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A chegada ao País dos Invisíveis

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O Click Guarulhos dá sequência à série de artigos de Alek Honse, iniciada no domingo 18/2.

A primeira noite na rua não é a pior. Lembro-me bem do dia que carimbei meu passaporte e adentrei neste País de incertezas, insegurança, medo, fome, frio e – como o nome diz, Invisivel – deixando para trás a vida que eu tinha.

 

Era fim de tarde de uma segunda-feira do final de janeiro do ano I da pandemia. A tarde estava abafada e nuvens carregadas anunciavam o aguaceiro que cairia sobre a cidade mais populosa e rica do Brasil. Lembro-me de perambular pelas ruas, sem rumo, com duas mochilas que continham tudo que me sobrara da vida. Depois da chuva, procurei um lugar para me acomodar e passar a noite. Já acomodado, fiz minhas orações e pedi a Deus que me mostrasse um caminho. Apesar da dor e da fome, tinha o coração cheio de esperança e a alma repleta de fé.  “Será só por hoje, amanhã as coisas irão se resolver e vou rir desta situação “, pensei.

Talvez por isso fiquei em um lugar isolado, longe dos outros invisíveis: “Não sou um deles”, repetia para mim mesmo.

A segunda noite também não é tão ruim. Também a terceira, a quarta, quinta, sexta e sétima.

Todas são iguais. As dores são as mesmas, mas a fé, a esperança e o desejo de que tudo vai se resolver rapidamente são mais fortes.

A pior noite no País dos Invisíveis é a oitava. O quadro vai se desenhando e uma rotina se estabelece.  No meu caso, a oitava noite era a segunda-feira seguinte. Naquele momento começa-se a pensar na possibilidade de aquela ser a nova condição. Comecei a temer que a dificuldade não fosse apenas passageira, que o desejo de sair poderia ser mais um sonho não realizável, que a esperança já não era factível e a fé muito mais vacilante do que eu pensava.

As noites se sucederam, semanas, meses e anos se passaram desde aquela segunda feira. Tive de me socializar com meus pares para aprender a sobreviver neste país inóspito. Embora não pareça aos olhos dos que passam apressados pelas ruas da cidade, aqui há determinadas regras, não escritas, mas sempre cumpridas. A transgressão dessas leis gera punições que vão desde reprimenda, agressões, banimento do lugar e, em casos gravíssimos, até em morte.

Dizem erroneamente por aí que Darwin escreveu que “na natureza o mais forte sobrevive”. Não foi isso que o explorador inglês disse. O que ele escreveu foi “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. Tive de me adaptar para sobreviver aqui no subsolo da pirâmide social e, se tiverem paciência, vou relatar aqui neste espaço a vida no País dos Invisíveis.

Alek Honse é jornalista, filósofo e escritor, autor de Alek no país dos invisíveis, Crônicas do país dos invisíveis, Melancolia, Fratura Exposta, entre outros. É também idealizador do projeto invisíveis. Nesta série de artigos, que serão publicados nos próximos dois domingos e na Semana Santa, ele relata sua saga vivendo nas ruas da região central de São Paulo, até recentemente.

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