As lições da pandemia para o ano letivo de 2021

 

Desde o início da pandemia da Covid-19, as instituições de ensino passaram a ter a preocupação de adaptar modelos de ensino e aprendizagem para o cenário remoto e, junto com profissionais da área, tiveram de repensar o modelo de educação como um todo. Adoção de plataformas, infraestrutura tecnológica e novos formatos de aula que engajassem os estudantes em casa passaram a ganhar força.

É ainda incerto como será a retomada gradativa das aulas presenciais, já foi iniciada em alguns estados do Brasil, diante do crescente número de novos casos da covid-19 neste início de ano, o que dificulta o planejamento para o ano letivo.

Veja tambem: Acesso e utilização da internet pelos alunos

O que é indiscutível é que os transtornos de 2020 servirão como experiência para transformações pelas quais fatalmente a Educação, de forma geral, terá de passar, independentemente do modo de agir e das condições sociais de cada família.

Agora, em 2021, as maiores lições são o uso significativo da tecnologia e a valorização dos professores, pedagogos e gestores educacionais. É o que conta a psicopedagoga Ana Regina Caminha Braga, especialista em Gestão Escolar e Educação Especial.

“A educação à distância já era praticada há muitos anos pelo Ensino Superior, mas nunca de forma tão aprofundada como neste ano. Já a Educação Básica, essa sim teve de se reinventar”, aponta. “Diversas escolas ingressaram pela primeira vez no universo das plataformas online, correndo contra o tempo para se adaptar aos novos métodos e driblar as dificuldades pedagógicas. Afinal, não é somente dar aula frente as câmeras, mas levar dinamicidade e ludicidade aos alunos a partir de estratégias diferenciadas”, explica.

A valorização dos professores também se faz bastante presente. A pandemia provou a capacidade multifuncional e a importância desses profissionais na vida dos alunos.

“Após um período de avaliação dos resultados obtidos no último ano letivo, chegou a hora de elaborar novas diretrizes e levantar um diálogo sobre a participação do aluno e a prática docente. Para isso, é preciso que os professores sejam capazes de utilizar a tecnologia em sua totalidade, a fim de entregar uma educação ainda mais eficaz a todos os níveis de ensino. E isso só será possível com o apoio dos públicos da Educação”, complementa Ana Regina Caminha Braga.

A Camino School, da zona Oeste da capital paulista, inaugurada em janeiro de 2020, adaptou-se rapidamente à pandemia, atendendo inclusive alunos de outras escolas, com um modelo inovador de ensino híbrido. Muitas famílias de alunos mudaram-se para o interior paulista buscando isolar-se da pandemia, o que levou a instituição a lançar o Field Learning, programa de estudo on-line com campo de atividades presenciais em Itu, para atender alunos locais e de cidades da região. “Vai muito além do que filmar as aulas e replicá-las para quem estiver em casa”, diz a diretora Leticia Lyle, acrescentando que os encontros presenciais serão organizados de modo independente, em conjunto com as famílias, docentes e estudantes, com uma metodologia de aprendizagem baseada em projetos.

À sua maneira, cada colégio da rede privada está revendo conceitos, investindo em tecnologia, na adaptação de currículos, preparação dos professores, além de ter de driblar questões administrativas, como o inevitável crescimento do índice de inadimplência, devido às dificuldades pelas quais muitas famílias estão passando.

É muito provável que, quando as escolas reabrirem efetivamente para aulas presenciais, os alunos retornarão com níveis diferentes de conhecimento e habilidades, tanto porque há estudantes que tiveram mais condições de estudar a distância, quanto porque nem todos têm a mesma facilidade para aprender sem ter o professor por perto, como bem mostra a pesquisa do Seade, cujos dados básicos estão ao lado.

Por conta dessas constatações, segundo Ademar Celedônio, diretor de Ensino e Inovações Educacionais do SAS Plataforma de Educação, a Unesco e, posteriormente, o Conselho Nacional de Educação (CNE) recomendam uma avaliação para diagnosticar as lacunas de aprendizado dos estudantes, a fim de definir planos de ação voltados a reduzir os danos e assegurar que as aprendizagens essenciais sejam adquiridas ao longo do ano letivo. Nessa tarefa de praticamente ensinar dois anos em apenas um, gestores escolares e docentes terão de definir uma trilha de replanejamento pedagógico, que pode ser estabelecida em cinco passos fundamentais: diagnóstico da aprendizagem, análise dos resultados, planejamento, execução híbrida e acompanhamento da aprendizagem,

“O plano de ação define quais medidas devem ser tomadas para cada aluno e turma. Realizar encontros com pequenos grupos, por exemplo, é uma boa maneira de construir relacionamentos e uma oportunidade para correção imediata de algumas das habilidades que foram apontadas na avaliação. O plano de estudo é elaborado a partir do diagnóstico individualizado fornecido pelos relatórios, em que cada aluno recebe um plano personalizado para reforçar a atenção nos pontos em que enfrenta mais dificuldade. Aqui, devem ser listadas referências relacionadas aos assuntos com maiores lacunas de aprendizagem e sugestões de atividades e/ou exercícios semelhantes às dificuldades apresentadas”, orienta.
Aos alunos que demonstrarem ter absorvido menos conteúdo do que foi ensinado em 2020 e, diante da impossibilidade de repassar todo o conteúdo do ano anterior, Celedônio recomenda que seja priorizado o que é imprescindível para a aprendizagem das matérias nos anos seguintes.

“Por último, mas não menos importante, vale ressaltar que, embora os métodos avaliativos para diagnosticar as lacunas de aprendizagem sejam fundamentais para o planejamento do ano letivo, é preciso preocupar-se com mais um fator na volta às aulas: o trato das habilidades socioemocionais, voltadas ao acolhimento, não só dos alunos, mas das famílias, corpo docente e demais agentes escolares”, conclui.

Roteiro Volta às aulas da Revista Weekend: