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Guarulhos: 460 anos de história e controvérsias

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Por Victor Quaranta (https://vitorquarantasanto.wixsite.com/)

 

Estamos em 8 de dezembro de 2020: Guarulhos comemora o seu 460° aniversário. A cidade é o segundo município mais populoso do estado e o 13º do país, posições galgadas com o passar de poucas décadas, resultado de um expressivo crescimento demográfico. A cidade faz parte da Grande São Paulo, principal aglomerado urbano da América Latina. Seu aeroporto internacional é um importante terminal de cargas e faz do município um dos mais importantes núcleos receptores do turismo no Brasil [3]. Apesar da sua importância demográfica e econômica, seu surgimento como cidade emancipada é relativamente recente: data apenas de 24 de março de 1880 [4], no crepúsculo do império de Dom Pedro II!

Os historiadores da região acreditam que Guarulhos nasceu em dezembro de 1560, com a fundação da igreja de Nossa Senhora da Conceição. Além da igreja, foi criado um cemitério, nas proximidades da atual Vila Moreira, num espaço entre as ruas SilvestreVasconcelos Calmon, José Esperança da Conceição, Barão de Mauá e a Av. Guarulhos. A igreja permaneceu no espaço por um período, mas foi transferido para uma colina no Centro, nos arredores da Igreja Matriz[5].

No entanto, a gênese de um aldeamento indígena no ano de 1560 é objeto de bastante controvérsia, embora esta hipótese tenha influenciado algumas pesquisas. O professor Benedito Antônio Prezia aponta que a primeira referência ao aldeamento dos Maromomis é datado de quase meio século depois, a capela de Nossa Senhora da Conceição passou a ser designada um aldeamento apenas em 1608[6].

A primeira atividade econômica do local foi a mineração de ouro. Em 1598, Dom Francisco de Souza, o então governador-geral do Brasil, mandou um contingente de índios para as minas de São Paulo. Entre os primeiros garimpos, constava um na Serra de Jaguamimbaba, atual Guarulhos. Os habitantes da região eram os índios Maromomi. Caçadores e coletores, eles deixaram poucos vestígios da sua presença na cidade, como umas poucas trilhas para locomoção, por onde buscavam frutas, raízes, mel, caça e pesca. As primeiras moradias e a agricultura de subsistência surgiram em Guarulhos com a influência da mineração aurífera, que antecedeu a de Minas Gerais em aproximadamente um século[7]!

O autor do presente texto não descarta a possibilidade do surgimento conjunto da

antiga igreja e do aldeamento, mas tampouco a possibilidade de que a historiografia local tenha confundido o nascimento da primeira igreja com o surgimento do aldeamento indígena deva ser descartado e que tal equívoco tenha influenciado de forma errônea as pesquisas posteriores, como acredita Antônio Prezia[8]. Controvérsias à parte, um escrito do governador Salvador de Sá, enviado ao rei de Portugal em 1640, informa que Nossa Senhora da Conceição contava com cerca de 800 família, mas com a expulsão dos jesuítas de São Paulo, na década de 60 do século XVII, o aldeamento entrou em crise e foi abandonado pela maior parte dos seus moradores[9].

A colonização lusitana impôs um novo modelo de organização social aos indígenas da região, que deixaram o nomadismo e passaram a viver de forma sedentária. O professor e escritor Elton Soares de Oliveira afirma que os ciclos econômicos e o povoamento estão intimamente relacionados na história. O ciclo do ouro em Guarulhos ocorreu em paralelo com a presença dos colonizadores portugueses. No final do século XIX, a chegada de italianos e alemães deu início ao ciclo do tijolo cozido [10] – ainda hoje, ao conversar com os moradores mais velhos da cidade, muitos se lembram dos tempos das olarias [11]. Num terceiro momento, libaneses e japoneses chegaram e desenvolveram atividades no comércio e no meio rural. A partir da década de 1940, a expansão da indústria intensificou o êxodo rural brasileiro, o que deu início a novas ciclos econômicos e assim por diante [12].

A vida política da cidade foi ligada à antiga São Paulo de Piratininga por 320 anos, período no qual Guarulhos fez parte da capital paulista, na qualidade de aldeia, distrito e freguesia[13]. Seu nome é recente e sua origem controvérsia, aquele data de 1906! Em meados da primeira década do século XX, Guarulhos contava com uns 5 mil habitantes [14]. O curioso é que a origem da palavra Guarulhos está no tupi-guarani, mas a população nativa da região, nos tempos do primeiro assentamento jesuíta, não pertencia ao grupo linguístico Tupi-guarani[15]!

Uma boa parte dos lugares no Brasil que contam com nomes indígenas não foi atribuída por seus povos originários, mas por outros e muito posteriormente. De acordo com Theodoro Sampaio, parlamentar e estudioso brasileiro, Guaru vem de arú, […] “nome de um sapo ou rã[,] cujo coaxar nas lagoas [lembra esc[á]rnio] ou [zombaria [16]”], ao passo que Guarulhos é derivado de guarú ou arú, zombeteiro ou escarnecedor; é o “[…] nome de uma trib[o] selvagem do Rio de Janeiro [e de] São Paulo” – O Tupi Na Geographia Nacional (1901).

A dificuldade na comunicação entre os colonizadores e os inúmeros grupos indígenas do Brasil criou uma língua geral, que surgiu entre os séculos XVI e XVII, decorrente do contato entre os povos[17]. A colonização formal de São Paulo começou em 1532, quando Martim Afonso de Souza fundou a vila de São Vicente, em pleno domínio tupi. Em sua maioria, os colonos do século XVI eram homens sós, que passaram a viver com mulheres índias, o que resultou na gênese de uma população mestiça, cujo idioma falado era o da família materna, já que do lado dos pais, em geral, não havia parentes consanguíneos.

Os Tupis, independentes e culturalmente diversos, foram modificados pela colonização lusitana: o contato fez com que a língua dos paulistas não servisse a uma sociedade e cultura indígenas, mas a uma sociedade e cultura mestiças. O linguista Aryon Rodrigues acredita que tal alteração da condição deva ter acarretado em várias modificações da língua nativa, que foram disseminadas na população, entre os séculos XVI, XVII e XVIII, resultando na formação da língua geral paulista [18].

A língua geral paulista foi constituída nas condições de contato linguístico; num primeiro momento, os casais mistos viviam em comunidades indígenas, mas o rápido desaparecimento das comunidades tradicionais – num período entre uma ou duas gerações – deu origem aos povoados dominados por mestiços[19]. Os povos originários do Brasil pertenciam em sua quase totalidade à família linguística Tupi-guarani[20], mas num novo contexto social, não era incomum a presença do bilinguismo. O filhos mestiços eram majoritariamente monoglotas na língua indígena ([“que pouco a pouco foi-se transformando na língua geral [21]) ou falavam o português como segundo idioma [22].

Para Soares de Oliveira, historiador regional, o nome Guarulhos não é uma criação dos nativos Maromomis, mas um resultado da dominação colonial lusitana no território nacional e no espaço que veio a se chamar Guarulhos [23]. Os habitantes da região são descritos nos relatos da época do Brasil Colônia, mas com diferentes gráficas, como Mamomi, Marimemim, Maromomi, Jeromomim, Garumimim, Geromemim, Gessaruçu e Guarulho [24].

Os nativos Maromomis não construíam casas e tampouco eram ceramistas; apenas faziam uns objetos utilitários e poucos artesanatos, como cestos, arcos e flechas e itens para o enfeite dos seus corpos, o que faz com que sua presença seja difícil de ser identificada. Ao contrário dos Tupis, não praticavam a antropofagia[25]. Quanto ao idioma, falavam uma língua da família Puri. O padre Manuel Viegas, responsável pela catequização dos nativos, chegou a traduzir um catecismo do tupi e inclusive escreveu uma gramática da língua do povo Maromomi, mas, infelizmente, tanto a gramática quanto o catecismo foram perdidos com a expulsão dos jesuítas pelos bandeirantes. Do idioma, apenas dois termos são conhecidos: agê, que é a forma como os padres eram chamados e Nhamã Nhaxê Muna, quando faziam referência a Deus [26].

Os missionários acreditavam que a catequese poderia ser um amparo contra a escravização dos nativos. Em 1612, foi descoberto ouro nas terras indígenas da missão dos Maromomis, onde foi estabelecido um garimpo no nome de Geraldo Correia Sardinha [27]. A violência praticada pelos colonos contra os nativos foi amplamente denunciada pelas autoridades religiosas, o que resultou num documento do papa Urbano VIII, o qual [“determinava [a] excomunhão para os que escravizavam índios e [aos] padres que não denunciassem [a] prática”; todavia, depois de 1640, com a expulsão dos missionários, as terras dos jesuítas foram invadidas, confiscadas e os aldeamentos passaram a ser dirigidos por civis [28]. Sob a administração civil, os nativos foram submetidos a trabalhos forçados e usados nas expedições bandeirantes. Para os indígenas, com a expulsão dos jesuítas, já não havia vantagem em permanecer aldeados. A exploração das minas de ouro provocou a evasão demográfica dos aldeamentos paulistas, devido à pressão dos colonos por mão de obra[29].

Com o tempo, os Maromomis começaram a ser chamados de Guarulhos, por influência dos moradores do Rio de Janeiro, que os identificavam com outros indígenas que lhes eram aparentados, acredita o professor Benedito Antônio Prezia. A última referência conhecida sobre os nativos guarulhenses e seu aldeamento é de 1733, no auge da exploração aurífera paulista. O documento relata que uma indígena deixou o aldeamento de Nossa Senhora da Conceição para viver como agregada de uma família, por lá estar “passando por necessidades”. Numa forma geral, os estudiosos da época acreditam que os índios na São Paulo seiscentista viviam em situação bastante precária. E assim, de forma melancólica, termina a história do povo originário de Guarulhos, pressionados pelo trabalho cativo e em fuga pelo sertão[30].

***

Em junho de 2019, passados mais de quatro séculos do primeiro aldeamento jesuíta, Guarulhos era uma cidade com população estimada em 1.379.182 habitantes [31], com casas e prédios modernos, distribuídos entre os seus diversos bairros, mas ainda hoje, todavia, muitos são os grupos indígenas que vivem na território do município, como os Wassu Coral, Pataxó, Pankararu, Kaimbé, Pankararé, Fulmi-ô e Tupi, segundo José Carlos Vilardaga[32].

O Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ibge) apontou a existência de 1.600 almas nativas em Guarulhos, mas os números sobre a quantidade de nativos varia muito, dependendo da fonte. De acordo com a Associação Arte Nativa Indígena (Aani), a quantia de indígenas seria de pouco mais de 1.700 (2018), mas a Prefeitura da cidade contesta o número e reconhece 1.434 (2010)[33]. Controvérsias à parte, quiçá a entidade tenha superestimado a população, mas também é razoável considerar que os dados públicos estejam defasados, já que o último levantamento oficial ocorreu há uma década. A migração/emigração e o nascimento de crianças índias podem ter acarretado mudanças quantitativas.

As divergências entre eles não param por aí, já que são reconhecidas oficialmente sete etnias indígenas, ao passo que o Aani reconhece 16 etnias. De acordo com uma matéria de Sérgio Scatolin, datada de 30 de abril de 2018, a referida associação está situada na Aldeia Filhos da Terra, numa área de uns 130 mil m2, que os nativos dizem pertencer a eles desde os tempos dos “índios Guarus”. O espaço tem uma opy (“casa da reza”, em tupi-guarani), um local sagrado, dedicado ao culto a Nhanderú (Deus, em tupi-guarani). O autor considera controversa a afirmação de que o espaço da atual Aldeia Filhos da Terra pertença aos nativos desde os tempos dos ‘índios Guarus”, pois os vestígios idiomáticos do povo Maromomi indicam que os primeiros “filhos da terra guarulhense” pertenciam à família linguística Puri, não à Tupi-guarani: para os primeiros nativos conhecidos, Deus era Nhamã Nhaxê Muna, não Nhanderú!

De todas as formas; malgrado as controvérsias da história, o certo é que nos tempos do padre Anchieta, os índios eram muitos, mas com distintos nomes, línguas e costumes – nos dias de hoje, a Região Metropolitana de São Paulo tem, em sua totalidade, apenas uns 21 mil indígenas[34], numa população total de mais de 20 milhões de habitantes! Em maio de 2018, quando foi escrita uma matéria a respeito, a então vida em Filhos da Terra não era fácil, pois além de não contarem com transporte (devido à distância da linha de ônibus mais próxima da aldeia), não havia saneamento básico e a infraestrutura era precária[35].

Por último, mas não menos importante: se queremos integrar nossos povos originários como cidadãos de primeira classe ao Brasil do século XXI, o ponto de partida está em reconhecer que antes da chegada dos europeus, uma população indígena habitou este solo, estimada em milhares[36].

“Que sejam atendidas nossas demandas por terra, saúde e educação, para todo nosso povo que vive na Aldeia Filhos da Terra. O respeito leva ao amor e à comunhão; a solidariedade leva à coletividade”, comentou Awaratan Wassu, nome indígena adotado por Lenindo Máximo, então diretor da Aani[37].

Referências

1LOWENTHAL, David. Como conhecemos o passado. In: Projeto história: trabalhos da memória. São Paulo: PUC-São Paulo, n.17, nov. 1998. p. 73.

2 BERGANZINI, Dom Luiz Gonzaga. Apresentação. In ROMÃO, Gasparino José; RANALI, João. Igreja Matriz de Guarulhos. São Paulo : Editorial Scartecci, 2006. p. I.

3 JORNAL, SP Norte Guarulhos. Guarulhos: Cidade Moderna e Em Constante Crescimento. São Paulo : Grupo SP de Jornais, Edição 141, Julho de 2020, 2020. p. 1.

4 OLIVEIRA, Elton Soares de et al. Guarulhos : Espaço de Muitos Povos. São Paulo : Noovha América, 2aEdição, 2008. p. 54.

5 Idem, p. 11.

6 PREZIA, Benedito Antônio. Maromomi, Os Primeiros Habitantes de Guarulhos : da Perambulação ao Aldeamento. In OMAR, Elmi (org.). Guarulhos Tem História : Questões Sobre a História Natural, Social e Cultural. São Paulo : Ananda Gráfica e Editora, 2008. p. 65.

7 CAMPOS, Daniel Carlos de et al. Revelando a História do São João e Região : Nossa Cidade, Nossos Bairros. São Paulo : Noovha América, 1a Edição, 2011. p. 10.

8 Idem, p. 65.

9 Idem, p. 65.

10 OLIVEIRA, Elton Soares de. Guarulhos No Contexto Paulista : Antes e Após 1560. In OMAR, Elmi (org.). Guarulhos Tem História : Questões Sobre a História Natural, Social e Cultural. São Paulo : Ananda Gráfica e Editora, 2008. p. 16.

11 ________. Ciclo do Tijolo, Imigração, Trabalho Assalariado, Agricultura e Comércio. In OMAR, Elmi (org.). Guarulhos Tem História : Questões Sobre a História Natural, Social e Cultural. São Paulo : Ananda Gráfica e Editora, 2008. p. 97.

12 OLIVEIRA, Elton Soares de. Guarulhos No Contexto Paulis… p. 16.

13 Idem, p. 19.

14 CAMPOS, Daniel et al. Revelando a História de São João e Regi… p. 13.

15 OLIVEIRA, Elton Soares de. Guarulhos No Contexto Paulis… p. 20.

16 SAMPAIO, Theodoro. O Tupi Na Geographia Nacional. São Paulo : Instituto Historico e Geographico de S. Paulo, Typ. da Casa Eclectica, 1901. p. 127.

17 RODRIGUES, Aryon. As Línguas Gerais Sul-americanas. São Paulo : PAPIA : Revista Brasileira de Estudos Crioulos e Similares, Universidade de São Paulo, 1996. p. 6.

18 Idem, p. 8.

19 Idem, p. 10-1.

20 Idem, p. 7.

21 Idem, p. 11.

22 Idem, p. 10-1.

23 OLIVEIRA, Elton Soares de. Guarulhos No Contexto Paulis… p. 21.

24 PREZIA, Benedito Antônio. Maromomi, Os Primeiros Habitantes… p. 60.

25 Idem, p. 60.

26 Idem, p. 60-1.

27 Idem, p. 67.

28 Idem, p. 68.

29 Idem, p. 68-70.

30 Idem, p. 69 e 71.

31PREFEITURA, Guarulhos. Estatísticas e Geografia. 2019. Disponível em:

<https://www.guarulhos.sp.gov.br/estatisticas-e-geografia>. 07/09/2020.

32 VILARDAGA, José Carlos. Terras de Guarulhos. Serviço Social do Comércio (SESC), Revista do Mês, 2019. Disponível em: <https://www.sescsp.org.br/online/artigo/13234_TERRAS+DE+GUARULHOS>. Acesso: 07/09/2020.

33 SCATOLIN, Sérgio. índios em Guarulhos : Como Vivem, o Que Pensam e o Que Reivindicam. Guarulhos : Click Guarulhos, 2018. Disponível em: <https://www.clickguarulhos.com.br/2018/04/30/indios-em-guarulhos-como-vivem-o-que-pensam-e-o-que-reivindicam/>. Acesso: 08/09//2020.

34 VILARDAGA, José Carlos. Terras de Guaru…

35 SCATOLIN, Sérgio. índios em Guaru…

36 VILARDAGA, José Carlos. Terras de Guaru…

37 SCATOLIN, Sérgio. índios em Guaru…

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