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Vá em paz, amigo Castelo!

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É difícil escrever sobre o Castelo Hanssen, amigo que nos deixou nesta sexta-feira, 6 de março. O dia inteiro, várias vezes ameacei começar, mas a emoção vinha e me impedia de continuar.

Perdi a conta de quantas pessoas trabalharam comigo ao longo desses 40 anos de lida no Jornalismo da cidade e quase todos se transformaram em amigos. Muitos deles, amigos do peito. Com o perdão de todos os demais, o Castelo foi aquele cara que conquistou meu coração e minha mente como nenhum outro profissional. A admiração que sempre tive por ele é descomunal. E tenho razões de sobra para isso. Acima de tudo, um ser humano da maior grandeza.

Eu o conheci quando ele trabalhava na Folha Metropolitana e eu começava a cuidar dos assuntos de comunicação do Conselho Comunitário do Parque Cecap. Fui lá com outros integrantes da entidade para pedir para divulgar que a Diretoria tinha sido empossada e falar alguma coisa sobre as atividades. A Folha tinha uma coluna do jornalista Dálvio de Oliveira, “Sete dias no Parque”. Ele havia saído e levado a coluna ao Diário de Guarulhos, que era editado pelo professor e vereador José Ribamar Matos (com t só!) da Silva. Em seu lugar, um casal publicava alguma coisa sobre o Cecap semanalmente. Pedimos para que pudéssemos enviar notas para a coluna. Castelo, meio sem jeito, não deu muita esperança. Depois, conheci o Onofre Leite, que era editor-chefe, e foi criada a Coluna do Conselho Comunitário, que passei a escrever como colaborador semanalmente. Isso foi em 1979.

O Jornal Olho Vivo nasceu em janeiro de 1981. Em 1982, o PT elegeu dois vereadores, entre os quais Elói Pietá, que em 1983 propôs que fosse autorizada a circulação de peruas de lotação em Guarulhos. Castelo caiu na besteira de publicar. O jornal era do grupo Paschoal Thomeu, que concentrava nas mãos o transporte coletivo da cidade. Castelo foi demitido.

O Olho Vivo estava para passar de mensal e quinzenal. Encontrei o Castelo em uma atividade da escola Pró-Art, da professora Marlene Salewski. Ele disse que estava precisando trabalhar. Eu disse que adoraria tê-lo comigo, mas que não tinha como pagar o que ele certamente custaria. Ele respondeu: “Não estou preocupado com isso. Preciso de espaço para publicar as coisas da cultura da cidade, poemas, atividades…”. Na Folha Metropolitana, ele era o responsável pela seção literária e estava sentindo falta disso. Esse era o desprendido Castelo!

Aí eu o contratei informalmente, por uma mixaria, que era o que podia pagar. Depois o jornal virou semanal, bissemanal. E foi possível registrá-lo e começar a pagar a ele o piso da categoria.

Castelo redigia direto na máquina de escrever, ditando as palavras para si mesmo. Fiquei admirado com aquilo. Eu escrevia a mão e a Elisabetta, com quem eu era casado na época e fundou junto comigo o Olho Vivo, datilografava as laudas. Eu quis saber como ele conseguia aquilo que para mim era uma proeza. Ele respondeu que ia escrevendo e as ideias vinham surgindo. Resolvi tentar, e aprendi com ela a fazer isso normalmente.

Versátil

 



Ele redigia com a mesma facilidade qualquer coisa, desde uma queixa sobre falta de calçamento em uma rua até um evento de suma importância. Cobria as sessões da Câmara Municipal e escrevia com um tom jocoso e agradável a coluna Diz que diz, que sempre fez o maior sucesso no Olho Vivo. Eu escrevia uma ou outra nota e era tal a afinidade entre nós dois que o leitor não percebia quem havia escrito o quê. Não me lembro de jamais ter tido de chamar a atenção do Castelo, por motivo algum. Ele fazia um bico no jornal Folha Guarulhense, do então vereador Waldomiro Ramos.

Nas eleições de 1988, foi sua prova de fogo. Sempre precisando de dinheiro, não podia rejeitar nenhum serviço. Foi convidado a acompanhar as andanças do então candidato a prefeito Paschoal Thomeu, pelo PMDB, para publicar na Folha Metropolitana. Ele me consultou e eu não me opus. Mas a Folha Guarulhense apoiava o candidato do PTB, Walter Luongo. E Castelo precisava escrever sobre ele. O jeito foi arrumar um pseudônimo: Ari Casagrande. Assim, na Folha Metropolitana ele escrevia falando bem de Paschoal Thomeu. Na Folha Guarulhense, falava bem de Walter Luongo. E no Olho Vivo falava mal dos dois! Esse era o hábil e versátil Castelo.

Santa Preguiça


Na hora do almoço, invariavelmente, Castelo bebia uma cerveja. Ao voltar para o trabalho, sentia um baita sono. Às vezes, cochilava no sofá. E mesmo diante da máquina de escrever, tirava uma pestana. A foto que ilustra a contracapa de seu livro “Um cego fita o horizonte” registra Castelo vencido pelo sono ao cobrir uma sessão da Câmara Municipal. Este poema foi publicado junto a essa fotografia:

Santa Preguiça, olhai por nós, os brasileiros!
Macunaíma, nunca nos deixe virar robôs!

Que o Sol, o samba, o carnaval, a Copa do Mundo,
Vivam, poetas, eternamente a acalentar.
A Pátria Amada, eternamente em berço esplêndido,
e que o Futuro seja o Presente sempre a esperar.

Fazei que a morte tenha preguiça e memória fraca
Fazei que a guerra fique cansada de sua maldade,
Que os versos fáceis, de rimas fáceis, seja o Hino
E que a palavra eternamente seja “Saudade”

Santa Preguiça, conservai sempre a nossa humildade,
Macunaíma, seja vaidoso por todos nós.


“Meu ginecologista me mandou parar de fumar”


Dediquei ao Castelo um capítulo do meu livro “Era apenas uma brincadeira” e lá contei um pouco sobre a maravilhosa personalidade dele.
Entre outras peripécias, um artigo cujo título foi muito criativo. Estávamos assessorando a Associação Paulista de Medicina para produzir o jornal da entidade. O presidente era o ginecologista Gilberto Tenório de Brito. Castelo tinha reuniões com ele para traçar a pauta de cada edição. Como Castelo fumava muito, tossia seguidamente. O médico mostrou a ele imagens de pulmões afetados pela fumaça e o convenceu a largar o nocivo hábito. Eis o título do seu artigo no Olho Vivo: “Meu ginecologista me mandou parar de fumar”. Esse era o criativo e impagável Castelo.

Pena que o saudoso dr. Gilberto não tenha mandado Castelo parar de beber. O nobre jornalista tinha diabetes há muitos anos e até controlava um pouco o açúcar, mas não largava a cervejinha diária nem por reza brava. E cerveja tem álcool, e álcool tem açúcar. O diabete foi se agravando, afetou as vistas do Castelo, a ponto de não ter como continuar trabalhando. Acabou se afastando em licença-saúde e depois de algum tempo foi aposentado por invalidez. Ironia do destino: por invalidez um homem de tanto valor, com tanta capacidade. Mas a tecnologia de então ainda não dava condições para que ele pudesse exercer a profissão.

Em 1996, trabalhava conosco a jornalista Vera Saldiva. Ela ficou incomodada com o fato de alguém ter de digitar o que o Castelo datilografava em laudas. E insistiu para que ele começasse a usar o computador. Ele brigava com o teclado, com os comandos, a tela apagava quando ele estava concluindo a matéria, Castelo xingava de tudo quanto é nome, até que foi se acostumando. Mal sabia Vera o quanto aquilo seria importante para o colega muitos anos depois.

Com o passar do tempo, surgiram mecanismos de resposta audível que permitiram que Castelo pudesse digitar no computador e ouvir o que estava escrevendo, o que lhe permitiu ser articulista de alguns jornais nesse período, incluindo o próprio Olho Vivo, depois Diário de Guarulhos e a Folha Metropolitana. Esse era o Castelo tecnológico.

Em 2001, na festa dos 20 anos do Jornal Olho Vivo, no Open Hall Centro de Eventos, por sugestão da jornalista Renata Moreira, fizemos uma homenagem ao Castelo. Afinal, durante quase duas décadas ele foi praticamente a alma do jornal, que ele incorporou com maestria.

Autodidata, despretensioso, humilde, não sentia vergonha de sair vendendo exemplares de seus livros entre amigos e no comércio, buscando ganhar uns trocados a mais que sua miserável aposentadoria lhe rendia.

Desde os tempos de mocidade, no ABC paulista, quando criou o Colégio de Poetas de Mauá, depois sua vinda para Guarulhos, a criação do Grupo Literário Letraviva, sua participação em outros coletivos de poetas, ter sido um dos fundadores e depois presidente da Academia Guarulhense de Letras… Inúmeros saraus em escolas, no Espaço Novo Mundo, em eventos diversos. Quantos jovens terão se animado a escrever poemas, inspirados na obra do Castelo! Quantas pessoas puderam ser informadas com suas décadas de serviços prestados aos jornais! Quantos jornalistas iniciantes tiveram nele um paciente mestre em seus primeiros passos! Quantas outras tiveram a chance de aprender com ele um pouco da cultura da Paz, da igualdade, da fraternidade.



Descanse em paz, amigo Castelo. Aquela estrela que você escolheu para ser sua há de brilhar para sempre, iluminando os caminhos dessa humanidade que insiste em ser desumana, iluminando os caminhos desta Pátria, que teima em ser obscura e desigual.

Que tenhamos todos a capacidade de aprender um pouco com seus poemas, que ficarão para a Eternidade, como este:


Marginal

“Querem que eu seja um homem de gravata
Um cidadão, senhor e coisa e tal,
Mas eu quero ser eu, uma pessoa,
Um ser vivente, uma vidinha à toa,
ter sangue e coração, ser animal.
Eu quero ser apenas um poeta,
no tempo em que a poesia é marginal”


Valdir Carleto


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