Cenário das eleições 2020 em Guarulhos

Pelas andanças e atividades de alguns políticos de Guarulhos, fica evidente que a campanha de 2020 para a Prefeitura  já começou.

O prefeito Guti tem posto muito mais a cara para fora do gabinete, participando de eventos da iniciativa privada e inaugurações e visitado bairros e obras. Não resta dúvida de que ele busca recuperar prestígio no pouco tempo que resta de sua administração, pois sabe perfeitamente que boa parte da população arrependeu-se de ter votado nele.

A força-tarefa de tapa-buracos é uma atitude que, de certa forma, demonstra reconhecimento de que a situação havia chegado a um ponto insustentável.

Há poucos meses, escrevi que se a eleição fosse naquele momento, Guti sequer iria para o segundo turno. Depois que a Sabesp assumiu o Saae, reduziu muito o volume de queixas de falta d’água. Somado esse fator e os consertos na malha viária, pode ser que a imagem de Guti tenha melhorado perante o eleitorado. Falo por mero achismo, sem base em nenhuma pesquisa. Creio que o prefeito tenha números que mostrem melhor isso do que esta mera opinião pessoal, que tem por fundamento única e exclusivamente o que capto das ruas, principalmente nos contatos com microempresários, nas mensagens que recebo dos internautas, bem como dos comentários que as pessoas postam nas redes sociais.

Aprendi a ver com desconfiança esses comentários, porque muitos são de fakes ou pessoas interessadas em elogiar ou denegrir. Ou até pagas para isso.

Um ponto que continua péssimo para a imagem da gestão Guti é a saúde. Todos os esforços ainda não tiveram bom resultado e as queixas são infinitamente maiores do que os elogios. Isso pode ser crucial para nova vitória nas urnas.

Creio que as chances de Guti reeleger-se estão mais na fragilidade de seus concorrentes do que em seus próprios méritos. É verdade que ele tem a máquina administrativa na mão, apoio de alguns partidos que estiveram contra ele em 2016. E mais um ano e três meses para mostrar serviço e maturidade. Afinal, quando chegar a eleição, terá, salvo engano meu, 35 anos e já não poderá ser chamado de garoto como o foi na disputa anterior. Mas o desgaste de ser vidraça é imenso, a começar pela insatisfação de parte do funcionalismo público.

Os dois nomes mais fortes que cogito que tenha pela frente sã o da empresária Francislene Corrêa (PSDB) e do ex-prefeito Elói Pietá. Mas, outros precisam ser analisados também.

Ela é uma total incógnita. É a primeira vez que enfrentará as urnas com seu próprio nome. Faz campanhas eleitorais desde criança, pois seu pai, o saudoso Francisco Assis de Almeida, foi candidato várias vezes. Mesmo quando não concorreu, ele participou ativamente de campanhas. Fran, como prefere ser chamada, casou-se com o único deputado estadual que era solteiro na época, Adriano Eli Corrêa, que adotou o nome de Eli Corrêa Filho, para valer-se da popularidade do pai radialista. Com exceção de uma vez, ele reelegeu-se seguidamente e cumpre mais um mandato de deputado federal. Embora tenha perdido fragorosamente para Guti em 2016, conseguiu a façanha de deixar o PT, que era poder na cidade há 16 anos, fora do segundo turno.

Fran tem apoio declarado e entusiasmado do governador João Dória, que fará tudo que puder para derrotar Guti, que fez tudo que pôde para apoiar Márcio França ao governo paulista. Fran tem muito dinheiro, não dependerá de doações. Pode custear com tranquilidade as campanhas de centenas de candidatos a vereador, de vários partidos. Conta com o fato de ser mulher como uma novidade positiva, em um tempo em que mulheres têm se destacado nas mais diversas atividades.

Mas… E sempre há um mas… Essa fórmula já deu errado no passado e pode dar errado de novo. Afinal, o quanto somou a Eli em 2016 a dobrada com o PDT sindicalista de Pereira? Quanto somaram efetivamente para a campanha majoritária os votos dos vereadores que ele ajudou a eleger e dos tantos outros candidatos que não se elegeram? O voto não é vinculado: o eleitor vota em quem quiser para um cargo e para outro. Alguns dos que estavam com Eli estão agora com Guti, como é o caso de Gilvan Passos, Lamé e Paulo Sérgio, além do articulador político Rabih Kalil. Resta saber, é verdade, se continuarão com o prefeito até o fim. Atenta a isso, Fran tem estado com frequência nas redes sociais.

Elói Pietá age como candidato e é paparicado por onde passa por eleitores saudosos de sua gestão. Tem a seu favor o carisma e a experiência. Tem contra si o desgaste do PT e o fato de estar há décadas na política. Em comentários nas redes sociais, internautas dizem “Mais do mesmo? Não tem gente nova na política de Guarulhos?”. Tem. Até no PT, de certa forma.

Uma das fragilidades de Pietá é que não tem o controle do partido. Quem o tem é o deputado federal Alencar Santana, que já se declarou pré-candidato à Prefeitura e nada tem a perder se disputar e não chegar ao segundo turno.

A tendência é Elói sair candidato por outra legenda, talvez a Rede de Marina Silva e Alexandre Zeitune. Ponte forte é que foi o mais votado na cidade entre os nomes locais que disputaram as eleições de 2018, com 48 mil votos. Ponto fraco é que perderia boa parte dos militantes petistas, dividindo-as com Alencar. Por via indireta, estaria ajudando a polarizar a campanha entre Guti e Fran, disputando com Alencar um hipotético terceiro lugar.

E Alencar tem chances? Mínimas, em minha opinião. Elegeu-se federal, mas em Guarulhos teve apenas 16 mil votos. Dai a chegar ao segundo turno, há uma imensa distância. O slogan “PT nunca mais” também pesa contra ele, alguns comportamentos condenáveis que viralizaram nas redes sociais também. Mas há de considerar que o partido ainda é o preferido por muitos eleitores.

Outros nomes circulam, alguns dos quais já combinados com Guti, como é o caso do deputado estadual Jorge Wilson. Sabe das remotas chances de ganhar o Bom Clima, mas lhe interessa um acordo em eventual segundo turno, para apoiar a reeleição do prefeito e lhe garantir espaço na administração, como atualmente tem a Secretaria de Esportes e o Procon. Fausto Miguel Martello também já se mostra disposto a concorrer mais uma vez, mas é muito provável que em acordo com Guti, pois lhe interessa manter o fornecimento de obras e materiais para a Prefeitura e a Proguaru, além, é claro, de assumir o papel de bater em Fran, poupando Guti dessa tarefa para desidratar a campanha da concorrente. Não se pode esquecer do deputado estadual Márcio Nakashima, que também nada tem a perder se for candidato a prefeito pelo PDT. E o ex-deputado Gileno, que, embora não tenha sido reeleito estadual, goza de muita popularidade em setores da cidade. Seu apoio pode fazer diferença.

E já que falei em algo de novo, tem o Partido Novo, que conseguiu superar a barreira de 150 filiados pagantes e, assim, pode lançar candidatos a prefeito e à Câmara. Um dos nomes para o Bom Clima é o do advogado Wilson Paiva, que foi candidato a estadual em 2018, pelo PR, e teve em Guarulhos 10 mil votos. O PSL do presidente Bolsonaro nutre a esperança, segundo o senador Major Olímpio, de que Wilson mude de partido e seja o candidato da legenda a prefeito. Nesse caso, ele ganharia o status de candidato do presidente da República, mas perderia o trunfo de concorrer por um partido, pelo menos até agora, livre da pecha de carreirista. O Novo não aceita verba do Fundo Partidário e defende redução da quantidade de assessores de livre nomeação, enquanto o PSL está atolado em denúncias de candidaturas-laranjas e de uso indevido da verba do Fundo Partidário. As chances de Paiva residem exatamente no fato de ser nome novo na política. Caso ele saia do Novo, o partido dispõe de outros nomes, como o do empresário Wilson Lourenço Jr., tido como muito próximo do prefeito Guti. O presidente da Associação dos Delegados de Polícia, o guarulhense Gustavo Mesquita Galvão Bueno, é também filiado ao Novo. Seu nome já foi cogitado como possível candidato. O prefeito Guti manifestou desejo de ter um vice do Novo, mas o partido adiantou que não cogita a possibilidade de não lançar candidato a prefeito.

Enfim, muita água ainda irá rolar sob essa ponte. Outros nomes podem surgir e alguns dos cogitados podem não se confirmar. Vamos acompanhar. Prometo nova análise do cenário no final de 2019. Como aqui está apenas uma opinião pessoal, com base na mera observação do andar da carruagem, não há nenhuma pretensão de prever o futuro. As urnas guardam segredos e os eleitores também. A verdade só é conhecida após as apurações. A história registra que nem sempre, aliás.

Valdir Carleto