Piora condição dos negros no mercado de trabalho durante a pandemia

 

A população negra possui inserção mais desfavorável do que a não negra no mercado de trabalho, expressa em mais desemprego, maior parcela no trabalho informal e menor renda. A pandemia da Covid-19 fez com que essas desigualdades estruturais se acentuassem em um curto período, como mostra a pesquisa Trajetórias Ocupacionais, realizada pelo Seade na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP).


As informações da população de 18 anos e mais no último trimestre de 2019 e de 2020 mostram que a taxa de participação dos negros diminuiu de 78,7% para 74,2%, enquanto a de desemprego aumentou de 15,2% para 20,6%, ambos para patamares mais elevados que o dos não negros.
No primeiro ano da pandemia, os negros foram fortemente afetados pela crise, com maior dependência de mecanismos de transferência de renda, maior desalento e menor isolamento social devido à necessidade de trabalho presencial.

De acordo com pesquisa do Seade, no primeiro ano da pandemia, os negros foram fortemente afetados pela crise na Região Metropolitana de São Paulo, com maior dependência de mecanismos de transferência de renda, maior desalento e menor isolamento social devido à necessidade de trabalho presencial.

24 em cada 100 negros ocupados ficaram sem trabalho em 2020

Entre os negros ocupados em 2019, 24% não estavam mais trabalhando no final de 2020, sendo que metade foi para o desemprego e outra metade para a inatividade.

Entre os desempregados em 2019, parcela maior de negros que de não negros conseguiu se reinserir (38% e 32%, respectivamente). Contudo, para os dois segmentos, a maioria dos que estavam desempregados permaneciam sem trabalho em 2020.

Apenas 17% dos negros ocupados fizeram trabalho remoto

As diferenças entre negros e não negros em relação à redução de jornada e interrupção de trabalho não são expressivas. O diferencial é observado em relação ao trabalho remoto, uma vez que apenas 17% dos ocupados negros em 2020 passaram para este regime de trabalho, metade da parcela de não negros (34%). Essa menor possibilidade de manter o isolamento por meio do trabalho remoto se deve ao fato de, entre os negros, ser maior a parcela em ocupações não protegidas e em atividades consideradas essenciais durante a pandemia, como transporte e serviços de limpeza.

Entre os negros que permaneceram ocupados entre o final de 2019 e o de 2020, 85% não mudaram de trabalho. Entre estes:

• 29% tiveram redução da jornada de trabalho;

• 44% vivenciaram interrupção de trabalho durante a pandemia;

• 34% passaram a ter uma renda de trabalho menor;

• 7% ficaram sem rendimento por algum período.

Desalento teve maior peso para a inatividade dos negros

O perfil dos desempregados se diferencia pela maior presença, entre os negros, de chefes de domicílio, cônjuges, mulheres, adultos e aqueles com até o ensino superior incompleto. Como meio de sobrevivência, 26% dos negros desempregados realizaram algum bico.

A migração para a inatividade foi menos intensa para os negros. Mas os motivos dos inativos negros para não procurarem trabalho se distinguem aos dos não negros pela maior relevância da dificuldade em conseguir trabalho (28%) e a problemas de saúde (18%). Entre os negros que estavam na inatividade, 9% realizaram algum bico como forma de geração de renda durante a pandemia.

Parcela maior de negros precisou do auxílio emergencial

Entre os mecanismos de proteção à renda do trabalho, o maior diferencial está no recebimento do auxílio emergencial. Entre os negros, 33% receberam o auxílio na RMSP, percentual superior ao de não negros (27%).

O Seade – Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados –   é a agência paulista de estatísticas que há mais de 40 anos coleta, analisa e dissemina dados sobre o Estado de São Paulo.