Por Michele Barbosa

Aparelhos nos dentes, calças acima do umbigo e óculos maiores que o rosto compunham o visual dos nerds do passado que se isolavam de tudo e de todos e passavam horas nos estudos. Eles evoluíram comportamentalmente tornando-se descolados e existem até os que curtem tudo o que um “não-nerd” curte. Gostam de músicas e alguns ingerem “bons drinks”, mas antes do primeiro gole de cerveja eles discutem a origem de tal.

Para entender melhor esse “universo” nerd, vamos começar do princípio. As palavras nerd e geek inicialmente eram pejorativas – o termo geek era usado em shows de circo no começo do século XX para classificar aberrações. Depois, elas indicavam aquela pessoa introspectiva, com dificuldade nas relações sociais, que prefere ficar enterrada em livros fantásticos a ir para uma festa.

Os estudiosos de plantão, que não tinham amigos e que eram chacota na escola, praticamente ficaram no passado, esses estudiosos hoje ganham dinheiro criando start-ups e protagonizam filmes e séries como o “The Big Bang Theory”, que conta o dia a dia de quatro amigos nerds (os físicos Sheldon e Leonard, o engenheiro aeroespacial Howard e o astrofísico Raj). Apesar de o assunto central envolver o que são “coisas de nerds”, os personagens (exceto Sheldon) também curtem sair para bares e azarar as mulheres – com certa dificuldade por causa da timidez, mas se esforçam. Leonard é o mais desenvolto, que fatura o coração de sua vizinha Penny, uma linda loira que se apaixona pelo físico. “Uma boa representação de casos extremos de ‘nerdice’ é essa série que tira muito do seu humor da inadequação e idiossincrasias nerd. Eles são gênios, mas penam para dar um oi a uma garota e podem passar horas discutindo sobre ‘O Senhor dos Anéis’”, explica Guilherme Solari, jornalista, autor do livro “As Crônicas do Cascavel” e especialista do universo nerd.

Deixe que digam, que pensem, que falem

O analista de marketing Fernando Mauro de Araújo (foto), 30, adora livros – ele lê um por semana, coleciona HQs (histórias em quadrinhos), Action Figures (bonecos e figuras de ação), DVDs/Blu-Rays (com filmes e séries), gosta de ciências e história, passa horas assistindo a canais de documentários e não sai do cinema. “Sempre gostei muito de leitura. Era do tipo que vivia na biblioteca da escola e pedia dispensa das aulas de educação física para ler alguma coisa. Ainda criança, ganhei do meu primo a trilogia ‘A Morte do Superman’. Foi meu primeiro contato com HQs. A partir daí meu interesse por esse tipo de leitura apareceu e fui descobrindo outros estilos”.

Somando a todas essas paixões, Fernando contar ser fã de Harry Potter, inclusive participa de eventos do segmento e sempre que pode se reúne com amigos com o mesmo interesse e se veste de Harry.
Apesar de a maioria de seus amigos ser nerd, Fernando tem amigos que não são, mas nem sempre foi assim. “Na época de escola, o termo nerd era motivo de gozação por estar mais ligado à leitura e gostar bastante de estudar. Não ser da ‘turma do fundão’ e estar sempre com algum livro ou HQ embaixo do braço já eram motivos para ser alvo de provocações”.

A namorada do jovem, Jamilly Brandão Alvino, 20 anos, estudante de Letras,fernando e namorada em evento nerd afirma ser nerd e diz que conheceu Fernando em um evento no qual foram apresentados por um amigo em comum. “Temos muitos pontos em comum que me atraíram bastante. Nós gostamos de visitar feiras, ver filmes e fazer coisas de nerds em geral”.

Para ela, a garota nerd era mal vista principalmente pelos meninos, mas hoje conseguiu conquistar seu espaço e apenas o gosto de determinadas coisas as difere das demais garotas. “Vaidade não depende do título nerd. Toda e qualquer mulher pode ou não ser vaidosa. Não é porque ela é nerd que vai usar determinada coisa e ponto final. Eu, por exemplo, adoro salto alto, mas não dá para usar em um evento com mais de 6 horas, em que eu vou ficar em pé, abaixando e levantando para ver o que está sendo exposto, então opto por um tênis. Quanto à maquiagem, também vai de pessoa para pessoa, eu gosto e uso sempre”.

Não se misture com essa gentalha: os não-nerds

Há quem diga que o comportamento reservado dos nerds se dá pelo fato de eles acharem que são muito inteligentes para se misturar com outras pessoas que não compartilham dos mesmos gostos que os seus. “Às vezes me parece que existe uma tendência a viver apenas nesse mundinho. Tem um pessoal que só sabe e só quer falar de ‘nerdice’. Eu gosto de filmes de zumbi, mas gosto de ler Shakespeare. Não digo que todo mundo precisa caçar clássicos ou algo do tipo, só que o mundo é grande e vale a pena correr atrás de outras referências. O mesmo vale para o oposto, que nem dá chance a algo por ser ‘coisa de nerd’”, pontua Guilherme Solari.

Ao contrário de Fernando, o jovem nerd citado no início do texto, o professor e doutor em geologia Ivan Claudio Guedes, 35, é mais reservado e tem poucos amigos. Claudio afirma que tem amizade com pessoas que não são nerds e explica que tem bom relacionamento com elas, mas fica apenas no campo do coleguismo ou somente do trabalho. Já seus amigos mais chegados são nerds que segundo ele, são pessoas inteligentes que lutam por uma sociedade melhor. “Ser intelectual ou nerd no Brasil não é sinal de status, eu posso dizer que é quase um sinal de pobreza, uma vez que a nossa sociedade não valoriza o intelecto”.
Para o professor, os nerds contam com um mundo particular deles. “Via de regra, temos por hábito nos excluir e sermos excluídos. Na realidade, na maioria das vezes, as rodas de conversa não nos interessam: futebol, novela e moda são assuntos que não estão no nosso rol de interesses. Preferimos física-quântica, robótica e análises sociais”.

Nerd da nova geração

De acordo com Guilherme, o mercado nerd é muito lucrativo. É uma tendência mundial e no Brasil também tem iniciativas de empresas que enxergam cifrões quando pensam em nerds, por isso que eles conquistaram seu espaço e são mais aceitos pela sociedade. “Alguns exemplos são: a editora Aleph, que investe no gênero em particular com os livros de Star Wars; a livraria Cultura, que abriu uma loja geek; e a grande venda de action figures com preços altíssimos. Além das feiras cada vez maiores, como Comic-con Experience, ComicFest, entre outras”.

O especialista explica que hoje em dia é menos comum um nerd ser caçoado e que o interesse por coisas nerds é tão difundido que qualquer pessoa pode ser um nerd, como um advogado engravatado ou a médica que te atende. “Às vezes aquele motoqueiro todo tatuado com cara de poucos amigos se empolga todo se você começar a falar sobre o Godzilla”.

Você é nerd?

Uma dica infalível para responder essa questão é: se alguém confundir Star Wars com Star Trek e você se enfurecer e corrigir na mesma hora, pode acreditar que a resposta é sim!

Dica de leitura

Engana-se quem disse que apenas os nerds apreciam a boa leitura, afinal há obras para todos os gostos; e uma dica que pode agradar grande maioria é “As Crônicas do Cascavel”, que conta a história de Valter, um pacato dono de locadora que, após ser inúmeras vezes assaltado, resolve usar seu conhecimento enciclopédico sobre filmes de tiro e pancadaria para se transformar no Cascavel e salvar São Paulo do crime. “Com o Kickboxe do Van Damme, o pugilismo do Stallone e as frases de efeito do Bruce Willis, o enigmático e cômico personagem promete ganhar ainda mais fãs e seguidores”, explica o autor Guilherme Solari.
De forma divertida, segundo Guilherme, o livro homenageia grandes filmes de ação dos anos 80.

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