Quem emite uma opinião sobre assunto polêmico corre risco de contrariar muita gente. Por isso, procurei ouvir várias pessoas e analisar postagens e comentários de muitas outras, a respeito dos chamados “rolezinhos” que foram feitos nos Bosque Maia na terça-feira de Carnaval e no fim da tarde de sexta-feira. Mesmo assim, sei que muitos discordarão de mim. Faz parte!
Evidentemente, para as pessoas que estejam no local na hora em que aparece uma multidão de jovens, vindos de todos os lados ao mesmo tempo, a sensação inevitável é de medo. Afinal, fatalmente pensam: “O que eles querem? O que farão? Irão assaltar os frequentadores? Vai sair confusão? Acabarão machucando pessoas que nada têm a ver com os motivos dessa manifestação?”.
Vamos analisar, portanto as razões desse medo e tentar entender por que esses movimentos populares acontecem. No fim da reportagem, disponibilizo alguns vídeos publicados nas redes sociais.
Alguns até podem aproveitar-se da aglomeração para furtar algo, como costuma acontecer durante a passagem de blocos de Carnaval ou em qualquer outro evento onde haja muita gente. Porém, calcula-se que eram 4 mil jovens na terça-feira. Impossível cogitar que fossem 4 mil assaltantes.
Muitos assustam-se com as letras das músicas que os jovens cantavam, recheadas de palavrões. Choca, também, ver adolescentes, muitos menores de idade, consumindo bebidas alcoólicas e, segundo comentários, drogas ilícitas também, em plena área pública mais frequentada da cidade.
Com as redes sociais, fica relativamente fácil que grupos se organizem para se juntar em determinado local na hora combinada. Só faz sentido promover algo assim se for para causar repercussão. Daí, provavelmente, a escolha do Bosque Maia.
Não se teve notícia, entretanto, de que pessoas tenham sido furtadas ou agredidas pelos manifestantes. Então, o que pretendiam?
A julgar por boa parte dos comentários que li e das opiniões que ouvi, os jovens queriam simplesmente marcar presença, mostrar que existem e defender o direito de frequentar qualquer lugar. Individualmente, pode ser que muitos deles frequentem o Bosque. Todos juntos, no entanto, causam alvoroço, preocupação e até medo.
O caso é tão polêmico, que li opiniões conflitantes de dois rapazes do mesmo grupo político, um festejando o ocorrido; o outro, justificando o medo das famílias.
Os funks e raps que muitos jovens da atualidade apreciam e cantam são uma versão atualizada e mais apimentada do grito entalado na garganta dos moços dos anos 60. Talvez com um tom acima na agressividade, um jeito mais debochado e malcriado de destilar a ira contida. Mas, com o mesmo objetivo: chocar, causar impacto, chamar a atenção.
Lógico que condeno o uso de bebidas alcoólicas, em ambiente público, ainda mais por adolescentes. Mas é uma realidade dos dias atuais, inclusive nas camadas mais abastadas da sociedade. Mentira ou verdade?
Os manifestantes dos rolezinhos assustam por serem da periferia e se sentirem no direito de frequentar o Bosque Maia? Se alguém não sabe, há comunidades muito carentes, morando em áreas irregulares no Centro de Guarulhos e em lugares muito próximos.
Não defendo que saiam em bandos aterrorizando as pessoas. Mas se apenas estiverem cantando e gritando palavras de ordem, sem danificar nada, sem agredir ninguém, devem ter o direito de frequentar livremente qualquer espaço público.
A rigor, não haveria necessidade de repressão policial, a não ser que estejam impedindo a passagem de veículos, cometendo atos de vandalismo, depredando patrimônio público ou privado. Um internauta argumentou, por exemplo, que o termo confronto só deveria ser usado se dois lados estivessem se digladiando. Informe da Prefeitura afirma que os guardas foram recebidos com pedradas e latas ao tentar dispersar a multidão. Seria mesmo necessário dispersá-los?
Pergunto: quais atividades de lazer nossos governos oferecem aos jovens pobres deste país?
Alguém pode argumentar que jovens que ouvem música clássica não saem por aí em turma, não assustam as famílias frequentadoras de parques. Eu retruco: vivendo a vida que a imensa maioria do povo brasileiro vive, dá para esperar que apreciem música clássica?
Pode-se dizer que os jovens dos rolezinhos não têm educação, que suas famílias não lhes ensinaram boas maneiras. Indago: o que podemos exigir de famílias cujos pais e mães têm de trabalhar para dar o sustento aos filhos?
“Ah! Esses jovens têm vagas nas escolas públicas, mas não levam as aulas a sério. Enquanto alguns aproveitam, estudam, dedicam-se, outros cabulam, não prestam atenção às aulas, não fazem as atividades…”. Verdade! Porém, nossas escolas precisam reinventar-se para serem atrativas, pois o mundo mudou, as tecnologias estão ao alcance de praticamente todos, e a escola continua na mesma toada de décadas atrás. As facilidades do tráfico de drogas são um apelo para jovens que não vêm futuro em um mundo de contínua competição.
A disparidade de condições entre as classes sociais no Brasil é imensa. Qual jovem das comunidades carentes não deseja ter ou consumir os mesmos bens que os ricos e os da classe média alta têm e consomem? Nada justifica a escolha do crime ao invés da busca de melhores condições de vida através do estudo e do trabalho. Mas as condições em que a imensa maioria do povo vive explica os motivos.
Houve quem dissesse que os rolezinhos assustaram as elites que se acham donas do Bosque Maia. Exagero! O Bosque é frequentado por pessoas de todas as classes sociais, é um espaço democrático. Gente de todo tipo ficou assustada, pelo inusitado, pelo volume inesperado de jovens tomando conta de cada metro quadrado dali. Assusta mesmo, mas, analisando friamente, sem motivo justo.
Digo mais: fatos como esses devem servir de alerta, de ensinamento. Os governantes, os detentores do poder e a sociedade como um todo precisa tomar consciência de que, da mesma forma que juntaram 4 mil, podem juntar 40 mil, 400 mil… Quem poderá contê-los?
Governantes precisam zelar pelo dinheiro público, centavo por centavo. Aplicá-lo em benefício da maioria do povo, dos que nada têm. Promover esporte, lazer, cultura. Detentores do poder, sejam ou não políticos, devem usá-lo sabendo que são representantes do povo e é a ele que devem servir, ao invés de atribuir-se cada vez mais vantagens e regalias que o povo, que os sustenta, não tem. A sociedade deve organizar-se para entender o que é preciso fazer para reduzir as desigualdades sociais, promover trabalho voluntário em organizações sociais, que a aproxime dos que vivem marginalizados, procurar entender o que pensam, com o que sonham.
Utopia? Pode ser. Mas uma nação digna pressupõe oportunidades para todos. E não é isso que temos visto. Não me refiro a programas assistencialistas que mais subjugam as pessoas do que as promovem. Meu desejo é de que possamos viver em um Brasil justo e pacífico. Onde a maioria do povo não se sinta menosprezada a ponto de querer promover rolezinhos como a chance para externar seu grito contido na garganta. E onde os que ouçam esse grito entendam que não é preciso ser bandido ou marginal para gostar de músicas que falam de violência ou que tratam a mulher como objeto. Somos todos responsáveis por tudo que está acontecendo.
Os vídeos
Seguem links de vídeos que foram compartilhados no Facebook pelo jornalista Pedro Notaro e pelo Jornal Guarulhos Hoje; o primeiro, durante a primeira vez; os demais, mostrando a ação da Guarda Civil Municipal e a dispersão dos jovens, em correria, após a intervenção da GCM. O quarto link é do jornal Estação, distribuído em São Paulo e pertencente ao grupo MG (Mídia Guarulhos).
https://www.facebook.com/pedro.notaro.007/videos/2075730909118641/
"Rolezinho" termina em confusão no Bosque MaiaNo momento que começou a dispersão dos adolescentes na região do Bosque Maia pela PM e GCM, muita confusão, correria e bombas foram utilizadas para a saída dos jovens do local. No vídeo é possível ver tênis abandonados na via, e até jovens correndo após um GCM utilizar o cacetete em cima jovens que estavam do outro lado da avenida Paulo Faccini.
Posted by Jornal Guarulhos Hoje on Saturday, February 17, 2018
Confira o momento em que a GCM e a PM começaram a dispersar os jovens do "rolezinho" no Bosque MaiaNo vídeo é possível ver um pequeno grupo de adolescentes correndo e também uma pequena explosão nos arredores do Bosque Maia.
Posted by Jornal Guarulhos Hoje on Saturday, February 17, 2018
Parece RIO DE JANEIRO? Mas nao é!! Aconteceu em Guarulhos! No Bosque Maia
Posted by Jornal Estação on Sunday, February 18, 2018
Valdir Carleto

