Amigos se despedem de Castelo Hanssen com poesia

 

Um velório diferente aconteceu na noite de sexta-feira e manhã deste sábado, na sede da Aespe, no Picanço. Amigos do poeta, escritor e jornalista Castelo Hanssen despediram-se dele declamando poemas de autoria dele e de outros poetas, transformando o velório em um sarau, algo coerente com uma das atividades que mais ele exerceu durante toda a vida.

Pessoas de sua família contaram sobre a importância de Castelo para a cultura de Mauá, cidade onde liderou movimentos literários. Depois, trabalhou em Santo André, até vir para Guarulhos, trazido pelo editor Onofre Leite. Seu colega de trabalho Luiz de Salvo Neto – o Titico, que veio do ABC junto com ele, fez-se presente, lembrando peripécias do Castelo naqueles meados dos anos 1970.

No Facebook, outro jornalista que com ele atuou na Folha Metropolitana, Vicente de Aquino, publicou um texto em sua homenagem, dizendo que Castelo era o mais insubordinado entre seus subordinados, mas que geralmente ele tinha razão nos argumentos.

Vários profissionais da Imprensa local estiveram no velório, nos dois dias, em momentos de muita emoção, mesclados com lembranças de episódios pitorescos que viveram com o colega: Pedro Notaro, Roberto Samuel, Gilson Santos Ferreira, Celeste Lucarelli, Renata Moreira e Raimundo Azevedo (Zig-Zag).

Na noite de sexta, entre outros membros da Academia Guarulhense de Letras, da qual Castelo foi um dos fundadores e presidente, o escritor Clóvis Domingues fez uma preleção com orações para que sua alma seja recebida com muita luz na nova dimensão.

O prefeito Guti e o secretário de Governo em exercício, Bruno Gersósimo, compareceram e se solidarizaram com os familiares. O ex-vereador Alemão também esteve presente.

Na manhã deste sábado, foi a vez do padre Antonio Carlos Frizzo e de uma prima de Castelo, evangélica, lerem alguns trechos da Bíblia, buscando tornar menos doloroso esse momento para a família.

O secretário de Cultura, Vítor Sousa, e o adjunto, Adalmir Abreu, marcaram presença. Adalmir citou o apoio que sempre obteve de Castelo nas atividades culturais que desenvolveu.

Após o féretro, ao chegar ao Cemitério da Vila Rio, o caixão com o corpo de Castelo Hanssen foi aberto novamente, para que as pessoas que não haviam estado no velório pudessem dele se despedir.

Nesse momento, compareceram os ex-prefeitos Elói Pietá e Jovino Cândido, o vice-prefeito, Alexandre Zeitune; os vereadores Janete Pietá e Edmilson Souza, ele ex-secretário de Cultura e membro honorário da Academia Guarulhense de Letras; Arinaldo Silva, representando o vereador José Luiz; a ex-vereadora Luíza Cordeiro; e o presidente da Usabg (União das Sociedades Amigos de Bairro de Guarulhos, Edilson Ceará. Quase todos eles usaram da palavra, enaltecendo a importância de Castelo para a literatura e as artes em geral.

Muitos amigos, poetas e escritores, declamaram poemas e citaram passagens engraçadas protagonizadas por Castelo. Sua irmã Alice registrou agradecimento à cunhada Norma Hanssen, pela dedicação com que cuidou de Castelo em todo tempo em que esteve enfermo, com consecutivas internações em hospitais e idas e vindas a sessões de hemodiálise.

Enquanto era sepultado, Castelo ainda foi homenageado com mais alguns poemas, concluindo uma despedida à altura de um personagem com tão singular importância, que se pode medir pelas autoridades que compareceram: o prefeito e o vice-prefeito; dois dos três ex-prefeitos vivos (se considerar também Alemão, que governou a cidade por 15 dias, terão sido três dos quatro vivos); o secretário de Cultura e um ex, além do atual adjunto); dois vereadores e uma ex-vereadora; além de um número incontável de amigos e companheiros das artes, por décadas de sua atuação em prol da Cultura.

Foram muitas as sugestões que surgiram de homenagens que ainda lhe poderão ser feitas, como a de dar seu nome à área de eventos do Bosque Maia ou à biblioteca do Centro Adamastor; a de verificar a quantas anda a legislação quanto a criar um mausoléu para membros da Academia Guarulhense de Letras no Cemitério da Vila Rio, com o que se comprometeu a vereador Janete Pietá; que a AGL encabece a produção de novas edições de livros de Castelo ou a elaboração de uma coletânea de seus poemas, entre outras ideias a avaliar e a pôr em prática.

Assim, Guarulhos deu adeus a um de seus habitantes mais ilustres. Com poesia e bom humor, suas marcas registradas.

Voa, Castelo! Você continua vivendo em nossos corações e mentes. E sua obra continuará para sempre espargindo sementes de amor, fraternidade e igualdade.

Aqui, um poema dele, publicado na Revista da Academia Guarulhense de Letras de 2017. Já doente, acamado, parece que ele escreveu antevendo o que viria a acontecer num tempo não muito longe.

DESCANSO DO PEREGRINO

Quando se chega ao ponto de não poder continuar
Alcançamos o destino. É esse o nosso lugar
De encontros e desencontros
Sem ter mais o que encontrar

Navegando nos meus versos
Eu venho de muito longe,
Ou talvez de muito perto,
Por mares, campos, desertos,
sempre em volta do meu quarto
Descobri mundos diversos

É aqui que vou ficar,
É daqui mesmo que eu parto,]
Na hora de viajar
Para onde for o destino
Que a mim foi reservado
Desde o tempo de menino

Deixo os meus versos diversos,
Os amigos que ganhei
E no peito estão guardados
Meus sonhos inacabados
E os sonhos que não sonhei

Valdir Carleto

(foto de Tokujo Maeda)