Na prática, não é tão fácil como na teoria

 

Por mais que seja compreensível a decisão do prefeito Guti de limitar, cada dia mais, a circulação dos ônibus municipais, têm nos chegado indagações que merecem reflexão.

Busca-se adequar o volume de coletivos à real necessidade e se cogita que após o início de abril só circulem as linhas que atendem os locais de atendimento à Saúde, pois é preciso limitar o número de pessoas nas ruas.

É uma medida necessária. Mas cabe perguntar:

1) O serviço de coleta de lixo precisa ser mantido. Os funcionários da Trail têm de se locomover de suas casas aos locais de trabalho. Como o farão sem ônibus?

2) Os empregados nos supermercados e outros estabelecimentos autorizados a funcionar também precisam locomover-se. Por exemplo, as indústrias, trabalhadores em telemarketing, funcionários de farmácias. As empresas em que trabalham fornecerão transporte, na falta dos ônibus municipais?

3) Mesmo os servidores públicos que exercem funções que não podem ser feitas de casa terão meios de comparecer aos locais de trabalho sem ônibus? Os policiais e demais funcionários da área da segurança, por exemplo.

4) Quem trabalha na construção civil como fará para locomover-se, se não tiver condução própria?

5) Quem trabalha nas entidades assistenciais, prestando inestimáveis serviços a camadas muito necessitadas da população, como irá se locomover?

Outra questão, que não tem a ver com essa limitação no transporte coletivo, mas tem sido levantada nas redes sociais:

Todas as empresas terão prejuízos com essa situação, salvo raras exceções. Os pequenos comerciantes, mais ainda. Muitos estabelecimentos não sobreviverão. Os governos estudam formas de amenizar, concedendo um ou outro benefício.

Mas, e os artistas, cujos shows estão proibidos? Os que cantam nos bares e ganham um troco para as despesas da semana? Os atores, os dançarinos, o pessoal da produção de espetáculos? Todos esses que vivem de minguados resultados de bilheterias?

A dona de casa que se vira fazendo faxinas em outras residências? Quem contrata seus serviços vai querer que ela continue? Se for trabalhar, terá condução para ir e voltar?

Como todos esses profissionais farão para sobreviver?

As oficinas de veículos e de eletrodomésticos podem continuar funcionando. Mas, as lojas que vendem peças, não. Onde comprar o que tiver de ser substituído?

É: na prática, não é tão fácil como na teoria.

Será muito difícil superar tudo o que está acontecendo. Resta torcer para que as pessoas se conscientizem da necessidade de se preservar, de evitar a todo custo a contaminação, tomar todos os cuidados de higiene, que as pessoas se ajudem mutuamente. Só assim, a epidemia cessará mais rapidamente. E todos poderemos voltar gradativamente às nossas atividades e a economia do País sofrerá menos, com menores transtornos à população.

Ninguém passará incólume. Todos serão prejudicados de alguma forma. Não é fácil também o papel dos governantes, tendo de tomar decisões antipáticas a boa parte da população, mas necessárias ao bem-estar coletivo.

Que tenhamos todos maturidade para enfrentar os obstáculos e inteligência para escolher as mais corretas soluções. Talvez a pandemia seja útil para nos tornarmos seres humanos melhores.

Valdir Carleto