O médico José Sérgio Iglesias Filho, que assumiu a Secretaria da Saúde após a saída de Roberto Lago, fez questão que a adjunta, Graciane Dias Figueiredo Mechenas,
participasse da entrevista. Ela foi sua vice, quando ele presidiu a APM Regional Guarulhos.

Há quanto tempo estão na Prefeitura de Guarulhos?

Sergio: 33 anos
Graciane: 19 anos

Quais cargos já exerceram no serviço público?

S – Tive uma rápida passagem pelo Estado, mas minha experiência é praticamente toda na Prefeitura. Fui assistente do então secretário Pedro Auge, fui chefe de seção, de divisão; respondi por algum tempo por diretorias… Mas o que mais fui na Prefeitura foi médico ortopedista. Nos últimos sete anos, coordenava o serviço de ortopedia do Hospital da Criança. Fui chefe de ortopedia e de divisão no HMU. Atuei no PA Dona Luíza e na Policlínica Paraventi.

G – Todo tempo no HMU; fui chefe de seção da clínica médica a convite do Dr. Sérgio; fui também chefe de divisão por duas vezes, chefe de plantão. Fui gerente da Policlínica Paraíso, por oito anos, pela OS Santa Casa de São Paulo.

Fotos: Paulo Rodrigues |Agência E! para a Revista Guarulhos.

Então, não se assustaram com a máquina pública…

S – Mesmo assim! É assustador o quadro que nós encontramos no início da gestão Guti, no que se refere às questões financeiras. Creio que tenhamos sido escolhidos pelo aspecto técnico, porque nem eu nem a Dra. Graciane temos militância partidária.

Aos sete meses da atual gestão e a três de sua posse como secretário, aceitaria se fosse agora esse desafio?

S – Toparia e talvez até acordasse mais cedo do que tenho acordado. Não trabalho menos de 12 horas na Secretaria. É muita garra, vontade, determinação. Estamos muito satisfeitos, mas o diagnóstico é de uma situação extremamente difícil. Além das queixas da população, temos os indicadores de saúde, alguns muito preocupantes. Como maior demanda na urgência e emergência do que na atenção básica; mortalidade infantil elevada; cobertura vacinal precisa melhorar e o grande desabastecimento decorrente da astronômica crise financeira.

Qual é a maior carência?

S – Na atenção básica. Pois o ideal é que as soluções fossem encontradas pelos usuários nas regiões onde moram, sem ter de procurar os hospitais, PAs e UPAs, que estão sobrecarregados com consultas simples. As unidades básicas estão desassistidas nas equipes e no propósito de trabalho; quando as pessoas buscam nos locais de urgência o atendimento que deveria ser nas UBS, acabam inviabilizando o correto funcionamento desses locais.

Qual o percentual desses casos no HMU e outros locais que só deveriam atender urgências e emergências?

G – No HMU, de 80 a 90% as classificações azul e verde, que são as de baixo risco.
S – Houve dias de chegar a 93%.

É falta de informação ou porque o povo desistiu de ir às UBSs?

S – É bem complexo. A atenção básica deveria vir antes da UBS. Ou seja, cuidar da saúde para não ter de cuidar da doença. As ações de prevenção ainda dependem de um investimento muito grande do governo. Como os pacientes não encontram o que gostariam nas UBSs, vão, por exemplo, ao HMU. Precisam de um raio-X imediato ou um exame laboratorial, ou mesmo uma consulta, sabem que, mesmo com demora, terão lá o que precisam. Isso só deveria ocorrer em casos extremos e não nos corriqueiros. Neste governo, queremos oferecer uma atenção mais organizada e reestruturada, que possa fazer a prevenção e o atendimento inicial; se houver necessidade de uma ação mais imediatista, irá para uma UPA ou PA e de lá a pessoa retorna para sua casa já com a solução ou, se for o caso de internação ou de assistência de maior complexidade, será direcionada ao hospital.

Fotos: Paulo Rodrigues |Agência E! para a Revista Guarulhos.

HMU e Hospital da Criança então só deverão atender casos encaminhados pelas outras unidades?

S – Não queremos fechar as portas dos hospitais. No passado, houve quem quisesse que o HMU desse 30 mil consultas. Isso seria a falência do sistema. Hoje ele dá 13 mil consultas e o ideal seria que não passasse de mil, porque as pessoas deveriam ser atendidas nas suas regiões.
G – Creio que o governo Guti tem usado bem as redes sociais para informar a população, pois isso dá para fazer sem custo. A abertura de UBSs aos sábados têm deixado-as mais perto dos usuários, que não podem ir durante a semana. Isso já tem algum efeito para a redução da procura nas unidades de urgência.

Quantas têm funcionado a cada sábado?

G – Em média, cinco UBSs, sempre nos bairros mais distantes.

Em quais casos as pessoas devem procurar cada tipo de atendimento?

S – O ideal são as equipes multidisciplinares, do Programa de Saúde da Família. Uma equipe que cadastra as pessoas, acompanha as pessoas, com levantamento da evolução das doenças, calendário de vacinação, exames periódicos preventivos. A solução não é apenas ter médico nas unidades. Não é dispensar o papel do médico, mas desmistificar. É um trabalho de médio e longo prazos.

A maior queixa que se vê é de falta de médicos nas UBSs. O que estão fazendo para resolver isso?

S – Tínhamos UBS sem nenhum médico. Ao mapear a cidade, notamos uma concentração muito grande na região central. Em seis meses, fizemos 1.090 remanejamentos na área da saúde, não só de médicos, lógico. Usamos critério de antiguidade e avaliação funcional, para que escolhessem as unidades. Foi angustiante, muitos ficaram descontentes, tivemos pressões de populares e de vereadores inclusive, mas o governo nos deu apoio, porque era preciso agir. Hoje não há nenhuma sem médico. Pode ocorrer um caso isolado, por férias ou licença e teremos de remanejar.

 

Secretária de Saúde de Guarulhos, Sergio Iglesias. Fotos: Paulo Rodrigues | Agência E! para a Revista Guarulhos.

E quanto ao Saúde da Família?

 

S – Tínhamos 105 equipes e estamos ampliando para 118. Neste ano, o investimento é maior na reorganização da urgência e emergência, mas em 2018 o governo Guti deve investir pesado na atenção básica e psicossocial. Todas são próprias. Gerenciamento por terceiros só na urgência e emergência e nos CAPS. Queremos que em dois anos chegue a 200 equipes.

Há controle de médicos que faltam aos plantões?

S – Faltas podem ocorrer, por envolver muitas pessoas. Até agora, no entanto, não tivemos nenhuma denúncia na nossa rede. Se vier a ocorrer, será apurado. Talvez a classe médica tenha notado nossa presença e determinação e, por isso, esteja empenhada em colaborar com o novo modelo de gestão que implantamos. E, se há duas pessoas chatas para cobrar produtividade, somos eu e a Graciane. Nossa experiência como presidente e vice da APM, os tantos anos de HMU juntos… nossos colegas nos conhecem bem.

Graciane Dias Figueiredo Mechenas. Foto: Paulo Rodrigues | Agência E! para a Revista Guarulhos.

Creem que esteja se conseguindo espírito de equipe?

G – Sem dúvida. Está tudo muito próximo. Temos feito visitas constantes. A APM está presente. O Sindicato tem vindo, feito reuniões. O diálogo é permanente, pois os colegas sabem que até dezembro estávamos ali, na ponta.

A contratação do Instituto Gerir para administrar o HMU, Hospital da Criança e Policlínica Paraventi foi feita sem licitação e isso provocou suspeita de favorecimento. Qual o critério legal para a escolha?

S – Entendo que atribuir à Gerir essa tarefa foi a atitude mais arrojada do novo governo. Isso nos facilitou muitas coisas. Em janeiro, nos deparamos com a dívida de mais de R$ 7 bilhões. O governo anterior bloqueou todos os empenhos; mais de 300 fornecedores da Saúde estavam sem receber, inclusive alguns empenhados; desabastecimento absurdo de medicamentos e insumos; a população lotando os hospitais e pronto-socorros porque as unidades básicas estavam inoperantes… Havia espera de 12 horas no HMCA, dez horas no HMU. Havia um sistema do qual discordamos de plantão por convocação, que remunerava o plantonista por um valor muito acima do normal; adotava-se uma jornada pequena para o profissional e se pagava praticamente o dobro pela jornada de convocação. E mais: se o médico avisasse com antecedência, até poderia não ir ao plantão. O dr. Roberto Lago assumiu a Secretaria, eu a Diretoria de Urgência e Emergência, a dra. Graciane como adjunta. Começamos a conversar com os colegas e explicar que não podia continuar aquilo. Havia excesso de pacientes, faltando manutenção de aparelhos e equipamentos. Podemos enumerar 100 itens que, se faltar um, tudo para! Gaze, soro, cânula do soro, oxigênio… Precisávamos de uma medida imediata, pois no feriado de Páscoa tínhamos o Hospital da Criança com 98 leitos, uma UTI com dez leitos, pronto-socorro com seis crianças em estado grave em observação e apenas dois médicos. Em algumas áreas não havia profissionais remanescentes de concursos e fazer um novo demandaria tempo. Era impossível fazer um chamamento, porque seria um processo lento, haja vista o que está acontecendo com o Hospital Pimentas. Quem pode questionar a forma de contratação? A Fundação ABC, SPDM, os que administram as unidades de atendimento psicossocial, também não passaram por licitação. Todos são convênios. O governo tinha ido conhecer o trabalho da Gerir em Goiás. É um instituto extremamente organizado, como foi mostrado em uma reportagem nacional recente, pelos excelentes resultados obtidos no Hugo (Hospital de Urgências de Goiás), onde eles estão há cinco anos. O prefeito Guti deu todo respaldo para o Gerir assumir os dois hospitais que estavam numa situação muito crítica. Incluímos a Policlínicas Paraventi porque queremos adotar um novo modelo no qual a UPA, o pronto-atendimento seja a referência, a porta de entrada do paciente. Essa unidade irá passar por um sistema mais dinâmico de gestão. Depois, a Paraventi será uma espécie de filtro desses dois hospitais. Não é certo dizer que houve terceirização, pois os hospitais continuam públicos, o modelo de gestão foi feito por mim, dra. Graciane e por nossa equipe. A Gerir assumiu o nosso projeto de gestão.

Custa quanto mais?

S – Fizemos um estudo de economicidade, embora esse não fosse o foco da gestão Guti no que diz respeito à Saúde. O custo anterior era de R$ 17 milhões por mês; agora as três unidades somadas custam R$ 13,5 milhões, com essa nítida eficácia. Isso permitiu que fizéssemos outros investimentos. A adequação física do HMU foi feita por eles. Havia recursos de um Termo de Ajustamento de Conduta, de R$ 3,5 milhões, que estavam retidos e que só serão pagos uma vez. Toda economia que houver nesse modelo de gerenciamento será reinvestido nas unidades. Há a Cafi (Comissão de Acompanhamento e Fiscalização), que é muito rigorosa e avalia a prestação de serviços de forma qualitativa e quantitativa. Se não houver a prestação de serviços pactuada, pode haver descontos. Os convênios com a SPDM e a ABC tinham prazos longos a respeitar. O da Gerir, a partir de três meses, podemos rescindir. Não cremos que isso vá acontecer, mas temos essa possibilidade, se for necessário.
G – É preciso diferenciar contrato de gestão e convênio. Contrato de gestão exige licitação e a primeira de Guarulhos será a que estamos fazendo no Pimentas.

Há queixas quanto a compressores e outros equipamentos odontológicos danificados ou sem condições de funcionar em UBSs. Em quanto tempo isso será resolvido?

S – Foi feito um inventário geral quando assumimos. Todo abastecimento e manutenção estavam comprometidos no início do ano. Não se consegue quitar toda pendência de imediato; fizemos reuniões com fornecedores, a Secretaria de Finanças pôs a Saúde como prioridade número 1. Quanto aos compressores, obtivemos da Universidade Santo Amaro, graças ao professor Veronezi, 13 cadeiras odontológicas. Falamos com ele e outras passaram a ser doadas já com compressores. Outros estão sendo consertados. Cremos que em breve essa carência estará suprida. Já o desabastecimento, ainda vai demorar mais um tempo.
G – Por causa desse problema, chamamos à função original quatro técnicos de manutenção que estava em área administrativa.

Há o caso de um tomógrafo novo do Hospital Pimentas que não estava funcionando…

S –Por mais que nossa equipe esteja coesa e ativa, ainda aparecem surpresas. O tomógrafo parou de funcionar, contatamos a empresa que o forneceu para vir fazer manutenção, porque estava na garantia, quando soubemos que o tomógrafo não havia sido pago. Foi uma compra emergencial, houve questionamento pelo Tribunal de Contas, daí um desacerto financeiro. Resultado: tivemos mais 905 mil reais de dívida para saldar. Levamos o caso ao Guti, Finanças fez um acordo com a GE, começamos pagar e o aparelho foi consertado.

O prefeito fala em pôr a casa em ordem quanto à Saúde ainda em 2017. Isso é exequível?

S – Montamos uma boa equipe, fizemos um correto diagnóstico e entendemos que avançamos bastante. A cada dia estamos pondo a casa em ordem.
G – Basta ver tudo que foi feito em seis meses: entregamos a UBS Primavera, que estava pronta, mas sem funcionar; a UPA Paulista estava há quatro anos pronta e já está em plena atividade. Abrimos mais dois Cemeg (Centros de Especialidades); ampliamos as especialidades no Cemeg São João. Promessa de campanha: quatro Cemegs; vamos cumprir neste ano; abrir a UPA Paulista; já cumprimos. A UPA Cumbica será cumprida no segundo semestre. Inauguramos o CER (Centro de Especialidade em Reabilitação), que atende casos agudos de quem tem deficiência física e mental; e abrimos o Campd, que nem era previsto; atendimento multidisciplinar de pessoas com deficiência, pacientes crônicos. O CER fica atrás do Cemeg, na vila Augusta. E o Campd, numa travessinha da rua São Jorge.

Como está o entrosamento com a área estadual da Saúde?

S – Bem diferente daquela antiga dicotomia. Estamos mantendo ótima interação tanto com o Hospital Geral quanto com o Padre Bento. Afora o Estado, também com a direção do Stella Maris, cuja qualidade é bastante eficiente, mas precisamos aumentar a quantidade de atendimentos. Quanto ao Pimentas-Bonsucesso, fizemos um estudo de produtividade que os novos gestores, que vencerem a licitação, terão de cumprir. Importante citar que esse hospital tem dois andares ainda no concreto, após dez anos de inaugurado.

Em quais casos a população deve procurar cada tipo de unidade (UBS, UPA, HMU…)?

S – Nas UBSs deve-se ir primeiro para prevenção; inclui vacinação, avaliações periódicas de pressão, diabetes, ginecológica, urológica para os homens, exames de rotina, tratamento odontológico… Para ser atendida pela equipe multidisciplinar, deve ter cadastro na unidade, ter cartão SUS em dia, envolver-se com os agentes comunitários de saúde; as Unidades de Saúde da Família precisam abraçar essa pessoa no primeiro momento. Em uma intercorrência menor, deve procurar a UBS para ter uma assistência inicial.
G – São poucas as UBSs que não têm agentes comunitários e a tendência é que todas tenham.
S – O PA ou UPA deve ser procurado em um estado agudo: uma queda, um corte, febre alta, conjuntivite, vômito, infecção de urina, enxaqueca. Os hospitais precisam estar reservados para casos mais urgentes, como traumas, ferimentos graves.

São quantos PAs e UPAs? E quantas UBSs?

S – São oito PAs e UPAs. UBSs são 69. E tem também sete Caps, que atendem patologias psiquiátricas; o Caps AD, para casos de álcool e drogas; o Caps Infantil e o Caps Tear, com atividades manuais para ressocialização. A ideia é que cada região tenha um conjunto completo de todos esses serviços. Há também a Nasf, que é uma unidade mais ampla de saúde da família, uma equipe que dá retaguarda em caso de uma complexidade maior, avalia e se for o caso encaminha a um Cemeg para os exames indicados. (ver quadro abaixo)

Maternidade pública é exclusivamente na Jesus, José e Maria?

G – Não: são três hospitais, tem também o Hospital Geral e Pimentas-Bonsucesso. E estamos fazendo gestões para que o Stella Maris possa reabrir sua assistência materno-infantil, porque a cidade precisa muito.

A população usa corretamente o Samu?
G – Em boa parte dos casos, não. Além de muitos trotes, há quem queira usar o Samu como um transporte agendado. Samu é de urgência e emergência. Temos menos ambulâncias do que o necessário e não dá para usá-las em casos que o Samu não seja imprescindível.
S – Estive com o prefeito Guti em Brasília, pedindo mais unidades ao Ministério da Saúde, porque não nos é permitido comprar.

Quem arca com a manutenção das viaturas?

S – O Município. E como elas rodam muito, requerem muita manutenção.

A operação do Samu é terceirizada?

S – Não! É própria. Só o atendimento telefônico é terceirizado.

Alguma informação mais?

S – Pedimos que a população tenha um pouco mais de paciência. A crise financeira da Prefeitura é imensa. Os números são assustadores e este ano é de reorganização. Estamos fazendo tudo que é possível. Em 2018, teremos dotação orçamentária feita por este governo e torcemos para que o País volte a prosperar e que aumente a arrecadação. Ainda será um ano difícil, mas acredito muito em 2019.