No feriado de 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, participei, com mais de 50 pessoas, de uma visita guiada ao trecho de Guarulhos conhecido como ciclo do ouro, no qual se insere também a lendária casa da Candinha, situada em uma fazenda onde teria havido mão de obra escrava.

A atividade foi promovida pela Subsecretaria da Igualdade Racial, que faz parte da Secretaria Municipal de Assuntos Difusos, comandada pelo vereador licenciado Lamé Smeili. Os participantes foram levados em dois ônibus.

O subsecretário Anderson da Silva Guimarães disse que há evidências de relação entre a mineração aurífera e a mão de obra escrava, mas enfatizou que os negros eram escravizados não pelo aspecto da força física, como é hábito lhes atribuir, mas pelas técnicas que dominavam para a extração mineral.

Na primeira parada, no bairro da Capelinha, proximidades da fábrica da Ambev (Skol), na região de Bonsucesso, os participantes conheceram o ribeirão das Lavras, às margens do qual era feito o garimpo de ouro pelo sistema de lavagem. Os professores Elton Soares de Oliveira e Daniel Carlos de Campos ensinaram que, em 1589, mais de cem anos antes de bandeirantes encontrarem ouro em Minas Gerais, o desbravador português Afonso Sardinha deu início ao ciclo do ouro em Guarulhos. Ele descobriu minas na Serra de Jaguamimbaba, atual serra do Itaberaba, que fica no território guarulhense.

Depois, já no início do século 17, foram encontradas outras minas, próximas ao principal rio de Guarulhos, o Baquirivu-Guaçu. A cidade teve pelo menos seis garimpos: bairro das Lavras, Catas Velhas, Campo dos Ouros, Bananal, Tanque Grande e Lavras Velhas do Geraldo – nome dado em referência ao bandeirante que o explorou.
Elton disse que a extração do ouro foi responsável pelo primeiro movimento de expansão urbana da cidade, mas que, no final do século 17, a atividade entrou em declínio por conta da descoberta de metais preciosos em Minas Gerais.

Foram mostradas estruturas remanescentes de antigos garimpos, como dutos de pedra para canalizar a água. O acesso para esses locais é difícil e algumas estruturas estão em áreas particulares. Os professores explicaram o processo para garimpar o ouro e como era aplicada a experiência dos indígenas para levar o valioso metal até o porto de Santos.

Casa da Candinha, patrimônio cultural e arquitetônico

Na sequência, todos foram para a fazenda Bananal, conhecer a casa da Candinha. Segundo a AAPAH (Associação de Apoio ao Patrimônio Artístico e Histórico), é um dos poucos remanescentes da arquitetura colonial na região metropolitana de São Paulo. Foi construída entre os anos de 1800 e 1850, com grossas paredes em taipa de pilão e taipa de mão. Cogita-se que ali tenham vivido escravos.

A casa está em ruínas. Tanto a estrutura quanto as guarnições de madeira estão infestadas por cupins. O oratório, que ocupa boa parte da parede de um dos cômodos está razoavelmente bem conservado.

Só não está ainda mais deteriorada porque há alguns anos se recorreu a um artifício que causou polêmica na época: para proteger a casa das intempéries, foi construído um teto sobre estrutura metálica, após a área ser desapropriada pela Prefeitura.
Elton e Daniel falaram separadamente a pequenos grupos, que puderam percorrer os ambientes internos da casa. Segundo eles, a cogitação mais viável é que os escravos que atendiam a família na moradia habitavam o porão, o qual também foi visitado. O escuro e úmido ambiente serve de morada a inúmeros morcegos.

A casa da Candinha ainda não está aberta a visitação. Aguarda-se a possibilidade de um projeto cultural enquadrado na Lei Rouanet para a obtenção de recursos que custeiem a recuperação do imóvel, mantendo suas características arquitetônicas.

Cidade pode ter um Geoparque

Está sendo estudada a criação do Geoparque Ciclo do Ouro no Município de Guarulhos. Um Geoparque é uma área reconhecida pela Unesco por ter patrimônios geológicos, arqueológicos, culturais, ambientais e históricos de grande relevância.

Com uma área total de 16.900 hectares, o projeto abrange integralmente os bairros do Cabuçu de Cima, Tanque Grande, Capelinha, Água Azul, Mato das Cobras e Morro Grande e, parcialmente, os bairros do Cabuçu, Invernada, Bananal, Fortaleza, São João, das Lavras, Bonsucesso e Sadokim.

O projeto já foi encaminhado para o Serviço Geológico Brasileiro que o incluiu na proposta brasileira, aguardando o envio à Unesco para ser analisado e oficializado como um Geoparque.

Apesar disso, o Geoparque Ciclo do Ouro já foi reconhecido por decreto municipal. “Isso significa que o poder executivo do município reconheceu a relevância do projeto, mas isso não resultou em verbas ou ações na área. Neste ano, vamos tentar fazer com que ele seja reconhecido na Câmara Municipal de Guarulhos e vire lei, o que significaria mais respaldo e credibilidade”, afirma Campos.