Por Jônatas Ferreira
Fotos: Marcelo Santos

A ginasta guarulhense Rebeca Rodrigues Andrade, 17 anos, nascida e criada na Vila Fátima, deu seus primeiros saltos com apenas 5 anos de idade no Ginásio Bonifácio Cardoso, localizado na Vila Tijuco. Com seus muitos voos e piruetas, realizou o sonho de todo atleta: a Olimpíada, conseguindo o 8º lugar em grupo e o 11º lugar entre as melhores do mundo na ginástica artística no Rio-2016. Apesar de não ter obtido medalha, cativou o público com suas performances alegres e mostrou ser uma grande promessa para 2020. Com muita simplicidade, simpatia e um belo sorriso no rosto, Rebeca recebeu a equipe da Revista Weekend e concedeu entrevista exclusiva em sua casa.

Como você chegou à ginástica artística?

Foi através da minha tia, que trabalhava no ginásio. Ela ia levar as minhas primas e perguntou para minha mãe se ela queria que eu fizesse o teste. Gostaram de mim e daí não parei mais.

rebeca andradeMesmo com as dificuldades que você passou na cidade, você se sente representando Guarulhos?

Sim! Minha mãe e meus irmãos estão aqui. Eu nasci em Guarulhos. Quando minha mãe queria comprar uma casa, eu queria que fosse aqui. Tudo sempre em Guarulhos. Quase todas as pessoas que eu gosto: minha família, amigos, estão aqui. Eu gosto muito daqui.

O que a motivou a não desistir?

A vontade de dar uma vida melhor para a minha família. E também gosto muito de ginástica. Eu consegui dar uma vida melhor para eles e agora faço mesmo porque eu amo.

Você competiria por Guarulhos?

Sim.

E como isso poderia acontecer?

Eu acho que se o ginásio melhorasse, todos os treinadores e atletas gostariam de treinar aqui. Quando eu era pequena, o ginásio era muito bom. Era um espaço ótimo para se dar treino, os aparelhos eram novos. Quanto melhor o lugar for, todo mundo vai escolher ficar naquele ginásio.

Você chegou a voltar ao Bonifácio Cardoso?

Sim. Eu fui faz uns dois anos, e não está nada parecido como era antes. Os aparelhos eram os mesmos que eu usava há 10 anos. Não estava péssimo, mas ruim. Poderia ser melhor.

Como você chegou ao seu atual time, o Flamengo?

Foi minha treinadora Keli e meu treinador Chico. Eles saíram de Curitiba para dar treino em Guarulhos e quando eles voltaram, a Keli me chamou para ir junto e conversou com minha mãe. Eu treinei em Curitiba um ano, e depois, já com 10 anos, fui para o Rio.

Rebeca-Andrade-entrevistaQuando sua carreira começou a melhorar?

Melhorou mesmo depois de 2012, quando ganhei o Troféu Brasil de Ginástica Artística, competindo com a Dani e a Jade [Daniele Hypólito e Jade Barbosa]. Aí meu nome começou a ficar mais conhecido.

Sabemos que a carreira de um atleta é curta. Você tem pretensão de cursar faculdade?

Eu já quis ser médica. Só que, nossa!, é muito difícil. Depois, veterinária, porque eu amo animais. Mas depois escolhi: artes cênicas. Acho que tenho um lado meio artístico e vou me dar bem. Eu também quero dublar e fazer coisas diferentes.

Na vida de uma ginasta, o que é mais difícil? As dores que ela passa ou receber uma nota baixa?

As notas baixas. Porque com a dor a gente convive sempre. Todo mundo sente dor. Com algumas, a gente acaba se acostumando; com outras não, mas tem jeito. Já a nota baixa, não. Saiu aquela nota, você não pode fazer nada.

Sobre as suas notas na Olimpíada do Rio…

Merecidas. Algumas eu gostei, outras não. Eu não fiz no último dia uma ótima apresentação; então, o lugar que eu fiquei eu achei ótimo, porque eu sei que poderia fazer melhor.

O que a atrapalhou?

Acho que eu estava cansada mesmo, foi a primeira Olimpíada. Além de competições uma atrás da outra, é difícil.

No que ver a Jade Barbosa saindo da cadeira de rodas a influenciou na competição?

Nada. Eu nem vi que ela tinha saído na cadeira de rodas. É claro que na hora que ela se machucou eu fiquei um pouco assustada, porque eu treino com ela há quatro anos, é muito tempo juntas. Mas eu tentei manter o foco e então não me influenciou em nada.

Rebeca-Andrade-MS-6O que pessoas como a Daniele Hypólito, Daiane dos Santos e Jade Barbosa representam para você?

Elas são meus ídolos. Eu praticamente comecei na ginástica assistindo à Daiane, ela é minha inspiração. Antes eu pensava: ‘nossa! Eu quero ser igual a ela’. E hoje eu vejo que eu sou do meu jeito, mas com o mesmo talento e potencial que ela tem. A convivência com a Jade é muito boa! A gente briga, para de se falar. É igual irmão, mesmo. É muito boa a presença dela, porque ela ensina de jeito diferente. Não muda a técnica de como os treinadores falam, mas, às vezes, você não está conseguindo fazer e ela sempre tem uma carta na manga. Com a Dani é a mesma coisa, é muito bom.

Quando se erra, principalmente no início, é difícil manter a concentração. Como você lida com essa situação?

Agora tem que fazer melhor.

O que você pensou quando balançou na trave?

Segura! Não cai! (risos). Aí eu fui no solo e fiz melhor.

Como é a sensação de ter o peso da torcida brasileira em uma Olimpíada em casa?

É muito bom! Essa pode ser a última vez que tenha uma Olimpíada no Rio e é muito gratificante. As pessoas estavam realmente torcendo por mim. E mesmo sem a medalha eles me elogiaram e falaram que eu fiz uma ótima apresentação. Eles reconheceram o esforço de 13 anos de treinamento. Eles sabem que eu posso fazer melhor e eu também sei. Espero que em Tóquio eu faça (risos).

O que diz sobre a Simone Biles?

Ela é surreal. É de outro mundo. Ela é supersimpática, conversa com todo mundo. É gente como a gente, mas ela é extraordinária mesmo!

No que a música da Beyoncé influencia na sua apresentação?

Eu me sinto uma diva, porque ela é uma diva. E para você fazer uma série com a cantora que você gosta, precisa se sentir como a cantora (risos).

O que faltou para a medalha?

Eu realmente não sei. Acho que não faltou nada, eu fiz o meu melhor, mas se eu fizesse as séries que eu fiz no primeiro dia, talvez eu conseguisse a medalha.

Quando você machucou o joelho, em 2015, o que você pensou?

Que eu iria parar, mas minha mãe não deixou.

Quais são os seus maiores sonhos?

Agora eu não posso mais falar que é chegar até 2016 (risos). Mas é ganhar uma medalha na Olimpíada e no Mundial.

Pense rápido

Artista: Beyoncé;
Prato principal: pizza;
Time do coração: Corinthians;
Filme: Marley e eu;
Ídolo: Minha mãe.

Rebeca-Andrade-MS-48Mãe pede mais apoio aos atletas de Guarulhos

Rosa Rodrigues dos Santos, 45 anos, mãe da pequena Rebeca, contou que teve muita força e fé para poder apoiar o talento que tinha em casa. Morando em uma casa de um cômodo, com oito filhos, levava a filha a pé para os treinos, enfrentando muitas dificuldades financeiras. “Por um tempo, ela [Rebeca] chegou a parar, porque eu não tinha mais condições. Até que procuraram por ela e eu expus a situação. Foi quando conseguiram um cartão de ônibus, que demorava demais para recarregar. Meu filho mais velho, que na época tinha 13 anos, me ajudou muito, levava ela da Vila Fátima até o ginásio a pé”.
Rosa conta que comprava os uniformes e collant com vaquinha de parentes e também dos funcionários do ginásio, que viam o potencial de Rebeca. “Eu não tinha noção do potencial dela. Para mim ela ia, brincava, e voltava com medalha. Eu só percebi em 2006, quando eu a vi competindo”.

Para a mãe de Rebeca, a cidade é um reduto de bons atletas, mas falta mais apoio. “Não adianta ter só o local, precisa dar assistência, como transporte, que é o que, às vezes, mais pesa”. Além de Rebeca, Rosa tem outros talentos na ginástica: seus filhos Iago, 14, Vitor, 11 e Igor, 8. “No tempo dela, ainda era melhor. Eles não tiveram nem condução”.