do que havia dito na coletiva pouco antes concluída, embora com tom menos áspero. Deixou claro que fiscalizará o governo e cobrará o cumprimento do programa assumido pelos dois. Em seguida, retirou-se.

Ao responder às perguntas dos jornalistas, Guti buscou esclarecer que a exoneração de Zeitune se deu por razões político-partidárias e não por qualquer questão que envolvesse desvios ou outro problema no sentido de desonestidade ou mau uso do dinheiro público.

Embora não tenha admitido textualmente que sofreu pressão do vice-governador Márcio França, que é do seu partido, o PSB, e pretendente ao Palácio dos Bandeirantes, Guti admitiu que retirou Zeitune da Secel devido às aspirações da Rede de ter candidato próprio ao governo estadual.

Ao fazer a pergunta a que tive direito, eu quis saber o que Guti tinha a dizer sobre a acusação de Zeitune de que teria caído por pressão de quadrilhas que detinham contratos milionários que foram rompidos. Ele respondeu que apoiou a extinção de todos os contratos que Zeitune propôs e que apoiará o cancelamento de tantos quantos sejam necessários. Alegou que Zeitune fez apenas denúncias verbais quanto a supostas irregularidades e quanto ao termo quadrilha, garantiu que em seu governo isso não existe. Que talvez pudesse ser aplicada “a algumas gestões de alguns municípios e que se existir o mero resquício de alguma organização criminosa que se locuplete no poder público, a Controladoria irá atuar e, mais do que isso, o Ministério Público. Elogiou a atitude de Zeitune de requerer auditoria na Secel, “pois ele tem de se resguardar, porque ontem foi postada uma mentira nas redes sociais sobre a conduta e a honestidade dele. Falo como cidadão que nenhum homem, nenhum pai de família pode passar por isso. Se eu estivesse na pele dele faria o mesmo. Se houver alguma coisa, que os responsáveis sejam condenados”.

Quanto a cortar os cargos comissionados que a Rede detém no governo, Guti afirmou que não tomaria a iniciativa de exonerar mais ninguém. Foi informado de que, em Nota Oficial, a Rede afirmou que entregaria todos os cargos. Respondeu que discorda da decisão do partido e citou nominalmente o secretário de Gestão, Nilson Gonçalves, cujo cargo havia sido mantido. Em seu entendimento, não deveria haver rompimento entre os dois partidos.

 

MINHA ANÁLISE

Por mais razões que entenda ter para exonerar Zeitune da Secretaria, se essas razões, como Guti mesmo disse, nada têm a ver com conduta ética, mas sejam questões políticas, essa atitude foi a mais desastrosa que poderia tomar para sua gestão.

Os rumores de que os dois já não vinham se entendendo já davam margem a diatribes na oposição e a comentários jocosos nas redes sociais, as quais, se foram para Guti na campanha eleitoral, podem também ser danosas à sua imagem como administrador.

Com a decisão intempestiva de exonerar o vice-prefeito do cargo de secretário, Guti dá alguma razão aos que o acusam de ser imaturo e de agir como garoto mimado que não aceita ser contrariado.

Com exceção de Marina Silva, que tem expressão nacional para a Rede, o partido pouco representa no Estado de São Paulo. Dificilmente Zeitune deixaria a Secretaria para concorrer ao governo estadual, porque seriam mínimas suas chances e ele estaria abrindo mão de uma grande Secretaria, que poderia lhe dar maior projeção no futuro, sem nenhuma garantia de reconquistar a Pasta após a eleição.

Ao decidir pela exoneração de Zeitune, Guti deu-lhe a oportunidade de sair atirando, ainda que os discursos de hoje do vice sejam um gesto teatral. Agora, sim, é mais provável que o vice-prefeito seja candidato a governador, porque não precisa desincompatibilizar-se para tal; apenas não pode assumir a Prefeitura nos seis meses anteriores ao pleito.

Se até quinta-feira Alexandre Zeitune era mero figurante no quadro eleitoral do Estado, o rompimento cinematográfico que Guti lhe propiciou pode dar ao vice uma visibilidade que de outra forma não teria e, aí sim, passar a ter algum peso, se não como candidato a governador, cacifando-se para somar com outro partido como possível vice.

No próprio salão de eventos do Bom Clima, houve quem comentasse que hoje começou o fim do governo Guti, não que haja condições para impedir que conclua o mandato, mas por ter passado a impressão de que é um governo frágil, incapaz de superar a menor marola política.

Para não repetir o fracasso do governo Almeida, que era um maestro que regia uma orquestra desafinada e na qual cada um tocava sua própria melodia, Guti precisa aparar as arestas e dar coesão a sua gestão.

Afinal, passou da hora em que culpar os governos petistas servia de justificativa para poucos resultados apresentados pela nova administração.

Diferente da euforia dos primeiros dias, quando apenas os petistas e os partidários mais ferrenhos de Eli Corrêa Filho mostravam-se descontentes com o governo Guti, agora vê-se pela avalanche de críticas nas redes sociais que muitos que votaram nele já mostram inquietação com o andar da carruagem.

Zeitune diz que não fará oposição, que apenas exercerá fiscalização. Não se sabe quais ferramentas terá para cumprir essa promessa e com quais meios de comunicação poderá contar para bradar aos quatro cantos eventuais descobertas, considerando que o Bom Clima tem a caneta na mão. Porém, muitas vezes é pior ter do outro lado um ex-aliado do que um opositor de primeira hora. Até porque, se efetivamente rompidos, nada impede que Zeitune se aproxime de quem quer que seja para melhor destilar sua mágoa pela exoneração. Ele fica devendo nomes e, se não tiver provas concretas, pelo menos fortes evidências e indícios que deram margem às pesadas acusações que disparou.

O tempo dirá quem tem razão, se o dia 29 de setembro será o marco de que a gestão Guti começou para valer ou se ficará conhecido como o dia do tiro no pé.

 

Valdir Carleto

 

 

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