InícioCANAISMULHER46% das mulheres brasileiras se sentem desrespeitadas

46% das mulheres brasileiras se sentem desrespeitadas

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Quase metade das brasileiras (46%) acredita que as mulheres não são tratadas com respeito no país. A sensação não é isolada: ela se repete em casa, no trabalho e, principalmente, nas ruas, onde 49% delas dizem que as mulheres não são respeitadas.

Os números são da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, o maior levantamento do país sobre o tema, realizado pelo DataSenado e pela Nexus, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), do Senado Federal.

Parte do estudo integra o Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma criada pela OMV com apoio do Instituto Natura e da associação Gênero e Número para reunir informações oficiais do Ministério da Justiça, Ministério de Relações Exteriores, SUS, IBGE e outras fontes.

A nova edição da pesquisa do DataSenado e da Nexus ouviu mais de 20 mil mulheres em todas as regiões do país e expõe que a percepção é de que o machismo segue sendo regra, e não exceção.

Principais Pontos da Pesquisa (2025):

  • Percepção Geral: 46% das mulheres sentem que as mulheres não são respeitadas no Brasil.
  • Machismo: 94%, ou seja, mais de 60 milhões de mulheres classificam o Brasil como um país machista.
  • Locais de Menor Respeito: A rua é apontada como o local de menor respeito (49%), seguida pelo ambiente doméstico, pela família (21%) e de trabalho (25%).
  • Aumento da Insegurança: Houve um aumento significativo (4 pontos percentuais) na percepção de insegurança dentro de casa em comparação com 2023.
  • Violência: 79% das mulheres percebem um crescimento da violência, e 90% já passaram por alguma situação de desrespeito. 

Sensação de desrespeito dentro de casa aumentou nos últimos anos

Desde 2011, a rua é o ambiente mais mencionado como local de maior desrespeito. Ainda que a quantidade de mulheres com esta percepção tenha caído 3 pontos percentuais entre 2023 e 2025, quase metade (49%) das entrevistadas ainda afirma que é nas vias públicas que as mulheres ficam mais vulneráveis. Já a percepção de que o desrespeito é maior dentro de casa aumentou 4 pontos, o que corresponde a cerca de 3,3 milhões de mulheres a mais que passaram a ver o ambiente familiar como o lugar mais inseguro. No ambiente de trabalho, não houve alteração significativa, mas este permanece sendo o segundo ambiente em que as mulheres percebem que há menos respeito.

“Esse aumento da declaração sobre desrespeito na família pode estar relacionado a uma maior conscientização das mulheres em relação à violência doméstica e familiar. Embora seja preocupante a percepção de que as mulheres não são respeitadas no círculo social mais íntimo, aquele que, em tese, deveria ser um espaço de proteção e acolhimento, isso vai ao encontro dos números altos de violência doméstica no país. Infelizmente, não é só a rua que apresenta perigo e desrespeito, conforme demonstram nossos altos índices de feminicídio”, comenta Beatriz Accioly, antropóloga e líder de Políticas Públicas pelo Fim da Violência Contra Meninas e Mulheres do Instituto Natura.

Violência de gênero segue em alta

Desde 2017, cerca de oito em cada dez mulheres acreditam que a violência doméstica aumentou no país. Em 2025, 79% afirmaram perceber um crescimento da violência. Quando perguntadas sobre a reação das vítimas:

  • Apenas 11% acreditam que mulheres denunciam “sempre” ou “na maioria das vezes”;
  • 23% dizem que as vítimas não denunciam;

A percepção de que o Brasil é um país machista continua praticamente unânime entre as mulheres. Em 2025, 94% delas afirmam viver em um país machista, mesmo índice de 2023. O que mudou foi a intensidade: o grupo que considera o Brasil muito machista subiu de 62% para 70% em dois anos, o que representa 8 milhões de mulheres a mais com avaliação mais crítica sobre a desigualdade de gênero.

Desde 2017, o percentual nunca ficou abaixo de 90%, e apenas 2% das brasileiras dizem não ver machismo no país. O aumento da percepção de machismo caminha junto com a sensação de que a violência doméstica cresceu: 79% das mulheres acreditam que esse tipo de violência aumentou nos últimos 12 meses, retomando o maior patamar da série histórica.

Diferenças regionais e escolaridade

As diferenças na percepção de respeito também variam de acordo com a região do país. No Sul, por exemplo, 53% das mulheres afirmam que “às vezes” as mulheres não são tratadas com respeito, o maior índice entre todas as regiões. Já no Nordeste, metade das entrevistadas (50%) diz que as mulheres não são respeitadas.

Embora sem diferença estatisticamente significativa em relação ao Nordeste, o Sudeste aparece logo em seguida, com 48% afirmando que as mulheres não são respeitadas, seguido do Centro-Oeste (44%) e do Norte (41%). Apesar das variações, em todas as regiões há uma presença significativa de mulheres que oscilam entre o respeito ocasional e o completo desrespeito, o que demonstra que o sentimento de instabilidade na forma como a sociedade trata as mulheres é generalizado.

“Os dados ajudam a dimensionar como a violência contra a mulher deixa de ser um assunto restrito à esfera doméstica e passa a ser estrutural, com efeitos sociais e econômicos de longo prazo”, aponta Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência no Senado Federal.

Quando os dados são analisados a partir do nível de escolaridade, o cenário revela desigualdades ainda mais profundas. Entre as mulheres não alfabetizadas, 62% afirmam que as mulheres não são tratadas com respeito, índice muito superior ao registrado entre as que concluíram o ensino superior (41%). A percepção de respeito aumenta conforme cresce o nível de instrução, mas não desaparece completamente: mesmo entre mulheres com diploma universitário, apenas 8% dizem que as mulheres são plenamente respeitadas. As maiores variações se concentram nas faixas com ensino médio e superior incompleto, em que mais da metade das entrevistadas afirma que as mulheres são tratadas com respeito apenas “às vezes”, revelando que a escolaridade pode reduzir, mas não elimina, a percepção de desrespeito e machismo estrutural.

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