Educadora financeira comenta sobre “salvar o povo ou a economia”

Esse é o 2° trimestre seguido com retração da atividade econômica - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
 

A educadora financeira Daniella Rolim aborda o dilema que o Brasil está vivendo, entre cuidar das pessoas, deixando-as em casa, e salvar as empresas, diante das ordens para manter paralisada boa parte dos ramos de atividade

Graduada em Administração de Empresas, pós-graduada em Banking e com MBA em Gestão de Negócios e Finanças, ela é planejadora financeira com certificação internacional CFP e diretora comercial da Flap Capital.

“Eu não sou de mencionar política partidária em meus artigos e minha falas, mas tem uma frase de um dos nossos ex-presidentes que está circulando na internet, na qual ele fala que ‘primeiro se salva o povo e, depois, se salva a economia. Realmente é uma frase de efeito muito bonita. Mas será que é uma verdade?”, questiona.

Diz que o mundo está travando uma guerra contra um vírus. “Um vírus de baixa letalidade, porém alta velocidade de disseminação. Ou seja, poucos morrem por ser contaminado com ele, mas ele contamina muitos de forma muito rápida. Diante do risco de não ter capacidade de atendimento médico/hospitalar, estados brasileiros estão determinando o isolamento da população. Mas com esse isolamento, qual vírus poderá nos matar?”, pergunta.

Ela afirma que o fechamento do comércio e das empresas de prestação de serviços está causando mais pânico na população economicamente ativa do que a própria covid-19. “Parte desse medo se dá pela incerteza da solidez das empresas que estão sendo obrigadas a ter seu faturamento zerado durante esse período de suspensão de atividades e a capacidade de geração de receita das pessoas que dependem do trabalho para conseguir manter o sustento da família”, opina.

Uma das medidas do governo foi autorizar a redução salarial, com redução de carga horária, limitando a redução a até um salário mínimo, porém não pode haver alteração na remuneração hora/trabalho. Uma medida que foi inclusive criticada por vários segmentos. A educadora aborda a questão em duas partes: uma sobre a relação empregado x empregador e outra sobre o impacto para o trabalhador autônomo.

“Essa medida do governo visa permitir que o pequeno empresário mantenha sua equipe de colaboradores mesmo após perda de faturamento agressiva. Seria uma medida para minimizar ao máximo o desemprego. As duas pontas estão perdendo: a empresa perde faturamento, perde lucro e, talvez, até saboreie um prejuízo; e o colaborador perde parte da sua renda, porém, dessa forma o empresário não fica com ainda mais custos com demissões e necessidade de treinamento de novos colaboradores quando o negócio voltar à atividade. Para o colaborador a vantagem é não ficar desempregado e manter a possibilidade de tudo voltar ao que era antes”, comenta.

Já para o profissional autônomo, ela aconselha a avaliar o nível de escala que pode ser dado ao negócio de cada um. “A presença do seu trabalho na internet, implementação do serviço de delivery ou outras adaptações que podem te levar a continuar gerando receita”, sugere.

Ela propõe que haja um equilíbrio entre as linhas conflitantes de opinião: “Enfim, se só salvamos o povo, destruímos a economia. Do que esse povo vive depois? Se só salvamos a economia, deixamos de salvar nosso povo, por essa razão a conscientização é muito importante: isolar os grupos de risco e trabalhar a nossa criatividade”.

Sugere que é necessário aproveitar esse período para criar estratégias de manter sua renda e reestabelecer seu negócio após a paralisação. “Faça um planejamento estratégico do seu negócio, avalie os riscos e as oportunidades e estude as formas de se proteger de todos os riscos que forem levantados. Esse planejamento pode ser feito para a família também, entender quais riscos estão inseridos, se existe um trabalho de educação financeira. A construção de reserva de emergência está mostrando a sua importância diante dessa quarentena”, diz.

Segundo ela, momentos de paralisação operacional de uma empresa não acontecem apenas com casos como o que estamos vivendo. “Uma empresa pode ter diversos fatores que a levem a interromper suas atividades, tendo como consequência, muitas vezes, a insolvência. O empresário precisa saber que ele pode se proteger em casos de paralisação de suas atividades, através de seguro para esse fim. Um seguro destinado, de acordo com sua contratação, a pagar os custos fixos da empresa, entre outras possíveis perdas financeiras. Uma forma de manter o negócio economicamente viável mesmo depois de eventos involuntários”, informa.

Conclui aconselhando a obter orientação segura nesses momentos: “Acostumamos analisar os riscos da pessoa física e da jurídica. O importante é que você saiba que existem meios de se proteger; por isso, ter um planejador financeiro ao seu lado é tão importante.”