Por Karine Ferreira
Todos nós desenvolvemos gestos e comportamentos ao longo da vida. Seja o hábito de lavar as mãos constantemente, organizar roupas por cores, balançar a perna, manter objetos simetricamente arrumados etc.
Em algumas situações, certas manias podem até denunciar o que estamos sentindo, como por exemplo, uma pessoa que rói as unhas ou morde os lábios quando está nervosa. Entretanto, esses costumes também podem ser sinais de um tique nervoso ou de um Transtorno Obsessivo Compulsivo, como é o caso de alguém que acredita que precisa lavar a mão pelo menos 10 vezes para evitar a contaminação por alguma bactéria. Mas como podemos diferenciar um simples hábito de um distúrbio psicológico? Fernanda Queiroz, psicóloga, neuropsicóloga e cofundadora da Estar Saúde Mental, explica como podemos identificar um tique, um transtorno ou saber se é apenas um hábito.
“Hábito é um comportamento que se forma por meio de repetição e frequência, se tornando comum em nosso dia a dia. Um exemplo é sempre lavar as mãos antes de comer.
O hábito pode ser bom ou ruim, é controlável e passível de mudança. Já o tique nervoso é um movimento repetitivo de certos grupos musculares ou vocalizações, ambos involuntários. Em geral, é rápido e estereotipado, podendo ser complexo ou não. Quando manifestado, o tique oferece à pessoa uma sensação de alívio, no entanto, não é controlável. Ao contrário dos anteriores, o Transtorno Obsessivo Compulsivo é caracterizado por pensamentos intrusivos e obsessivos e/ou por comportamentos ou pensamentos compulsivos e recorrentes. Geralmente, esses pensamentos ou ações surgem para dar alívio às obsessões”, esclarece.
Segundo a psicóloga, o tique e o TOC possuem relação e aparecem juntos em 30% dos casos, mas, apesar disso, há diferenças significativas entre eles. A mais importante é a questão da voluntariedade, ou seja, os comportamentos do Transtorno Obsessivo Compulsivo são voluntários e a pessoa tem controle sobre o que está fazendo, ao contrário do tique nervoso.
“O tique é um padrão de comportamento no qual a pessoa não tem controle, já que são movimentos ou vocalizações involuntários. Os comportamentos do TOC são totalmente voluntários, embora disfuncionais. A pessoa que lava as mãos várias vezes por medo de contaminação entende o que está fazendo e o que pode fazer, por exemplo, baseado na crença que se não fizer seu “ritual”, pode ser infectada por alguma bactéria. Quando o comportamento se torna compulsivo, ela pode se ferir de tanto lavar as mãos”, afirma Fernanda.
Algumas pessoas tendem a confundir um hábito com um tique nervoso, ou até mesmo com o Transtorno Obsessivo Compulsivo. Por exemplo, uma pessoa que acha que é transtornada psicologicamente, apenas porque é obcecada por limpeza e porque gosta de tudo organizado, mesmo esses comportamentos não interferindo em sua vida funcional.
Fernanda explica que existem pessoas que costumam mexer muito nos cabelos, balançar demais as pernas, roer unhas, entre outros comportamentos muitas vezes ligados à ansiedade, e que essas ações podem ser confundidas com o tique, mas como são voluntários e a pessoa tem controle sobre eles, acabam se tornando um hábito.
A psicóloga também afirma que muitas pessoas usam o transtorno compulsivo de forma equivocada ou até empregam o TOC para nomear certos comportamentos que, na verdade, são hábitos. Há quem considera importante checar se trancou a porta, desligou o gás ou fechou a janela, mas se esse comportamento se repetir com certa frequência e se tornar disfuncional, interferindo no cotidiano e na vida da pessoa, é preciso investigar.
Quando procurar um especialista?
De acordo com a neuropsicóloga, devemos procurar ajuda sempre que um comportamento ou pensamento interferirem em nossa vida funcional e cotidiana, ou seja, nos afazeres domésticos: no trabalho, na escola ou universidade, nos momentos de lazer e diversão, nos relacionamentos interpessoais com família ou amigos etc.
“É importante entender que todos temos alguns rituais e pensamentos, mas isso não significa um diagnóstico. O que vai diferenciar os hábitos do TOC é a relevância desses pensamentos e comportamentos na vida pessoal e o quanto interferem no funcionamento do indivíduo”, esclarece.
Qual é o tratamento?
De acordo com Fernanda, muitas pessoas recorrem a tratamentos ou terapias com profissionais, como a Terapia Cognitivo Comportamental – uma forma de psicoterapia padrão para tratar diversos transtornos psiquiátricos.
“Hoje, os tratamentos são personalizados, já que cada pessoa precisa de um tipo diferente de abordagem. Há pacientes que irão precisar de medicação e terapia; outros apenas de terapia. O ideal é sempre ter um psiquiatra e um psicólogo atuando juntos”, afirma.
Para a psicóloga, nossa saúde mental é tão importante quanto nossa saúde física e todos nós, em algum momento da vida, precisamos dar mais atenção a ela. Por isso, a profissional também recomenda como tratamento estabelecer uma boa qualidade de vida e adotar hábitos bons e saudáveis, como por exemplo, praticar atividade física, dormir bem, se alimentar corretamente e ter uma vida social e profissional ativa.
Quer saber mais?
A Weekend separou sugestões de filmes relacionados ao Transtorno Obssessivo Compulsivo ou síndromes psicológicas, como a Síndrome de Tourette, que caracteriza uma série de múltiplos tiques motores e vocais.
- Melhor É Impossível (1998);
- Os Vigaristas (2003);
- Monk: Um Detetive Diferente (2002);
- Primeiro da Classe (2008);
- A Estrada Interior (2016).

