Há um Roberto Carlos na vida de cada um de nós

 

O cantor e compositor Roberto Carlos completa 80 anos de idade nesta segunda-feira, 19. Acesso sites com a notícia e vejo muitos comentários desdenhando da carreira do astro. Então, resolvi escrever a respeito dele.

Hoje, eu ouço as canções que ele fez, não para mim. Ficaram as canções e ele continua aí, na ativa, cheio de charme, encantando as pessoas quando faz shows, infelizmente suspensos devido à pandemia.

Mas, não faz tanto tempo, estive em um no Palácio das Américas, e pude notar em cada semblante o quanto as pessoas estavam maravilhadas com seu vigor, a firmeza de sua voz e o quanto interpreta cada vez melhor cada música, detalhe por detalhe. Foram vários os shows dele a que assisti. O mais marcante, sem dúvida, foi o que ele fez no Thomeozão, em Guarulhos, quando tive a oportunidade de colocar minha mãe em uma das primeiras filas, uma emoção que o Alzheimer talvez não lhe tenha permitido sentir na plenitude. Fiquei com a impressão de que ela não entendeu bem quem era aquele cara, ali tão perto dos seus olhos. E naquela época ele ainda não cantava “Esse cara sou eu!”.

Curto Roberto Carlos desde os primeiros momentos da Jovem Guarda. Tenho uma boa coleção de seus LPS e muitos CDs, quase todos creio. Até um LP gravado em inglês, que não emplacou. Deve ser o pior da coleção: não domino o idioma, mas desconfio que a pronúncia dele não é lá essas coisas.

Pesam contra ele acusações de que a Jovem Guarda foi usada pelo regime militar para distrair a juventude com temas leves, em contraponto à luta dos artistas da MPB engajados em defender a liberdade de expressão. Entendo que é direito de cada um ater-se à sua arte e mesmo os que combateram a ditadura têm muito respeito pela carreira de Roberto Carlos. Quando montei o monólogo “Versos Roubados”, em 1990, juntando letras de músicas de dezenas de compositores brasileiros, encadeei a letra de “Eu te amo”, de Chico Buarque, a “Eu preciso de você”, de Roberto e Erasmo. Um artista local me criticou, dizendo ser um sacrilégio misturar Chico com Roberto. Discordo: ambos têm seu estilo e seu valor e a junção das duas letras a mim soa perfeita: “Te dei meus olhos para tomares conta, agora conta: como hei de partir? Eu preciso de você, porque tudo que eu pensei que pudesse desfrutar da vida, sem você não sei…

Há várias outras polêmicas sobre ele, mas eu quero apenas focar nas músicas que ele compôs e cantou. Não há dinheiro que pague.

A parceria com Erasmo Carlos é algo que sempre deixará as pessoas em dúvida: quais letras foram compostas por um ou por outro. Algumas eu arrisco dizer que têm mais a cara do Erasmo; outras, mais o jeito do Roberto. E há várias canções de outros compositores, como Isolda e Caetano Veloso, que ficaram muito bem na voz de Roberto e a minha saudade faz lembrar de tudo outra vez. Há uma força estranha que ele coloca em cada verso.

Arrisco dizer que há um Roberto Carlos na vida de cada um de nós que vivemos a juventude nos anos 1960, 70 ou 80. E, por que não dizer, na vida dos mais jovens também. Afinal, muitos intérpretes das décadas posteriores têm gravado canções da carreira de Roberto. Deve ter havido um momento em que determinada canção envolveu uma paquera, um romance ou uma despedida. Mesmo para quem não curte romantismo, há as músicas que falam da necessidade de zelar pelo meio ambiente, há que as que enaltecem a ligação com o Divino, em busca de abrigo, do conforto de um olhar amigo, e até as que tratam de temas cotidianos: será que tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda? É preciso saber viver. Conte ao menos até três; se precisar, conte outra vez: você há de lembrar de algum momento em que alguma música do Roberto tocou seu coração, serviu como um desabafo. Muito caminhoneiro deve ter corrido ao encontro dela, ouvindo o Rei na boleia. Né, meu amigo de fé, meu irmão camarada?

Eu pensei em lhe falar, quase fui lhe procurar. Sei que tenho um jeito estúpido de ser, mas você não sabe quanta coisa eu faria pra te fazer feliz pelas esquinas da nossa casa. Em nossas diferenças, nada é mais igual do que nós dois. Admirando certos detalhes que eu conheço muito bem, coisa melhor que você nesse mundo não tem. Nosso amor é assim, pra você e pra mim, como manda a receita, quando a gente se beija, se ama e se esquece da vida lá fora“. (misturando trechos de vários autores).

Enfim, com certeza a carreira dele não é a história de um homem mau, nem do lobo mau. Com saudade das emoções daquelas jovens tardes de domingo, resolvi escrever esta singela homenagem, pra dizer como é grande meu amor por você.

Valdir Carleto



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