Não quero estar na pele de quem tem de decidir

Foto: Silas Henrique/Drone/Click Guarulhos
 

Após completar 40 anos de exercício do Jornalismo (com J maiúsculo, sim, sem modéstia) em Guarulhos, não costumo agir com o ímpeto com que o fazia nos primeiros anos do Jornal Olho Vivo.

Nunca agi com leviandade, nunca usei a profissão para fazer oposição sistemática a quem quer que fosse e procurei manter a mesma linha com todos os prefeitos, quaisquer que fossem seus partidos. Mas, os órgãos de Imprensa sempre recebem queixas da população. O povo sempre tem o que reclamar e, na ampla maioria das vezes, tem razão. A coisa mais rara do mundo é alguém entrar em contato com uma Redação para elogiar uma atitude de alguma autoridade. Então, é natural que boa parte das notícias é de críticas aos governantes de plantão, pois entendo que uma das principais funções de um órgão de comunicação é ser porta-voz de quem não tem outro jeito de se fazer ouvir, o povo.

Com a maturidade dos meus 67 anos, 53 anos trabalhados e desses 40 anos de atividade jornalística, algumas dezenas de processos e várias condenações, procuro atuar com a máxima imparcialidade. Porém, nem eu e nem ninguém do nosso ramo age com isenção. Afinal, somos seres humanos e temos nossa opinião. E, ainda que certamente desagrade a muitos, ouso expor o que penso sobre temas polêmicos, como é a pandemia de coronavírus.

Hospital de campanha

Desde o início da pandemia, acompanho nas redes sociais as opiniões de internautas a respeito de atitudes tomadas por autoridades, notadamente as de Guarulhos. Houve muitas críticas à montagem do hospital de campanha, por seu custo elevado e o fato de ser algo provisório. A resposta foi que não haveria condições de pôr para funcionar em tempo tão exíguo uma estrutura com aquela capacidade de atendimento. Ainda que se usasse um dos andares do Hospital Pimentas-Bonsucesso, como muitos argumentaram, a Prefeitura não dispunha de pessoal para operá-lo e não havia tempo para recrutar mais gente.

Falta de testes

Uma das críticas era sobre a falta de testes. O secretário da Saúde, José Mário Clemente, explicou que eram aplicados os que o Ministério da Saúde enviava, mas que, como os resultados eram muito pouco confiáveis, a Prefeitura optou por não investir em algo que poderia dar diagnósticos falsos tanto de contágio quanto negativos.

Máscaras compradas por preço muito alto

Uma acusação grave foi referente à compra de máscaras N-95 por preço muito acima dos praticados pouco tempo antes pelo mercado. A justificativa é que era preciso comprar, teriam sido consultados mais de 70 fornecedores e, entre os poucos que tinham o produto em estoque, optou-se pelo que ofertou o menor preço. O caso está em investigação, tendo sido cumpridos recentemente mandados de busca e apreensão. Chamo a atenção, porém, para um argumento acusatório que é de que a empresa que vendeu ser uma Eireli – empresa individual de responsabilidade limitada – porque isso indicaria falta de estrutura para um fornecimento daquele porte. O fato de ser Eireli não quer dizer que seja pequena. Nada impede que uma grande empresa tenha um único dono. E ainda que seja uma pequena empresa não significa necessariamente que não tenha condições de entregar o que foi comprado. Minha editora é uma Eireli e dispõe de certidões de regularidade de todos os órgãos públicos. Não quero dizer com isso que não tenha havido irregularidade na compra das máscaras. É preciso aguardar o desfecho da apuração.

Contrato com hamburgueria

Outra acusação referiu-se ao contrato com uma hamburgueria. Apressadamente, choveram críticas de que a Prefeitura estaria gastando mais de R$ 700 mil com lanches. Na verdade, embora a razão social da empresa contratada tenha esse termo, trata-se de uma fornecedora de refeições – e não lanches – para as equipes que estavam trabalhando no hospital de campanha. E esse valor se referia a vários meses. Se não me engano, o preço de cada refeição era de R$ 14.

Leitos de UTI

Naquela fase, Guarulhos se saiu relativamente bem, lógico que com muitas mortes a lamentar, mas sem chegar a ter colapso no atendimento. Ou seja, ninguém morreu por falta de um leito de UTI, por exemplo, embora muitos pacientes tenham tido de ser transferidos para outras cidades, pelo sistema Cross, que regula as vagas nos hospitais vinculados ao SUS.

Agora, com a segunda onda, muito mais grave do que a primeira, mesmo com muito mais leitos de UTI na cidade, o sistema colapsou, chegando a ter todos ocupados, inclusive nos hospitais particulares. Depois de várias recusas, a Prefeitura conseguiu alugar vários leitos na Neurocenter, atual nome da antiga Casa de Saúde Guarulhos, na rua D. Antonia, Vila Augusta. Mesmo assim, a situação é muito preocupante.

Internautas criticam: “Por que desativaram o hospital de campanha?”, “Por que não equipam o Hospital Pimentas-Bonsucesso?”.

Antes e agora

Quando se decidiu pela desativação, o hospital de campanha estava com pouquíssimos pacientes. Não fazia o menor sentido mantê-lo, com o alto custo, se não havia naquele momento perspectiva de que a situação voltaria a se agravar e de forma tão intensa quanto está sendo. Além do mais, eram poucos leitos para pacientes com maior gravidade. Não resolveria a pandemia de agora, quando é muito maior o índice dos que necessitam de UTI. Não duvido que as mesmas pessoas que criticavam o hospital de campanha estejam agora perguntando por que o desativaram.

Ainda que se tivesse optado por equipar o Hospital Pimentas-Bonsucesso, não haveria pessoal capacitado disponível para ser contratado. Perguntam: “Onde foram parar os profissionais que trabalhavam no hospital de campanha?”. Quase com certeza foram contratados por hospitais ou por organizações sociais que administram unidades públicas.

Na época, se Guarulhos não tivesse montado o hospital de campanha, enquanto muitas cidades o fizeram, e faltassem leitos, muitos perguntariam por que Guarulhos não teria tomado a mesma atitude.

Quanto às máscaras, se não tivessem sido compradas, devido ao preço absurdo, e os trabalhadores na linha de frente não dispusessem delas para trabalhar, com certeza teriam chovido críticas à administração Guti. Se não tivessem sido fornecidas refeições ao pessoal, sem dúvida também haveria quem criticasse.

Vacinação de idosos

Recentemente, na vacinação de idosos, como eram muito poucas as doses disponíveis, José Mário optou por concentrar a aplicação no drive-thru do Bosque Maia. Diante da ansiedade das famílias, foi imensa a procura no primeiro dia de cada fase, formando grandes filas de veículos, chegando a congestionar toda a área central da cidade. As críticas eram no sentido de que seria mais racional utilizar a rede de UBSs.

Para as faixas etárias abaixo de 80 anos, concluiu-se por fazer a imunização nas UBSs, mediante agendamento via telefone. Foi um desastre: as pessoas não conseguiam ser atendidas. E muitos continuaram levando seus idosos ao Bosque e não havia ninguém ali para dar informações, o que eu critiquei.

Finalmente, a Prefeitura montou um sistema para cadastro pela internet; servidores ligam para as residências informando dia, horário e local para que os idosos sejam levados para vacinar-se. Há inúmeras postagens nas redes sociais de pessoas agradecendo o bom funcionamento e a atenção que receberam das equipes ao receberem sua dose. Ainda assim, há críticas em vários sentidos: “Por que fazer cadastro pela internet, se nem todos os munícipes têm familiaridade com a rede virtual?”, “Que maldade fazer os idosos irem se vacinar na UBS, lugar onde é muito fácil pegar covid!”.

Unidades de retaguarda

Agora, diante da escassez de leitos de alta complexidade, a Secretaria da Saúde iniciou estudos para utilizar duas UBSs, além do Ambulatório da Criança e o Cemeg Centro (situado na Vila Augusta), para dar retaguarda a UPAs e PAs. A ideia era que quatro locais funcionassem 24 horas por dia, exclusivamente para casos de covid de baixa complexidade, liberando estrutura dos PAs e UPAs.

Durante pesquisa entre servidores para saber com quem se poderia contar para esse funcionamento 24 horas, vários deles espalharam mensagens e áudios, antecipando a informação de algo que ainda estava para ser decidido. Como estava sendo difícil montar equipes em quatro locais para funcionar 24 horas, chegaram a sugerir ao secretário que uma ou outra unidade atendesse só até as 19h, o que ele rechaçou, porque não seria possível garantir que não houvesse nesse horário algum paciente necessitando continuar sendo atendido e poderia não haver vaga na UPA ou PA de origem. Resumo: isso ainda não está definido, mas internautas estão repassando mensagens como se já fosse fato consumado, causando confusão na população.

Tratamento precoce

Recebo diariamente diversas mensagens de internautas que defendem a adoção do chamado tratamento precoce, com medicamentos como Ivermectina, Hidroxicloroquina e, agora, a Proxalutamida, argumentando que há cidades, hospitais e empresas adotando esses protocolos como preventivos ou nos primeiros atendimentos, com bons resultados. A interlocutores que o abordam com essas sugestões, José Mário responde que, com 40 anos de exercício da Medicina, incluindo especialização, recusa-se a adotar procedimentos que não estejam totalmente autorizados e confirmados como eficazes pelas autoridades de Saúde. Tratamento precoce, diz ele, é fazer o diagnóstico certo e entrar com a medicação adequada a cada caso.


Medidas restritivas

O governador Doria, por exemplo, tem sido duramente criticado pelas medidas restringindo funcionamento de muitos setores da economia. Porém, a história mostra que os países que afrouxaram demais as restrições voltaram a ter intenso crescimento dos casos de covid. E quase todos os estados brasileiros tiveram de limitar as atividades, porque o sistema de saúde entrou em colapso.


Aulas presenciais

Um dos temas que mais divide opiniões: a volta ou não das aulas presenciais. São criticados tanto os que determinam que voltem quanto os que adiam. No geral, a maioria das famílias é contrária. Já entre os que trabalham na Educação, praticamente todos são contra. Detalhe: com aulas virtuais, é injusto pensar que os professores trabalham menos; chegam a ficar muito mais horas em atividade.


Moral da história

É praticamente impossível agradar a todo mundo. Se monta hospital de campanha, está jogando dinheiro fora; se desativa, foi imprudente. Se compra máscara por alto preço, houve corrupção; se não compra, é incompetente, insensível. Se concentra vacinação num local, tem queixa; se espalha nas UBSs, também. Se adotasse medicamento com eficácia não comprovada, estaria usando pacientes como cobaias; se não adota, dizem que deveria seguir o que outras cidades fazem e assim salvaria vidas. Se usa redes sociais para pesquisar disponibilidade dos servidores, tem mais gente para espalhar a suposta novidade antes do momento certo, do que se oferecendo para reforçar as equipes de atendimento.

Sou crítico da gestão do prefeito Guti em vários aspectos, pois, a exemplo de seu antecessor, entendo que falta entrosamento entre as secretarias; parece que cada um age como se fosse uma Prefeitura à parte. Costumo comparar com uma orquestra onde cada um toca uma música; falta uniformidade, harmonia.

Na questão da pandemia, entretanto, creio que é natural que sempre haja alguém criticando governador, prefeitos, secretários, pois todos estão com os nervos à flor da pele; muitos comerciantes desesperados, vendo ruir todos os seus planos; famílias aflitas vendo seus entes queridos morrendo, outros sofrendo para recuperar-se; todos recebendo um bombardeio de informações e muita gente passando adiante, sem ter certeza se é verdade. Por mais que se faça, por mais que se procure acertar, é fatal que algo saia errado; a situação é gravíssima e sempre haverá alguém reclamando e dizendo que deveriam fazer tudo diferente.

Percebo que todos que trabalham na Saúde – de forma geral – estão exaustos, dedicando-se ao máximo, tendo de se conformar diante de tanto sofrimento que veem. E, ainda assim, sendo cobrados, como se estivessem se omitindo.

Nas atuais circunstâncias, não quero estar na pele do secretário, do prefeito, do governador, nem de nenhuma autoridade. Dizia o saudoso vereador Alan (Elísio de Oliveira Neves): “Em casa que falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão”. Em tempo de pandemia, todo mundo dá opinião e todo mundo tem razão, porque ninguém sabe com absoluta certeza o que é certo ou errado.