Reza a tradição cristã que Judas Iscariotes traiu Jesus por 30 moedas, mas essa também não é uma unanimidade entre os teólogos, historiadores e exegetas. Há uma corrente que acredita que não foi o dinheiro que motivou a traição. Para estes, Judas faria parte de uma facção política, os Zelotes, que visavam tomar o poder dos fariseus, causar uma revolução e expulsar os romanos. Segundo essa tradição, Juda depois de ter visto tudo que Jesus fizera, não tinha dúvidas de que o Nazareno era mesmo o Messias esperado e então teria armado a traição, pensando que Jesus não se deixaria matar; pelo contrário, lideraria a revolta e Israel, enfim, seria livre.
Ao perceber que esses não eram os planos do Galileu, ambas tradições concordam que Judas lançou fora as moedas e enforcou-se.
Seja como for, independente de suas intenções, Iscariotes nunca mais foi esquecido, tanto que hoje, sábado de aleluia, ele é lembrado em um ritual de malhação, como a lembrá-lo que ele é o traidor do Salvador, contrariando um dos maiores ensinamentos do Cristo que é o perdão.
Então, para manter essa tradição viva, construa hoje um Judas para malhá-lo.
Pegue as calças do orgulho, coloque o cinto da avareza, a linda camisa da vaidade, costure bem com a linha da inveja, calce as meias e os sapatos das mentiras e intrigas e o belo paletó da cobiça. Encha tudo com a palha do egoísmo, da ira, da soberba e da indiferença; ao lado do coração, coloque o desamor e a falta de caridade.
Depois de pronto, enlace no pescoço a corda do fanatismo religioso ou político e pendure no poste do preconceito. Por fim, escreva seu nome no boneco. Está pronto.
Agora é só jogar as pedras da indiferença, bater com o porrete do segregacionismo e, por fim, queimá-lo, usando seu julgamento duro para as faltas alheias.
Após esse ritual, quem sabe você (que também sou eu) não consiga matar o Judas que vive em ti, em nós. O Judas que nos habita e faz com que fechemos os olhos para os Invisíveis do mundo?
Judas traiu Jesus uma única vez. Nós o traímos a cada dia, a cada manhã, quando negamos o bom dia ao porteiro, quando, atrasados, causamos caos no trânsito, quando sonegamos impostos que serviriam para programas de moradia, educação e saúde dos menos favorecidos.
Nós o traímos cada vez que negamos o pão aos famintos, o olhar de compaixão aos moribundos, quando negamos a oração aos que sofrem. Traímos Jesus cada vez que passamos pelos Invisíveis e pensamos que são todos vagabundos.
Vamos malhar o Judas que vive em nós.
Podem ter certeza que, ao fazermos isso, o próprio Jesus desta vez ficará feliz e todo o sofrimento que sentiu na Via Crucis não terá sido em vão.
Vamos manter a tradição e malhar o nosso próprio Judas, para que as virtudes ensinadas pelo Mestre possam tomar lugar em nossas vidas, transformando assim nosso mundo em um lugar mais justo, solidário e tolerante.
Os excluídos, os perseguidos e os Invisíveis e o Próprio Jesus agradecem.
Sobre o autor
Alek Honse é jornalista, filósofo e escritor; autor de “Alek no país dos invisíveis” entre outros. Viveu até recentemente, na própria pele, a saga de morar nas ruas da região central da cidade de São Paulo e conta nesta série de artigos um pouco dessa realidade. No domingo de Páscoa será postado o último artigo da série.
Ele criou o Projeto Invisíveis (apoia.se/projetoinvisiveis), com o qual procura ajudar outras pessoas em situação de rua a conseguir um lugar para morar. Quem puder contribuir pode enviar qualquer quantia por pix para a chave 11981518718 (a conta é de Alexandre Rodrigues).

