Em outubro de 2019, Fabian e Meire Noda, residentes na Vila Progresso, em Guarulhos, estiveram por poucas horas em um templo budista em Campinas, com os filhos Júnior e Nícolas. Não poderiam imaginar que ali se iniciava uma batalha entre a vida e a morte que a família venceu após muita preocupação, orações e o apoio de inúmeras pessoas.
Após a visita, Nícolas, que tinha na época sete anos e quatro meses, começou a apresentar sintomas que poderiam ser confundidas com gripe ou qualquer outra doença. Como ele não melhorava, os pais o levaram ao Pronto Socorro Infantil do Hospital Dr. Edmundo Vasconcelos, na zona Sul de São Paulo. Medicado, foi liberado para casa, com suspeita de infecção viral. No dia seguinte, porém, foi novamente levado ao hospital, ficando internado e passando por variados exames, alguns dos quais teriam o resultado apenas depois de 15 dias, mesmo sendo solicitada urgência ao Instituto Adolfo Lutz.
Fabian ressalta que o filho só sobreviveu porque foi atendido por uma equipe multidisciplinar e o diagnóstico certeiro foi obtido antes do resultado dos exames.
“A confirmação de febre maculosa só sai em 15 dias. Porém, a doença pode ser fatal em três dias. Nícolas teve muita sorte de terem identificado rapidamente o que era e que passou a ser medicado corretamente”, afirma.


O caso de Nícolas movimentou tanto a equipe do Hospital Dr. Edmundo Vasconcelos, que o médico que o atendeu, Platiny Benício Calou, apresentou, em conjunto com Adriana Alicia Camargo Orellana, Trabalho de Conclusão de Curso sobre o desenvolvimento da doença que acometeu o garoto, as complicações havidas, os tratamentos a que foi submetido e as conclusões a que chegaram, após os 48 dias em que Nícolas esteve na Unidade de Terapia Intensiva do hospital. O TCC teve como orientadora a doutora Paula Massaroni Peçanha Pietrobom.
Os médicos citam no trabalho que Nícolas teve febre maculosa complicada por síndrome hemofagocítica (SFH) e que isso constituiu uma situação de alta letalidade, com danos respiratórios, cardiovasculares, renal, hematológicos, gastrointestinais e neurológicos. Demonstraram que há estudos indicando que a febre oriunda do carrapato estrela costuma levar a óbito 60% dos pacientes. Houve momento, entretanto, que a situação de Nícolas ficou tão grave, que a equipe cogitou que ele estava com 98% de possibilidade de ir óbito.
Entre as conclusões, apontaram:
“A síndrome hemofagocítica resulta de numerosos fatores etiológicos e patogênicos, apresentando uma clínica inespecífica, devendo ser suspeitada e diagnosticada precocemente, possibilitando assim uma terapêutica adequada. Além do diagnóstico e tratamento precoces, é de extrema importância estabelecer o acompanhamento do paciente com síndrome hemofagocítica e/ou febre maculosa em uma unidade de terapia intensiva e com equipe multidisciplinar, para que haja uma estabilidade clínica em tempo hábil e evite assim possíveis complicações”.
A somatória dessas condições salvou a vida de Nícolas. Mas, Fabian vai mais longe:
“Nosso filho só sobreviveu porque tivemos a ajuda de muita gente. Ele precisou de muitas transfusões de sangue e de plaquetas. Houve uma forte campanha de doação, que contou com muitos doadores, aos quais seremos eternamente gratos. Entre o período de internação e a continuidade do tratamento em casa, ele foi atendido por uma equipe multidisciplinar que deve ter chegado a 50 profissionais. Além de todo esse aparato técnico e científico, tivemos o amparo de uma verdadeira multidão de amigos, irmanados conosco em orações. Não temos dúvidas de que isso também foi fundamental”, afirma.
Depois de um período em que Nícolas não se comunicava e não andava, ele passou por muitas sessões de fisioterapia motora e respiratória, fonoaudiologia, terapia ocupacional, com atendimento médico em pediatria, cardiologia, neurologia e cirurgia pediátrica.
Nícolas teve plena recuperação, voltou a frequentar a escola e leva vida normal. Quatro anos depois de passarem por essa verdadeira saga e diante das várias mortes que vêm ocorrendo, vitimando pessoas que foram picadas pelo carrapato estrela, Fabian e Meire entenderam importante contar sua experiência, alertando as famílias para os devidos cuidados quando forem a lugares onde seja propícia a proliferação do parasita e, diante de sintomas que possam indicar a ocorrência de febre maculosa, procurar ajuda médica com a máxima urgência, ainda que, evidentemente, poucos podem contar com a estrutura que, felizmente, Nícolas pôde ter a seu favor.
“Quando o paciente apresentar os sintomas, os médicos devem pedir o exame e administrar o antibiótico o quanto antes, porque cada minuto faz diferença ao diagnosticar a febre maculosa”, defende.
Quanto às providências tomadas em relação ao ocorrido com Nícolas, o casal lamenta que as autoridades de Campinas tenham se limitado à colocação de placas de aviso ou notificação ao estabelecimento, além de projeto para castração de capivara. Fabian diz que não vê isso como suficiente:
“As medidas têm de ser contra o carrapato e não contra o hospedeiro”, comenta, acrescentando:
“Cuidar das áreas publicas como parques, terrenos baldios, beira de lagos e córregos com um pesticida e criar um protocolo pelo qual os donos de fazendas sejam obrigados a cuidar de seus animais, fazendo assim um trabalho de prevenção”.
Embora ele tenha informado o local onde Nícolas foi infectado, não ficou sabendo de nenhuma providência para sanar o problema e evitar que haja outras vítimas.
Fabian conclui citando que o Hospital Dr. Edmundo Vasconcelos na ocasião notificou tanto a Prefeitura de Campinas quanto a de Guarulhos. A Secretaria da Saúde de Guarulhos o contatou por duas vezes, para saber mais a respeito do local onde o garoto havia sido picado, para se certificarem de que, de fato, não havia sido em Guarulhos.
“Eles se colocaram à disposição, caso houvesse necessidade. Entendemos que foi um gesto de atenção com nossa família”.



