Enquanto Zélia Therezinha Lopes Mimesse, 86 anos, observava da janela de sua sala a estrutura das Casas André Luiz, seus olhos refletiam a felicidade que sua alma sentia ao rememorar as histórias que cada tijolo usado para levantar a Unidade de Longa Permanência da instituição, localizada no bairro do Picanço, possui. Isso porque os 35 mil m² de área construída, de um total de 70 mil m², só puderam ser concluídos à custa de muito empenho e sacrifício de pessoas que resolveram carregar nos ombros o lema da instituição: “A vontade de fazer o bem sem olhar a quem, tendo a certeza que aquele que recebeu nunca vai saber”, pontua a vice-presidente da Instituição, que é professora pedagoga aposentada.
Zélia dedica-se ao cargo desde quando perdeu seu marido, há 27 anos. “Uma pessoa de 86 anos poder ser útil para aproveitar tudo que estudou em prol daquele que nem vai saber que vou ajudar é extremamente gratificante, além de nos fazer uma pessoa saudável”, conta a professora aposentada, que participa ativamente do Centro Espírita Nosso Lar – Casas André Luiz há pelo menos 36 anos também exercendo trabalhos voluntários, desde quando veio de São José dos Campos para a Capital.
Segundo ela, a missão de acolher crianças com deficiência intelectual nasceu de um convite do plano espiritual que direcionou o grupo que iniciou o Centro, em 1949 e que já se dedicava ao auxílio aos pobres, à construção de um abrigo para crianças órfãs e carentes, inaugurado em 1958, em Vila Galvão. “Centro Espírita sem obras que sejam de importância para a sociedade não vale de nada”, explica a vice-presidente, embasada em passagens bíblicas, como a do livro do apóstolo Tiago, que diz: “A fé sem obras é morta”, e nos próprios ensinamentos de Jesus Cristo sobre amar o próximo, além da Doutrina Espírita.
Para ter a estrutura de hoje, foram empregados muitos esforços voluntários. No livro “Os lírios que perfumam a nossa vida”, da editora Mundo Maior, há relatos de várias pessoas que se dividiam em grupos para angariar fundos. Pediam ajuda nos pontos de ônibus, empresas e porta a porta. O dinheiro seria revertido para a compra do terreno e construção do prédio que hoje abriga a Unidade de Longa Permanência.
Muitos viraram as costas, outros fingiam que não viam os pedintes. Ora não abriam suas portas, ora olhavam desconfiados por acharem tratar-se de pessoas com más intenções. Mas nenhum empecilho abalou o ideal dos que lutavam para fazer o bem maior. A labuta trouxe os bons frutos, colhidos anos mais tarde, mas apreciados desde o momento em que viam a semente sendo plantada e regada pouco a pouco. “Foram mais ou menos vinte anos. Nada disso foi construído de uma única vez. Tudo aos poucos, com muito suor. A gente pedindo dinheiro e a sociedade nos ajudando”, conta com orgulho, ainda olhando toda a área que reúne as quatro unidades das Casas.

Zélia diz que todas as conquistas ao longo dos quase 70 anos do Centro Espírita tornaram-se possíveis com a ajuda dos voluntários, os quais considera parte vital de uma colmeia. “Todo mundo colabora, trabalha duro para conseguir fazer isto funcionar”. Há ainda, a parte primordial, considerada a responsável por fazer tudo se tornar possível: a sociedade. “O povo acreditou em nós. Todos que começaram o projeto eram pobres. Não foi um trabalho escolhido por nós, mas pela espiritualidade e por isso estamos aqui até hoje, amparados pelo plano espiritual”, conta Zélia, emocionada.
A busca por doadores e colaboradores venceu os estigmas. O corre-corre paulistano não impediu que as pessoas contribuíssem com o projeto. A princípio, quinze crianças com deficiência intelectual eram assistidas pela entidade, que passou a contar com ajuda do governo e, portanto, receber novas crianças cada vez mais. Não demorou para que a capacidade fosse atingida e o grupo se empenhasse para construir um lugar que pudesse abrigar mais necessitados.
Em 1958, se deu início à construção do primeiro prédio da unidade Picanço, na rua então chamada Eduardo Riedel, inaugurando o primeiro edifício em 1962. Nos anos de 1964, 1968 e 1974, respectivamente, foram erguidos os outros três prédios. Todos com ampla ajuda da sociedade, que cada vez mais apoiava a causa, chegando a contar, inclusive, com artistas da Jovem Guarda, como Roberto Carlos, que faziam propagandas em prol da causa.
Fazer o bem…
A Reportagem da Revista Guarulhos adentrou pelas portas da Unidade de Longa Permanência (ULP) das Casas André Luiz em uma manhã fria de segunda-feira para conhecer toda estrutura e trabalho desenvolvido no local. O que seria uma rápida conversa com algumas voltas pelo espaço, acabou sendo uma jornada imortalizada na minha trajetória profissional e pessoal, bem como na do repórter-fotográfico Rafael Almeida.

A instituição conta com 600 pacientes que vivem no local. Destes, menos da metade tem famílias que fazem visitas ou preocupam-se com o estado dos pacientes, como é o caso de Jéssica Severina Galdino, de 26 anos, que recebe visitas rotineiras da avó Nair, de 73 anos. Ela tem deficiência intelectual não especificada, e recebe tratamento das Casas há mais ou menos dois anos. Os outros que ficaram desamparados pelas suas origens têm como família os profissionais da instituição.

A primeira paciente que conhecemos foi Rosangela Barbosa, de 41 anos, que chegou na instituição quando tinha 10 anos. Além de uma cadeira adaptada, Rosangela depende de um caderno com figuras e cores desenvolvidas pelos fonoaudiólogos da casa, com base no sistema Bliss. Ela tem deficiência intelectual grave e sua comunicação é alternativa. As dificuldades impostas pela vida, contudo, não tiraram a visível alegria com que Rosangela nos recebeu, principalmente ao saber que nossa equipe a fotografaria.
As cadeiras de rodas, inclusive, são uma batalha constante das Casas André Luiz. Segundo a instituição, um desses equipamentos, adaptado conforme a necessidade de cada paciente, custa entre de 5 a 7 mil reais. Quase todas as cadeiras precisam ser urgentemente trocadas.

O palmeirense fanático José Roberto Bueno, de 56 anos, dá a todos uma lição de vida. Paciente desde os sete anos, tem variação normal de inteligência e tetraplegia. Semelhante a Rosangela, ele necessita de comunicação alternativa, porém, não usa símbolos, mas formações silábicas. Ainda assim, em 2015, o paciente lançou seu livro, escrito com a ajuda de uma voluntária e uma fonoaudióloga. Na obra “Me leva que eu vou”, ele narra a sua história e traz reflexões sobre o amor e a vida, além de poesias. O exemplar pode ser adquirido no site da editora Mundo Maior.
Apesar de todo o trabalho social, a instituição ainda sofre com o preconceito. Principalmente por conta da religião que a move, o Espiritismo. Contudo, a vice-presidente deixa claro que as Casas não fazem distinção de idade, cor, grau de deficiência, tampouco de religião. “Aqui é disseminada a religião do amor, tanto que entre os internos e os funcionários conhecemos pessoas de diversas religiões e crenças, convivendo em paz e respeito”, explica Zélia Therezinha.

Regiane Pereira Peres, 42, é uma dessas funcionárias que considera o trabalho gratificante e não se importa com a crença da instituição. Evangélica, atua como encarregada da enfermagem da ULP há pelo menos 17 anos.
Já na hora de ir embora, a equipe deparou-se com a fã das novelas do SBT Carrossel e Carinha de Anjo, Angelita Mauricio Germano, de 41 anos, voltando do seu emprego, na cozinha das Casas. Interna desde os oito anos, ela tem deficiência intelectual moderada, o que não a impede de ser um dos muitos pacientes que trabalham na própria instituição – sempre sob supervisão e com serviços leves. “Com o salário que ganham, podem comprar seus próprios pertences”, pontua a vice-presidente.
… sem olhar a quem
Hoje, a instituição conta com todos os dormitórios e banheiros adaptados conforme as necessidades dos pacientes, além de salas de terapia, enfermarias, atendimento médico-odontológico, farmácia, ambulatório médico, lavanderia, entre outros setores que integram a robusta estrutura das Casas.
Além disso, os mais de dois mil funcionários que a instituição agrega – todos devidamente registrados e com salários compatíveis com o mercado – desfrutam dos benefícios da instituição. Desde 1995, os filhos dos colaboradores, de 0 a 5 anos, podem usufruir da creche que as Casas disponibilizam.
No quadro de funcionários estão médicos, enfermeiros, dentistas, fonoaudiólogos, psicólogos, fisioterapeutas, professores de educação física, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e cuidadores, além de outros, que colaboram com a parte administrativa.
A equipe de especialistas é formada para atender os 600 pacientes da ULP e os cerca de 1.400 que passam pela unidade ambulatorial para tratamentos. Nos ambulatórios, os profissionais ainda fazem o trabalho de integração dos pacientes com a famílias, que são estimuladas a se envolver e a participar das atividades terapêuticas para conseguir desenvolver os trabalhos também em casa.
Por ano, são cerca de 230 mil atendimentos médicos e terapêuticos em todas as especialidades. Para sustentar a estrutura, a vice-presidente da casa revela serem necessários cerca de R$ 10 milhões mensais, sendo apenas 30% do total oriundos do Governo Estadual. A Prefeitura de Guarulhos, por exemplo, não colabora financeiramente com a instituição. “Procuramos uma ajuda maior do município. A administração contribui com cobertores, alimentos. Nós não podemos receber do cofre municipal”, pontua Zélia, que se orgulha pela instituição não ter dívidas, apesar de todas as dificuldades.
O restante do montante chega por meio dos donativos e sócios-contribuintes, além do Mercatudo, projeto criado há 56 anos e que hoje conta com 13 unidades espalhadas pela Grande São Paulo, Campinas e Sorocaba, que recebem materiais de doação para reforma e venda.
Esse projeto tem sido um importante auxílio para a obtenção de recursos. A Instituição revelou à Reportagem que muitas pessoas encaminham objetos de pouco proveito, fato que acaba gerando custos para o descarte correto. Em contrapartida, já houve situações de falecidos deixarem móveis de toda a casa para a entidade.
Alguns números
O valor exorbitante que a instituição necessita mensalmente tem bons motivos: a lavanderia processa diariamente três toneladas de roupas; a farmácia hospitalar dispensa cerca de 119 mil medicamentos e os pacientes fazem todas as refeições do dia (desjejum, almoço, lanche, jantar e ceia), acompanhados do serviço de nutrição e dietética da casa.
São cerca de dois milhões de refeições anualmente. Ainda há o consumo de oito mil litros de leite por mês: no ano de 2016, foram 111.684 litros. Só de feijão e arroz, por ano, são 18 e 31 toneladas, respectivamente.
Como ajudar?
As Casas André Luiz conclamam a população a ajudar, sem olhar a quem. As contribuições têm diminuído. A classe política poderia conseguir mais verbas, com emendas ou campanhas.
Ajude pelo telefone 0800 11 90 12 ou pelo site www.casasandreluiz.org.br. Para doações materiais: 2459-7000 ou www.mercatudo.org.br, além de aplicativo das Casas André Luiz, disponível para sistemas Android e IOs. O Mercatudo busca em domicílio o item de doação.
Quem preferir, pode fazer depósito bancário no Banco Bradesco, agência 3397-9, conta: 17020-8. O CNPJ é 62.220.637-0001/40




