Por Tamiris Monteiro
Com o aumento da expectativa de vida, idosos encaram novos hábitos e mostram-se cada vez mais ativos.
Você já se imaginou com 90 anos? Talvez, há quatro décadas a resposta fosse não, considerando que chegar aos 60 era um enorme desafio; mas hoje, provavelmente, uma maioria diga que sim; afinal, em todo o mundo, as pessoas estão vivendo por mais tempo e desfrutando de uma velhice mais ativa e saudável. De acordo com projeções da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), até 2030 a proporção de idosos em relação à de pessoas com até 15 anos deve dobrar, passando a representar 20% da população paulistana.
No geral, atualmente, a expectativa de vida do brasileiro corresponde a 76 anos, o que representa o dobro do observado na década de 50, que era de 40 anos. Avanços no campo da medicina, nutrição, higiene e tecnologia são as principais causas em relação à mudança desses números. Outros aspectos importantes estão inseridos no desenvolvimento de políticas de saneamento básico, eficácia no combate às doenças infecciosas e doenças degenerativas típicas da velhice e, ainda, na introdução de hábitos saudáveis, como as atividades físicas.
Para Elisa Mariz, autora do livro “Além dos 60” e pesquisadora de empreendedorismo com foco em pessoas com mais de 60 anos, a principal diferença entre os idosos de antes para os de agora é a aceitação da longevidade como uma oportunidade de viver com mais autonomia e liberdade, e também a percepção de que é possível dar continuidade a projetos que ficaram engavetados ao longo da vida. Outra diferença significativa identifica por ela, é a busca por um espaço adequado para chegar até o fim da vida sem depender dos filhos. “Nas minhas pesquisas feitas face a face, em mais de uma centena de depoimentos, eles declaram que não querem sobrecarregar a família, reconhecendo a mudança no estilo de vida dos filhos em relação ao trabalho, tipo de residência e a impossibilidade de assumirem tarefas de cuidadores dos pais, avós ou tios”, explica.
Além do aspecto familiar, o lado profissional é outra particularidade que mudou dentro desse novo estilo de vida dos idosos. Não se pode dizer mais que alguém chega ao fim da carreira aos 60. “A prática mais comum é aquela em que as pessoas se aposentam e continuam ativas em funções que oferecem mais autonomia e independência na execução das tarefas e gestão do trabalho. Há ainda àquelas que empreendem num negócio próprio e, na maioria dos casos, trabalham um número maior de horas; contudo, têm horários mais flexíveis, maior independência e maior realização pessoal”, destaca Elisa.
É o caso do aposentado Douglas Parro, que aos 74 anos não deixa de aparecer na empresa que administra um dia sequer. “Só não venho quando tenho algum problema de saúde. Nunca pensei em parar. Vou ficar em casa fazendo o quê? A gente fica bitolado. Nem férias costumo tirar, as vezes que me ausento é quando vou com a minha esposa descansar uns dias na casa de alguns parentes em Votuporanga (SP), mas nunca fiquei um mês longe. Eu adoro fazer o que faço, e trabalhar me faz bem”, conta. Além do trabalho, Douglas tem uma vida social bastante agitada, pois gosta de praticar atividades físicas como hidroginástica e frequentar bailes da terceira idade para dançar, tudo acompanhado pela “patroa”, como ele mesmo diz.
CORPO E MENTE SADIOS
Praticar atividade física é uma recomendação que vale para a vida toda, mas com o avançar da idade torna-se ainda mais essencial. Com o tempo, acontece uma perda natural, porém, significativa de flexibilidade, equilíbrio, coordenação motora e força, e ao exercitar-se, o idoso consegue diminuir a velocidade da perda de massa muscular e da densidade óssea, retardando os sinais do envelhecimento, tanto que com esse entendimento houve um crescimento no número de idosos que iniciaram alguma atividade nos últimos 20 anos.
O curioso é que eles têm ido além da hidroginástica, pilates ou musculação e hoje já existem muitas pessoas acima dos 60 anos que são atletas profissionais, como o corredor Carlos Laranjo, de 65 anos. Aposentado desde os 56 anos, Carlos ainda trabalhou por conta por mais alguns anos, mas decidiu ir aproveitar a vida e dedicar-se ao esporte. “Com 59 anos me desliguei de tudo relacionado a trabalho e decidi só treinar. Hoje corro profissionalmente e já subi ao pódio mais de 50 vezes”, afirma.
Vale lembrar que a rotina do aposentado é puxada. Carlos corre todos os dias, tem acompanhamento médico e faz uma alimentação reforçada, com vitaminas e suplementos. Para se ter ideia, nas competições ele consegue correr uma distância de 10 quilômetros em 43 minutos. Para avançar, está em busca de patrocínio.
IMPACTO SOCIAL
Saber que as pessoas viverão mais é uma ótima notícia, mas no Brasil até o que é bom pode ficar ruim. Com o aumento da expectativa de vida, o País precisará adaptar-se aos habitantes mais velhos, e isso inclui desde acessibilidade e novas vagas no mercado de trabalho até transformações nos sistemas médico e previdenciário. O rombo na previdência, por exemplo, levou o governo a propor regras mais duras para ter acesso aos direitos trabalhistas, isso porque há 30 anos as pessoas se aposentavam e depois não tinham muito mais tempo de vida, o que fazia com que o benefício fosse pago por poucos anos. Com a nova expectativa, o cálculo não fecha e por isso tem acontecido tantas discussões em torno da idade mínima da aposentadoria.
Contudo, num aspecto geral, de acordo com a pesquisadora Elisa Mariz, apesar de na sociedade ainda existir preconceito e intolerância em relação aos idosos, a vida ativa deles e o crescimento dessa população no Brasil já sinalizam mudanças favoráveis. “A presença e a participação do idoso nas esferas da sociedade, sejam as de trabalho, lazer, cultura ou atividades físicas, começam a quebrar velhos paradigmas e a construir novos. A vida ativa dos idosos os leva a convencer a sociedade, e a eles próprios, sobre as suas reais potencialidades”, pontua.
TOP AOS 59
A francesa Yasmina Rossi começou a carreira aos 28 anos – idade considerada tardia para o mundo da moda – e viu sua carreira ascender depois dos 45 anos, quando se mudou para Nova York e foi destaque em campanhas da Macy’s e AT & T. Mas a fama veio mesmo há três anos, depois dos 55, quando estampou a campanha de Natal da Marks & Spencer, rede de lojas de departamento britânica. Com cabelão grisalho e o corpo sequinho, sem cirurgia plástica – de acordo com ela -, a modelo garante que se sente muito mais feliz e de bem com o a própria aparência do que quando tinha 20 anos.
95 COM CARINHA DE 50
Kazim Gurbuz é um mestre de ioga turco, de 95 anos, que virou assunto na internet por aparentar ter muito menos idade do que realmente tem. Em excelente forma física, Gurbuz revelou que nem sempre teve uma vida saudável, mas que tudo mudou após quebrar a coluna quando tinha 41 anos. O diagnóstico foi de que ele nunca mais andaria, poré
m, depois de meses de tratamentos conseguiu recuperar os movimentos. Além de ser mestre de ioga, o turco faz natação, caminhadas e esquia durante o Inverno. Segundo Kazim Gurbuz, o poder da mente o ajuda a permanecer jovem, pois quando o cérebro é usado corretamente, tem a capacidade de regenerar músculos e o sistema nervoso.

