Terremoto que matou cerca de 300 mil pessoas no Haiti completa 10 anos

Escombros da Catedral de Notre Dame, em Porto Príncipe, Capital do Haiti - Foto: © Alexandre de Paulo/ADPhoto (4/12/14)

O terremoto que devastou o Haiti, matou cerca de 300 mil pessoas e deixou mais 300 mil feridos completa 10 anos neste domingo (12). O tremor de terra agravou ainda mais as condições de miséria do país mais pobre das Américas, onde 1,5 milhão de pessoas ficaram desabrigadas.

Memorial em homenagem aos militares brasileiros mortos no terremoto – Foto: © Alexandre de Paulo/ADPhoto (4/12/14)

No dia 12 de janeiro de 2010, uma terça-feira, a cidade de Porto Príncipe, capital do Haiti, ficou coberta de poeira por causa de um terremoto, de magnitude 7 na escala Ritcher, cujo epicentro foi na península de Tiburon, a cerca de 25 quilômetros, e com profundidade de 10 quilômetros.

Esse terremoto é considerado o quinto mais grave da história mundial. Destruiu a maior parte da capital haitiana, incluindo o prédio da sede do governo (Palácio Presidencial), a sede do Banco Mundial e a catedral de Notre-Dame de Porto Príncipe.

Estrutura da Catedral de Notre-Dame, em Porto Príncipe, Capital do Haiti – Foto: © Alexandre de Paulo/ADPhoto (4/12/14)
Nesse espaço ficava o Palácio Presidencial, destruído no terremoto – Foto: © Alexandre de Paulo/ADPhoto (4/12/14)
Ruínas da Catedral de Notre-Dame, em Porto Príncipe, Capital do Haiti – Foto: © Alexandre de Paulo/ADPhoto (4/12/14)

A sede da missão da ONU de paz e estabilização no Haiti, a Minustah (sigla em francês de Mission des Nations Unies pour la Stabilisation en Haïti), também desabou e causou a morte de diversos funcionários das Nações Unidas, inclusive o chefe da missão na época, o diplomata tunisiano Hédi Annabi. Naquele momento, havia 1.200 soldados brasileiros atuando na missão.

A brasileira Zilda Arns, pediatra coordenadora da Pastoral da Criança, também morreu na ocasião, quando falava sobre os cuidados com a saúde infantil, vítima do desabamento da igreja onde fazia a palestra.

Recortes de Porto Príncipe, Capital do Haiti – Fotos: © Alexandre de Paulo/ADPhoto

Após a tragédia, o país, passou por sucessivas crises, inclusive um surto de cólera, dez meses após o tremor. Milhares de pessoas foram afetadas pela doença e mais de 9 mil morreram.

Atualmente o Haiti ainda tem 70% da população na miséria, com renda menor que US$ 2,4 por dia, e com o país atravessando uma severa recessão.

Assista reportagem da TV Brasil

*Com informações da TV Brasil e do Radiojornalismo da EBC, via Agência Brasil

O que será do Haiti?


Por Alexandre de Paulo*

Na noite de 31 de agosto de 2017 foram encerradas as operações da Missão das Nações Unidas pela Estabilização do Haiti (Minustah), cujo braço militar foi liderado pelo Brasil por 13 anos. O Haiti, a primeira nação negra no mundo a abolir a escravatura por meio de uma revolução popular, em 1804, se “libertou” do domínio francês (à custa de uma dívida externa impagável) e desde então vive sob tensão da incerteza.

Em mais de 200 anos de história republicana, poucos foram os períodos de “tranquilidade”. Golpes, ditaduras, corrupção, governos populistas… “O que será do país mais pobre das Américas sem a ONU”, questionei em 2017? Hoje, três anos depois, constatei que o Haiti segue com 70% da população na miséria.

O histórico é severo e cruel: instabilidade política, social e econômica; violência urbana, desemprego, fome… Desastres naturais (terremotos, rota de furações); surto de cólera, saneamento básico quase inexistente, saúde pública precária, acesso limitado à educação (para a maioria pobre). Estradas esburacadas, trânsito caótico… esses são alguns dos problemas do Haiti, muitos deles crônicos e que se arrastam há tempos.

A missão da ONU interveio em 2004, a princípio, para conter a onda de violência em Porto Príncipe (capital), que ganhava contornos de guerra civil, com combates diários de gangues rivais. Em 2007 a última comunidade (Cité Soleil, uma das favelas mais violentas), foi pacificada.

A partir daí o país adquiriu um “ambiente seguro e estável”, graças à intervenção das Forças Armadas do Brasil, que agiram com “inteligência e eficiência”. Passado o período de conflito, ações na área de engenharia e auxílio humanitário revelaram outra faceta da Minustrah: a vocação pacifista do soldado brasileiro.

Em janeiro de 2010, um terremoto de magnitude 7.0 na escala Richter colocou o Haiti abaixo. Segundo organismos internacionais, mais de 300 mil pessoas morreram. Milhares ficaram feridos, amputados ou inválidos. Isso atrasou a saída da missão do país, que já estava sendo pensada… Depois disso houve furação, surto de cólera… Cerca de 15 mil homens e mulheres foram treinados pela polícia da ONU e formaram a Polícia Nacional Haitiana, que assumiu a área de segurança.

Porém, sem uma classe política voltada às reais necessidades do povo, sem investimentos que fomentem a economia local, criando oportunidades de emprego (há um potencial turístico enorme a ser incrementado), dinamizando uma educação de qualidade, e acima de tudo o bem-estar social, não há como mudar a história dos haitianos.

Eles são alegres, trabalhadores, corteses… Mas são sobreviventes, muitos com cicatrizes profundas, na alma e no corpo. Por isso seguem precisando de ajuda e estímulo para voltar a caminhar com as próprias pernas.

*Alexandre de Paulo é fotógrafo, jornalista e esteve no Haiti em 2005 e 2014