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A covid-19 e o tratamento com anticoagulantes

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Por José Augusto Pinheiro, especial para o Click Guarulhos

A civilização atual vive no piloto-automático. Humanos em todo o mundo aguardam, confinados, um sinal que indique que a pandemia do novo coronavírus terá fim. Até o dia 25 de abril, mais de 200 mil pessoas das mais diversas nacionalidades já tiveram a vida ceifada, enquanto os cientistas buscam entender o vírus para poder vencê-lo, quer seja com tratamento eficaz ou pela descoberta da vacina que imunize as populações contra a covid-19.

Nesse árduo percurso encontram-se protocolos científicos em todo o planeta. Em São Paulo, o Hospital Sírio Libanês tem encontrado resultados animadores no uso de anticoagulante. Segundo a pré-publicação de estudo, realizado por especialistas do hospital em dez vítimas fatais, revelou menor número de focos de hemorragia alveolar. Além disso, não foi observada falta de irrigação nos pulmões, e os sinais de pneumonia bacteriana secundária só foram verificados em seis casos.

A pneumologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Elnara Marcia Negri, coautora do estudo, afirmou ter havido bons resultados com um grupo de pacientes que apresentava casos mais graves. “Agora nós esperamos ter pelo menos 100 pacientes, e em mais centros. A ideia é elaborar um manual de como usar anticoagulante na covid-19″.

Elnara descobriu que o vírus provoca trombose nos pulmões, observando a necropsia dos corpos daqueles que não resistiram. Assim, ela decidiu testar a medicação, que é indicada nesses casos, nos que ainda lutavam desesperadamente para viver. Dos 27 tratados, entre 39 e 96 anos, nenhum morreu. Dois ainda estão hospitalizados. “Quanto mais precoce for a ação diante do quadro de insuficiência respiratória, maior será a chance de o paciente não precisar ser colocado em ventilador mecânico”, afirmou.

Com a publicação do artigo científico, médicos e hospitais do mundo todo passam a conhecer o protocolo e poderão usar a técnica em seus pacientes. Todos os hospitais da rede municipal de São Paulo já estão usando os anticoagulantes, conforme a indicação clínica de cada paciente.

Segunda opinião

Para o médico José Sérgio Iglesias Filho, traumatologista e ex-secretário de Saúde em Guarulhos (SP), esse tratamento faz todo o sentido. “Afinal, os pacientes mais graves apresentam quadro de coagulação intravascular disseminada”. Segundo el, a questão principal a esta altura é a efetividade em ampla escala. “A coagulação provoca síndrome de angústia respiratória intensa e, muitas vezes, irreversível. Portanto, o uso de anticoagulantes no momento adequado pode ser um bom coadjuvante no tratamento”.

Quanto a ser esta a solução definitiva, Iglesias recomenda prudência: “Se o paciente for bem monitorado, esta poderá ser uma opção importante, mas não creio que tenha o poder de salvar todos os casos da covid-19. Até 70% dos pacientes graves apresentam severos fenômenos tromboembólicos, cuja recomendação é o estabelecimento de medidas preventivas”, concluiu.

Testes na França e na Suíça

Medicamento usado principalmente na prevenção da trombose e no tratamento de embolia pulmonar, problemas coronarianos e infarto, a heparina (nome genérico do anticoagulante) está sendo usada em protocolos de pesquisas no tratamento de covid-19 em diversos países. Na Europa, existem atualmente pelo menos dois grandes estudos em andamento.

Na França, 808 pacientes estão sendo avaliados quanto à segurança da anticoagulação em pacientes com infecção pelo novo coronavírus. São pessoas internadas no hospital-escola Cochin, no Europeu Georges Pompidou e no Hospital de Paris, ambos públicos e localizados na capital francesa, e o hospital universitário Louis-Mourier, em Colombes. Este estudo deverá ser concluído em 30 de setembro.

Em Genebra, na Suíça, 200 pacientes de covid-19 internados em hospitais universitários na cidade participam de estudo cujo objetivo é prevenir a trombose associada à doença causada pelo novo coronavírus, bem como avaliar doenças causadas por coágulos sanguíneos e a mortalidade com uso de anticoagulante em baixas e altas doses de heparina. Iniciado no dia 14 de abril, o estudo suíço deverá terminar em 30 de novembro.

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