SP amplia horário de comércio a partir de hoje; especialistas criticam

 

O governo de São Paulo ampliou o horário de funcionamento de lojas, shoppings, restaurantes, salões de beleza, academias e outros estabelecimentos comerciais, que a partir deste sábado (1º) poderão funcionar das 6h às 20h, o equivalente a 14 horas diárias. Antes da mudança, a fase de transição permitia o funcionamento apenas por 8h diárias, das 11h às 19h, para a maior parte dos setores (veja na tabela abaixo o que muda).

Segundo oito pesquisadores ouvidos pelo G1, a expansão de horários pode levar a maior risco de transmissão da Covid-19 no estado.

Membros do Observatório COVID-19 BR dizem que a mudança traz preocupação porque a flexibilização das regras foi baseada principalmente na queda da taxa de ocupação dos leitos de UTI, considerado “um indicador fraco e tardio da evolução da pandemia, segundo a própria Organização Mundial da Saúde (OMS)”.

“Basear aberturas e fechamentos neste índice é, na verdade, administrar as piores consequências da pandemia, que são as hospitalizações de casos graves. Para piorar, ainda temos muitas internações, e o prognóstico destes casos não é bom”, dizem os membros do observatório Rafael Lopes (UNESP), Tatiane Moraes (Fiocruz), Lorena Barberia (USP), Paulo Inácio Prado (USP) e Vitor Mori (University of Vermont) em carta conjunta.

Para os pesquisadores, aumentar o horário dos estabelecimentos aumenta o tempo de exposição da população ao coronavírus – e, portanto, o risco de contrair a doença.

“O risco de se infectar aumenta com o tempo que se permanece em locais onde pessoas infectadas estão ou estiveram”, explicam. “Quanto mais tempo os locais em que este risco existe ficarem abertos, maior o risco. E quanto mais tempo um local fica aberto, maior a chance de que passe por lá uma pessoa infectada”, dizem os especialistas.

Limite de 25% da capacidade

A etapa de transição permite a abertura dos mesmos setores liberados nas fases amarela e laranja, mas com a limitação de 25% da capacidade máxima de cada estabelecimento.

No entanto, a regra de funcionar com até 25% da lotação, é, na prática, uma recomendação, segundo os termos usados pelo próprio governo estadual no decreto publicado no Diário Oficial.

“Recomenda-se que a ocupação de espaços de acesso ao público seja limitada a, no máximo, 25% das respectivas capacidades”, afirma o decreto estadual que instituiu a fase de transição.

A fase transitória foi criada para ficar entre as fases vermelha e laranja, mas permite horários mais amplos do que esta última. Nas fases laranja e amarela da quarentena, que são, em tese, menos restritivas do que a fase de transição, a recomendação é a de que a capacidade dos estabelecimentos seja limitada a 40%.

A coordenadora de fiscalização do Centro de Vigilância Sanitária Estadual de São Paulo, Elaine D’Amico, reconhece que o percentual da fase transitória é uma recomendação, mas defende que o objetivo da fiscalização é coibir aglomerações. “A gente não vai na fiscalização determinar que se ele tem capacidade de receber 100 pessoas, se ele tiver 26 pessoas está acima de 25 e vai ser autuado”, diz D’Amico, da vigilância sanitária.

“A fiscalização sempre vai utilizar o bom senso, e o objetivo é não aglomerar. O que nós vamos avaliar é o distanciamento entre as pessoas, e não promover aglomeração. Agora, com os 25%, é preciso uma maior área de intervalo entre as pessoas e mesas”, explica.

Os pesquisadores do Observatório Covid-19 BR avaliam que a recomendação de limitar o público a 25% da capacidade de cada estabelecimento deveria vir acompanhada de uma preocupação maior com a ventilação dos ambientes.

“Não há um número mágico de ocupação máxima, ou um patamar em que haja total segurança. Sempre há um risco de transmissão quando há pessoas compartilhando o mesmo espaço”, explicam.

Desrespeito à quarentena

O primeiro final de semana da fase de transição da quarentena, no último sábado (25) e domingo (26), foi marcado pelo desrespeito às recomendações do Plano São Paulo na capital paulista e pelas baixas taxas de isolamento social no estado.

A Polícia Militar dispersou aglomerações e festas em São Paulo na noite do domingo (25), segundo dia da reabertura de museus, parques, restaurantes, academias, clubes e salões de beleza no estado.

A taxa de isolamento social registrada na data foi a menor para este dia da semana desde o final de fevereiro, com 49% na média estadual.

Uma fila de carros foi registrada em uma das portarias de entrada do estacionamento do Parque Ibirapuera no último domingo. Dentro dele, o que se viu foi uma multidão se aglomerando. Em nota, a administração do parque afirmou que respeita os protocolos de segurança do Plano São Paulo.

Já no Aquário de São Paulo, uma fila de pessoas se aglomerava para entrar no local. Segundo os visitantes, um dos motivos foi a campanha “Aquário de SP contra a fome”, que trocava 2 kg de alimentos não perecíveis por um ingresso.

Em nota, o Aquário de São Paulo disse que, entre sábado (24) e domingo (25), foram arrecadadas 8 toneladas de alimentos. “Não excedemos em nenhum momento a cota de visitação de 25% do Plano SP. Muita gente foi lá fazer doações voluntárias e não quis entrar”, disse o comunicado.